UOL Notícias Internacional
 

13/04/2008

Escritor aborda tabus da Síria e do Oriente Médio

The New York Times
Robert F. Worth
Em Damasco, Síria
As pessoas ainda se referem ao que aconteceu aqui nos anos 80 como "os eventos", como se fossem terríveis demais para serem descritos. A luta sangrenta dos militares sírios contra militantes islâmicos deixou ao menos 10.000 mortos na cidade de Hama e produziu um trauma que as autoridades não gostam que seja discutido.

Então, quando Khaled Khalifa decidiu escrever a respeito em seu mais recente romance, "In Praise of Hatred" (em homenagem ao ódio), ele sabia que estava tocando em um assunto tabu. O livro, um conto balzaquiano de romance e assassinato que vai do Afeganistão e Iêmen até a Síria, foi prontamente proibido quando foi publicado pela primeira vez aqui em 2006.

No mês passado, o romance, reeditado em Beirute em 2007, tornou-se finalista do Prêmio Internacional de Ficção Árabe, um novo prêmio baseado no modelo do Reino Unido Man Booker Prize. Está sendo traduzido para o inglês e outras línguas.

Bryan Denton/The New York Times 
Romancista Khaled Khalifa concede entrevista em um bar de Damasco, na Síria

Tudo isso deu a Khalifa, que é mais conhecido aqui por seus roteiros para televisão, uma nova proeminência como estrela ascendente da ficção árabe e uma rara voz pública para um tópico altamente proibido.

"Se eu tivesse vencido o Booker, o regime teria um enorme problema", disse ele com uma risada potente. "Acho que o ministro da cultura deu um grande suspiro quando perdi". (O principal prêmio foi para um romancista egípcio, Bahaa Taher, eminência parda das letras árabes.)

Um homem rude, de cabelo grisalho, Khalifa, 44, tem um humor de palhaço que permeia suas grandes ambições literárias. Ele fumou, bebeu e atacou uma mesa cheia de aperitivos durante uma entrevista tarde da noite em Ninar, restaurante em Damasco popular entre artistas sírios e intelectuais; suas longas respostas foram interrompidas por grandes risadas.

Khalifa levou 13 anos para escrever o romance, que faz uso de seus primeiros anos quando menino em Aleppo. Ali, ele viu o conflito entre os islâmicos e as forças de segurança do partido secular Baath da Síria tornar-se cada vez mais violento, com uma "cultura de eliminação" desenvolvendo-se dos dois lados.

"A principal coisa que eu queria abordar era a luta entre dois fundamentalismos", disse ele. "Lembro-me daquele peso, daquela sensação de morte dominando toda a cidade. Você estava sempre cercado por homens armados que concordavam com apenas uma coisa: se você não está conosco, está contra nós."

Apesar do romance se centrar em uma única família de Aleppo, envolve a história mais ampla do islamismo político nas últimas três décadas. Há aparições de algumas pessoas de verdade, inclusive Abdullah Azzam, líder da jihad afegã contra a União Soviética e mentor de Osama Bin Laden.

Khalifa, entretanto, insiste que não tem interesse no realismo social ou na ficção didática. A ideologia política afetou demais o trabalho de autores árabes nos anos 60 e 70, disse ele. Seus objetivos são puramente estéticos, e seus heróis são William Faulkner e Gabriel Garcia Márquez. Não foi para fazer política que escolheu escrever sobre "os eventos", mas para dar vida artística às realidades cada vez mais brutais do mundo no qual cresceu.

"In Praise of Hatred" é narrado por uma jovem mulher, e seu título vem de uma observação que ela faz sobre a forma que o ódio filtrou-se das ruas violentas para sua própria vida tranqüila: "O ódio me possuiu. Ele me excitava, e eu sentia que estava me salvando; e me dava uma sensação de superioridade que eu buscava há muito tempo."

Khalifa disse que sabia que o livro cruzava as chamadas "linhas vermelhas" no mundo árabe, e tinha medo do que aconteceria quando fosse publicado.

