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15/04/2008

Krugman: Por que os EUA estão se sentindo tão desolados?

The New York Times
Paul Krugman
O Centro de Pesquisa da Universidade de Michigan vem acompanhando as percepções dos americanos sobre a economia desde os anos 50. Na sexta-feira (11), o centro divulgou sua mais recente estimativa do sentimento do consumidor - e o resultado foi chocante. Os americanos estão mais pessimistas com a sua situação do que estiveram por mais de 25 anos.

Enquanto isso, um recente relatório Pew revelou que a porcentagem de norte-americanos que dizem estar em melhor situação do que há cinco anos atrás está em seu mais baixo nível em 44 anos de pesquisa.

O que é impressionante sobre este humor sombrio é que, pelas medidas normais, a economia não está indo tão mal - ao menos ainda não. O índice oficial de desemprego, apesar de estar crescendo, ainda está bem baixo para padrões históricos, em 5,1%. Entretanto, a atitude diante da economia está pior hoje do que estava em 1992, quando o índice de desemprego era de 7,5%.

Por que estamos nos sentindo tão mal?

Nossa desolação reflete, em parte, o fato de a maioria dos norte-americanos estarem em situação consideravelmente pior do que deixam transparecer os índices econômicos normais. O desemprego oficial pode estar relativamente baixo - mas a porcentagem de americanos em idade de trabalho que não tem emprego, que não é a mesma coisa, está historicamente alta. O produto interno bruto está alto, mas a renda da família média ajustada pela inflação provavelmente está mais baixa do que em 2000.

Além disso, a forma como se vê a economia atual é fortemente influenciada pela noção do público de uma realidade maior.

Quando Ronald Reagan perguntou, famosamente, "Você está melhor do que estava há quatro anos atrás?", a resposta correta era "sim". A renda média dos lares, mesmo levando-se em conta a inflação, era mais alta em 1980 do que tinha sido em 1976. Entretanto, as filas para gasolina e a inflação de dois dígitos deixavam as pessoas com a sensação que as coisas estavam desmoronando.

Por outro lado, o desemprego ainda era historicamente alto quando Reagan proclamou o "Amanhecer na América". As pessoas, entretanto estavam prontas para ouvir uma mensagem otimista porque a tempestade econômica parecia ter passado.

Mais recentemente, a confiança econômica manteve-se bem durante a recessão de 2000, talvez porque as pessoas estavam dispostas a vê-la como nada além de uma interrupção temporária do grande boom dos anos 90.

Uma importante razão pela qual estamos nos sentindo tão para baixo é que, para os trabalhadores norte-americanos, o boom nunca voltou. A criação de empregos na recuperação pós-2001 foi patética pelos padrões da era Clinton; os salários mal acompanharam a inflação. Em vez disso, os lucros corporativos e a renda de uma minúscula elite subiram vertiginosamente - sugando tamanha parte do crescimento da economia que apenas migalhas foram deixadas para todo o resto.

Agora, o boom que não aconteceu explodiu - e os americanos, compreensivelmente, perderam a confiança nas perspectivas de um retorno à verdadeira prosperidade.

Acredito que eles também perderam a confiança na integridade de nossas instituições econômicas.

No início desta década, quando irromperam grandes escândalos corporativos - Enron, WorldCom e assim por diante - imaginei que a corrupção das grandes empresas ia se tornar uma importante questão política. Mas isso não aconteceu, em parte porque a marcha para a guerra teve o efeito de mudar o assunto e, talvez em parte, porque os americanos não estavam prontos para adotar uma visão amplamente negativa do sistema que lhes havia dado a expansão da década anterior.

Entretanto, a impressão é que a crise das hipotecas de alto risco - com a sua revelação que os titãs das finanças estavam lidando com dinheiro de brinquedo e com as histórias de executivos fracassados recebendo presentes de centenas de milhões de dólares - fez renascer a sensação de que algo está podre no estado da nossa economia. E essa sensação está agravando a desolação geral.

A questão é: será que o próximo governo poderá pôr fim ao mal-estar americano?

Algumas das causas do fraco desempenho econômico desde 2000 provavelmente fogem ao controle do governo. As matérias-primas eram baratas nos anos 90, mas o crescimento da China e de outras economias emergentes colocará cada vez mais pressão sobre os estoques mundiais de petróleo, cobre e assim por diante, independentemente do que o próximo presidente fizer.

Entretanto, uma regulamentação revigorada poderia ajudar a restaurar a confiança no sistema financeiro. Uma volta às políticas em prol do trabalho pode ajudar a aumentar os salários de verdade. As políticas que promovem a competitividade - que não são a mesma coisa que dar às empresas poderosas o que quiserem - podem ajudar os EUA a reconquistarem sua liderança na tecnologia da informação. Em outras palavras, há muito que pode ser feito para recompor o nosso otimismo em queda.

Isso não acontecerá, entretanto, se o próximo presidente não for alguém que compreenda o que deu errado. E, neste instante, isso não parece de forma alguma garantido. Deborah Weinberg

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