UOL Notícias Internacional
 

11/04/2008

Krugman: histórias de horror do atendimento de saúde

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
Há não muito tempo, uma jovem mulher de Ohio chamada Trina Bachtel, que estava com problemas de saúde enquanto estava grávida, tentou obter ajuda em uma clínica local.

Infelizmente, ela já tinha procurado atendimento anteriormente na mesma clínica quando não era segurada e tinha uma grande conta não paga. A clínica não quis atendê-la a menos que pagasse US$ 100 por visita -o que ela não tinha.

No final, ela buscou atendimento em um hospital a 48 quilômetros de distância. Mas aí já era tarde demais. Tanto ela quanto o bebê morreram.

Você pode imaginar que este foi um caso extremo, mas histórias como esta são comuns nos Estados Unidos.

Em 2006, o "Wall Street Journal" contou outra história destas: a de uma jovem chamada Monique White, que não conseguia obter atendimento regular para lupo por não possuir seguro-saúde. Então, certa noite, "à medida que as lesões de pele se espalharam pelo seu corpo e seu estômago inchou, ela não conseguia dormir".

A reportagem do jornal prosseguiu: "Mamãe, por favor, me ajude! Por favor, me leve a um pronto-socorro", ela gritava, segundo sua mãe, Gail Deal. "Ok, vamos", Deal lembrou ter dito. "Não, eu não posso", respondeu a filha. "Eu não tenho seguro."

Ela foi levada às pressas ao hospital no dia seguinte após sofrer uma convulsão -e o hospital não mediu esforços em seu tratamento. Mas era tarde demais; ele estava morta poucos meses depois.

Como estas coisas podem acontecer? "Eu falo sério, as pessoas têm acesso a atendimento de saúde na América", o presidente Bush declarou certa vez. "Afinal, vocês simplesmente vão a um pronto-socorro." Não exatamente.

Primeiro, as visitas aos pronto-socorros não substituem o atendimento regular, que pode identificar e tratar problemas de saúde antes que se tornem agudos. E mais de 40% dos adultos não segurados não têm fonte regular de atendimento.

Segundo, os americanos não-segurados freqüentemente adiam o atendimento médico, mesmo quando sabem que precisam, por causa da despesa.

Finalmente, apesar de ser verdade que os hospitais tratarão qualquer um que chegar em um pronto-socorro com um problema sério -e é maravilhoso que o façam- também é verdade que os hospitais cobram os pacientes pelo atendimento no pronto-socorro. E o medo destas contas freqüentemente faz os americanos não segurados hesitarem antes de procurar ajuda médica, mesmo em emergências, como ilustra a história de Monique White.

O resultado final é que os não-segurados recebem muito menos atendimento do que os segurados. E às vezes esta falta de atendimento leva à morte. Segundo uma recente estimativa do Urban Institute, a falta de seguro-saúde leva a 27 mil mortes previsíveis nos Estados Unidos a cada ano.

Mas são realmente previsíveis? Sim. Histórias como as de Trina Bachtel e Monique White são comuns nos Estados Unidos, mas não acontecem em nenhum outro país rico -porque todos os outros países ricos possuem alguma forma de atendimento de saúde universal. Nós também deveríamos.

Tudo isso faz o circo da mídia de poucos dias atrás realmente vergonhoso.

Alguns leitores já podem ter reconhecido a história de Trina Bachtel. Enquanto fazia campanha em Ohio, esta história foi contada a Hillary Clinton e ela passou a recontá-la, sem citar o nome da vítima, em sua campanha. Ela a usou como uma ilustração do que está errado com o atendimento de saúde americano e por que precisamos de cobertura universal.

Então o "Washington Post" identificou Bachtel, o hospital onde ela morreu alegou que a história era falsa e a mídia foi até a cidade, acusando Hillary de mentir. Em vez de ser uma história sobre o atendimento de saúde, ela se tornou uma história sobre os supostos problemas da candidata com a verdade.

Na verdade, Hillary estava repetindo precisamente a história como foi contada a ela -e apesar de alguns detalhes divergirem um pouco, o essencial de sua história estava correto. Após todo o alarde, o "Washington Post" no final reconheceu que "a tragédia médica de Bechtel teve início em circunstâncias muito próximas da essência" do relato de Hillary.

E ainda mais importante, o ponto de vista de Hillary sobre o estado da saúde nos Estados Unidos era válido.

Em outras palavras, este foi um episódio deplorável. Foi particularmente triste ver vários simpatizantes de Obama (apesar de não a campanha de Obama em si) se juntarem entusiasticamente às vaias contra o esforço de boa fé de Hillary em dar um rosto humano à crueldade e injustiça do sistema de saúde americano.

Veja, eu sei que muitos progressistas desejam ver Barack Obama conquistar a indicação democrata. Mas a política deveria ser mais do que aplaudir sua equipe e vaiar o outro lado. Deveria ser sobre mudar o país para melhor.

E se ser progressista significa algo, significa acreditar que precisamos de atendimento médico universal, para que histórias horríveis como as de Monique White, Trina Bachtel e de milhares de outros americanos que morrem a cada ano por falta de atendimento se tornem uma coisa do passado. George El Khouri Andolfato

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