Não era a primeira vez, acrescentou. Seu segundo romance, "The Gipsy Notebooks", inclui material sobre o partido Baath da Síria. Foi proibido por quatro anos, não pelo governo, mas pelo Sindicato de Autores Árabes, que "tenta ser mais real que o rei", disse ele, com uma risada depreciativa.

O assunto da censura provoca um ataque de irreverência em Khalifa.

"Proibir livros é uma coisa normal para nós aqui, é engraçado, até um pouco absurdo," disse ele, com um sorriso ímpio. "Não é como na Europa -'oh, fui censurado!'", agitou as mãos fingido ansiedade. Um livro não é melhor só porque foi proibido, disse que quando os ocidentais falam de censura parece um pouco moralista para ele.

"Aqui, conhecemos pessoas no escritório da censura", prosseguiu, rindo, em frases entremeadas de palavrões. "Então, você pode ligar para ela e reclamar: 'Por que diabos você censurou meu livro?' E ela responderá: 'Por que diabos você tinha que escrever sobre isso?'"

Khalifa sugere fazer alguns ajustes. ("Não queremos viver fora da Síria e sabemos como evitar isso".) Por exemplo, em seu último romance, os alawitas, minoria religiosa à qual a família governante Assad pertence, são descritos como "o povo das montanhas"; um líder militar que lembra o irmão temido do ex-presidente Hafez Al Assad ficou anônimo.

O livro mal menciona Hama, a cidade na qual ocorreu a batalha mais mortífera entre militares e islâmicos, em 1982. Em vez disso, se passa onde Khalifa cresceu, Aleppo, que teve sua própria parcela de violência naqueles anos.

"Para mim, Aleppo foi a principal luta, porque a violência ali aconteceu em um longo período de tempo, não da noite para o dia, como em Hama", disse ele.

A celebridade literária é nova para Khalifa. Aos vinte anos, morava na casa da sua família de classe média em Aleppo, uma época miserável durante a qual escrevia ficção de meia-noite até 6h da manhã, quando a casa estava em silêncio. Sua mãe dava a ele o equivalente a alguns dólares por dia para cigarros e café. Seu primeiro romance, "The Guard of Deception", só foi publicado em 1993, quando ele já tinha quase 30 anos.

Quatro anos depois, seu primeiro roteiro de televisão foi ao ar, e ele se mudou para Damasco para um apartamento próprio. Ele começou a trabalhar para a televisão como forma de fazer dinheiro ("Eu precisava de uma forma de pagar pelo álcool"), mas hoje é um dos autores que ajudaram a séries de televisão sírias a competirem com as egípcias em popularidade pelo mundo árabe.

Atualmente, Khalifa tenta se concentrar em ficção, escrevendo a tarde toda em sua casa ou no Clube de Jornalistas. É uma figura conhecida no cenário artístico de Damasco; levantou-se várias vezes durante a entrevista para cumprimentar outros autores ou atores com abraços e beijos. Seu telefone celular tocou e, em uma das vezes -reconhecendo o número- respondeu em árabe com um familiar: "E aí, imbecil?"

Ele não é casado ("tive sorte", disse ele) e quando comentou a beleza de uma mulher que passava pela mesa, o tradutor gaguejou e recebeu um enorme sorriso jovial em resposta.

A frivolidade, contudo, caiu quando Khalifa voltou ao tema de seu romance.

"A Síria tem uma longa história cosmopolita e comercial; suas tradições são tolerantes e diversas", disse ele. "Foi isso que impediu a vitória dos islâmicos nos anos 1980."

A violência naquele período erodiu essas tradições, disse ele, infectando a sociedade com intolerância e brutalidade. "Não tivemos um retrocesso como esse em 1.000 anos", acrescentou. E apesar da Fraternidade Muçulmana, grupo que liderou a rebelião armada nos anos 1980, ser proibida, o fundamentalismo islâmico "cresceu e penetrou em nossa sociedade, especialmente entre os jovens".

"Tudo isso prejudicou tanto a sociedade", disse com tristeza. "Se o que aconteceu nos anos 80 acontecesse novamente, acho que os islâmicos venceriam." Deborah Weinberg

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