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14/04/2008

Independência de Kosovo encoraja território húngaro na Romênia

The New York Times
Nicholas Kulish
Em Sfantu Gheorghe, Romênia
Dezenas de coroas de flores com fitas vermelhas, brancas e verdes penduradas, as cores da bandeira húngara, cobriram recentemente a base do memorial da revolução de 1848 no parque da cidade de Sfantu Gheorghe. No centro do coração da Romênia, apenas uma guirlanda levava o azul, amarelo e vermelho da bandeira do próprio país.

O ano novo é celebrado duas vezes aqui, a primeira vez assim que bate a meia-noite, e a segunda depois de uma hora, quando é meia-noite em Budapeste. Quando Kosovo declarou sua independência da Sérvia em fevereiro, centenas de húngaros da cidade tomaram a praça principal para manifestarem seu apoio a Kosovo, e, por extensão, sua própria aspiração por autonomia.

A minoria húngara está pressionando por maior autonomia numa região em que seus representantes superam o número de romenos. Mais radical, o novo Partido Cívico Húngaro ergueu-se para desafiar o partido húngaro estabelecido, que têm sido membro de todos os governos de coalizão desde 1996.

Petrut Calinescu/The New York Times 
Pastor em Sfantu Gheorghe, região com uma população formada por maioria de húngaros

Aqueles que argumentam que a independência de Kosovo abriu um precedente negativo, geralmente se referem aos conflitos congelados fora da União Européia - Abkhazia e Ossétia do Sul, na Geórgia, e Transnistria em Moldova. Mas mesmo na União Européia, as fronteiras são freqüentemente arbitrárias. Muitas minorias étnicas, como os bascos e os ciganos romani, permanecem sem Estado, enquanto outras, como os húngaros da Romênia, Eslováquia e Sérvia, ainda estão separadas de seus irmãos.

A minoria húngara daqui, conhecida como szekler, acredita com convicção que chegou o momento para a sua independência e que o Estado semi-autônomo que propôs é uma realidade iminente.

"Kosovo é um exemplo, e um exemplo muito claro, de que se quisermos viver sob nosso próprio governo, temos que declarar bem alto qual é a nossa vontade", diz Csaba Ferencz, vice-presidente do Conselho Nacional Szekler, um grupo húngaro fundado em 2003 e cujo principal objetivo é a autonomia. Os szeklers são um grupo étnico distinto dos magiares, que formam a maior parte da população da Hungria.

Apesar de suas chances de sucesso parecem poucas, eles estão pressionando, para o descontentamento dos romenos da cidade. Estes últimos alegam que, enquanto minoria local, têm menos direitos do que os húngaros como minoria nacional.

A região húngara, que compreende parte do condado de Mures e todo o território dos condados de Harghita e Covasna (cuja capital é Sfantu Gheorghe), já foi uma área de fronteira do reino húngaro defendida pelos szeklers. Depois da Primeira Guerra Mundial, os szeklers se viram espremidos no meio da Romênia, a algumas horas de estrada ao norte de Bucareste atravessando os montes cárpatos.

O fim da Primeira Guerra ficou marcado principalmente pelos duros termos impostos sobre a Alemanha. Mas o acordo de paz assinado pela Hungria em 1920, conhecido como Tratado de Trianon, foi ainda mais duro. A Hungria perdeu cerca de dois terços de seu território e população, incluindo um terço dos falantes da língua húngara, na dissolução do Império Austro-Húngaro - uma derrota que até hoje é conhecida como o trauma Trianon.

Em nenhum outro lugar a minoria húngara é tão grande e sonora no que diz respeito às demandas por maior independência do que na Romênia. Os húngaros somam 1,5 milhão dos 22 milhões de habitantes da Romênia, e cerca de metade deles são szeklers. Não é nenhuma surpresa que a Romênia, membro da União Européia e anfitriã de uma recém concluída cúpula da Otan, juntou-se à Eslováquia, à Sérvia e à Rússia, recusando-se a reconhecer Kosovo.

Diferentemente dos kosovares, os szeklers não pedem a independência completa, mas sim a autonomia dentro da própria Romênia, deixando a política estrangeira e a defesa nacional nas mãos do governo de Bucareste. A Szeklerlândia teria cerca de 10.360 quilômetros quadrados, com um pouco mais de 800 mil habitantes, três quartos deles húngaros.

A sede do Conselho Nacional Szekler fica num casarão de estuque, à distância de uma pequena caminhada desde o centro da cidade. Na fachada estão a bandeira da União Européia e a da comunidade szekler - um fundo azul com uma linha dourada ao meio, um sol dourado e uma estrela prateada de cada lado. A casa era a antiga residência de um advogado dedicado à causa da autonomia húngara.

O Conselho divide o prédio com o recém-criado Partido Cívico Húngaro, que foi aprovado em março para participar das eleições, e representa uma alternativa à União Democrática de Húngaros na Romênia. A União Democrática é acusada, principalmente pelos romenos, de ser uma máquina eleitoral étnica à moda antiga. Por outro lado, representantes do rival Partido Cívico acusam-na de vendida.

"Eles estão no governo desde 1996 e acreditamos que uma vez que estão lá, representam os interesses da maioria romena e não da minoria húngara", disse Zoltan Gazda, presidente do comitê do novo partido em Sfantu Gheorghe.

"Nós sempre respeitamos as leis romenas em nossa luta pela autonomia, mas se isso não terminar bem, podem surgir outros tipos de tensões", disse Gazda. "Há sinais de que o descontentamento pode aumentar com os conflitos."

As eleições municipais em 1° de junho serão um teste de força entre os dois partidos húngaros antes das eleições parlamentares do fim do ano. É provável que eles trabalhem por um acordo para assegurarem-se de não dividir o voto húngaro na disputa nacional.

Sob o comunismo, o regime do ditador Nicolae Ceausescu tentou diluir as populações húngaras, transferindo romenos para as áreas em que elas estavam concentradas, particularmente ao longo da fronteira com a Hungria.

Os romenos daqui dizem que o governo de Bucareste menosprezou seus interessses em troca dos votos parlamentares dos húngaros. Segundo Rodica Parvan, membro romeno do conselho municipal, o governo local dominado pelos húngaros distribui subsídios de forma desigual para igrejas e escolas, que são bastante segregadas etnicamente, e o governo nacional não faz nada a respeito.

Todavia, a maior parte das queixas dos moradores romenos diz respeito a afrontas simbólicas, como as reuniões do Conselho feitas somente em húngaro e os cânticos em língua húngara tocados em alto-falantes na época do Natal. Em 15 de março, um feriado nacional húngaro marcando o começo da revolução de 1848 contra o governo de Habsburgo, Parvan ficou consternado ao ver a bandeira romena em frente ao cento administrativo do condado pendurada a meio mastro.

"Disseram que o vento que tinha baixado a bandeira", disse Parvan. Eloise De Vylder

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