UOL Notícias Internacional
 

14/04/2008

Revelar tudo ou não? Pergunte aos sapos

The New York Times
Robert H. Frank*
Os cidadãos comuns desfrutam do direito de resguardar suas informações médicas e financeiras dos olhos do público. Por outro lado, no que diz respeito aos candidatos à presidência, espera-se que eles revelem esse tipo de informação em seus mínimos detalhes. É uma expectativa razoável, já que os dados médicos e financeiros dos candidatos são com freqüência relevantes para a decisão dos eleitores.

Mas porque esse tipo de informação é na maioria das vezes bastante pessoal, muitos candidatos relutam em torná-la pública. No atual período eleitoral, por exemplo, a senadora Hillary Rodham Clinton liberou as informações de impostos de sua família só depois de enfrentar prolongadas críticas.

O senador John McCain, por sua vez, ainda não liberou seus dados médicos ou de impostos, apesar de ter prometido disponibilizá-los em breve.

Essa relutância vai contra um importante princípio da teoria econômica que rege a comunicação entre adversários potenciais. Conhecido como princípio de "total revelação", sustenta que os rivais de uma disputa devem considerar vantajoso revelar todo tipo de informação sobre si próprios que possa ser considerada importante pelos outros, mesmo que seja algo muito embaraçoso.

O princípio é habilmente ilustrado pelo comportamento de sapos machos que disputam a mesma fêmea. Em muitas espécies, o animal menor normalmente se submete ao oponente maior e mais forte. Mas os sapos têm hábitos noturnos, e normalmente não conseguem determinar o tamanho de seus rivais simplesmente olhando para eles. Em vez disso, eles coaxam - e o sapo com o coaxar mais agudo, que quase sempre é o menor, dá lugar ao sapo com o coaxar mais grave.

Mas porque o sapo com o coaxar agudo se dá ao trabalho de coaxar antes de mais nada, se isso vai revelar o quão pequeno ele é? Por que ele simplesmente não fica quieto?

Os economistas têm a resposta. Um sapo que fica quieto pode ser considerado ainda menos formidável do que é na realidade. Para entender o porquê, imagine que todos os sapos de coaxar agudo permanecessem quietos. Um deles é maior do que os outros, mas seu silêncio sugere que seu tamanho está na média do resto do grupo. Esse sapo ganharia muito mais se coaxasse, e é o que ele faz. Da mesma forma faz o sapo imediatamente menor que ele, e assim sucessivamente, até que reste apenas o menor sapo.

O princípio de revelação total oferece portanto um motivo para que os indivíduos divulguem informações pouco lisonjeiras sobre si mesmos. O silêncio pode levar os observadores a chegarem a conclusões ainda mais constrangedoras. Mas, conforme demonstrou a experiência recente em relação às declarações de impostos e dados médicos dos candidatos, a previsão de que eles voluntariamente abririam essas informações está fora da realidade.

Por quê? Até agora, pelo menos, não parece que eles omitiram suas declarações de impostos porque elas continham o pior tipo de informações possível.

Os analistas não perderam tempo em comentar que as declarações de impostos de Hillary revelaram que o casal havia ganhado uma quantia enorme - US$ 109 milhões - desde que saiu da Casa Branca. Mas isso não foi tão constrangedor como poderia se esperar.

A declaração de impostos do senador Barack Obama, que tomou a dianteira na última rodada de abertura financeira, mostrou um aumento semelhante, apesar de menos espetacular, em seus ganhos. Não houve grandes surpresas, apesar de alguns analistas terem reclamado que os Obama doaram apenas uma porcentagem relativamente pequena de seu dinheiro para a caridade.

Se McCain eventualmente liberar sua declaração de impostos e informações médicas depois de 2000, esses dados também serão esmiuçados - e, ao final, pode ser que também não tragam grandes surpresas. De fato, parece razoável imaginar que eles ficarão bem longe dos cenários mais pessimistas que as pessoas possam imaginar.

Mesmo assim Hillary e McCain pareciam dispostos a enfrentar duras críticas por não abrirem suas informações pessoais com mais rapidez, aparentemente preferindo deixar os eleitores imaginarem o pior.

Uma razão possível para a quebra do princípio da revelação total é evidente em casos mais mundanos. Apesar de ele prever que ninguém nunca vai dizer algo como "você não pode vir me visitar agora porque meu apartamento está muito bagunçado" (porque essa declaração levaria à conclusão de que o apartamento está tão bagunçado quanto um apartamento pode estar), as pessoas na verdade fazem esse tipo de declaração sobre seus apartamentos todo o tempo.

Essa desconexão se origina da diferença entre como somos afetados por nossa dedução lógica por um lado, e a própria experiência por outro. Uma coisa é concluir logicamente que o apartamento de alguém deve estar bagunçado. Outra bastante diferente é se confrontar com o odor de lixo apodrecido na cozinha. Num caso como esse, é melhor deixar que seus amigos imaginem o que quiserem.

Considerações similares são capazes de inibir a exposição dos políticos. Às vezes pode parecer melhor deixar os detalhes desagradáveis para a especulação dos outros.

Ainda assim, o princípio da exposição total fornece algum insight útil sobre o comportamento dos candidatos - mas apenas até certo ponto. Pode ajudar a entender porque David A. Paterson, que se tornou governador de Nova York logo após a renúncia de Eliot Spitzer, foi tão rápido em divulgar informações pessoais constrangedoras que iam muito além do que boa parte do público queria saber.

Mas a lógica simples do princípio não explica porque tantos políticos são tão relutantes em abrir informações financeiras e médicas pessoais que parecem tão básicas.

O fato é que é muito mais difícil para os jornalistas escreverem sobre problemas imaginários, ainda que grandes, que possam existir em declarações de impostos e dados médicos não divulgados, do que escrever sobre problemas reais, mesmo que pequenos, que surjam nas informações divulgadas.

A divulgação voluntária de informações tem limites claros. E já que os eleitores têm razões legítimas para desejarem estar bem informados sobre a saúde e as finanças dos candidatos para os cargos altos, as regras de revelação deveriam ser mais rígidas. Mas no que diz respeito a esse assunto, os políticos normalmente permanecem em silêncio.

*Robert H. Frank é economista da Escola de Administração da Cornell University. Eloise De Vylder

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