UOL Notícias Internacional
 

16/04/2008

A História aguarda o papa e o rabino

The New York Times
Clyde Haberman
em Nova York
Este é um momento de muito trabalho para o rabino Arthur Schneier, e a agenda dele só ficará mais complicada à medida que a semana for se desenrolando. É necessário que sejam feitos os preparativos para o Pessach, a Páscoa judaica, que tem início na noite do próximo sábado (19). Como todo rabino que chefia uma congregação, ele tem que preparar um sermão para o sabá. Depois disso, Schneier precisa propor temas para os serviços do Pessach no domingo e na segunda-feira.

Ah, e mais uma coisa: ele precisa também dar as boas-vindas ao papa.

A jornada nova-iorquina do papa Bento 16 incluirá uma escala histórica de cerca de 20 minutos na tarde de sexta-feira na Sinagoga Park East, na Rua 67 Leste, onde Schneier é o líder espiritual desde 1962. A palavra "histórica" é muitas vezes usada abusivamente. Mas neste caso o termo é apropriado.

Nunca antes um papa visitou uma sinagoga neste país. De fato, até agora só há dois outros registros de visitas papais a sinagogas em qualquer lugar do mundo: por João Paulo 2°, em Roma, em 1986, e por Bento 16, em Colônia, na Alemanha, em 2005, quatro meses após ele ascender ao papado.

Portanto, a conversa de Bento 16 com figuras judaicas religiosas e laicas em Park East é sem dúvida um grande acontecimento, por mais breve que seja.

"A impressão que se tem é que esta é uma mensagem de boa vontade do papa Bento 16, saudando a comunidade judaica no mundo exterior a Israel, mas em um contexto maior: o judaísmo norte-americano e o judaísmo mundial", afirma Schneier. "Basicamente, a mensagem é: 'Eu continuo me aproximando dos judeus'".

Algo parece guiar os papas a Nova York em momentos de significado espiritual para os judeus.

João Paulo 2° desembarcou aqui em outubro de 1995 durante o Yom Kippur (o Dia do Perdão, no judaísmo). Agora, Bento 16 vem no Pessach, um feriado repleto de significados nas relações judaico-cristãs. Afinal, a Última Ceia foi um episódio de Pessach. Durante séculos, os judeus foram alvos de perseguição baseadas em parte em acusações insanas de que eles usavam o sangue de crianças cristãs para fazer matzás (um pão judaico) de Pessach. "A chegada do papa no Pessach quer dizer: 'O judaísmo está vivo, e nós temos que respeitar uns aos outros'", afirma Schneier.

O respeito entre as duas fés aumentou desde que o Concílio Vaticano Segundo, também conhecido como Vaticano II, emitiu o "Nostra Aetate" ("Na Nossa era"), um documento de 1965 que afirmou que os judeus não têm culpa coletiva pela crucificação de Jesus. Mesmo assim, a estrada rumo ao entendimento mútuo revelou-se cheia de buracos. Os últimos envolvem a aceitação por parte de Bento 16 de uma liturgia em latim para a Sexta-feira Santa, que, em uma referência aos judeus, apela a Deus para "iluminar os seus corações de forma que eles reconheçam Jesus Cristo".

"Este apelo para a conversão dos judeus provocou preocupação e consternação em vários locais", afirma Schneier. "Mas precisamos observar o quadro maior. Se houvesse alguma mudança de rota por parte do espírito do Vaticano II, não haveria uma visita do papa à sinagoga".

Uma questão inevitável é, por que, dentre todas as opções possíveis, o papa escolheu esta sinagoga Ortodoxa Moderna.

Em determinado nível, a resposta é simples. Schneier pediu. Os seus contatos com Roma são profundos. Eles remontam ao papa Paulo 6°, em meados da década de 1960. Poucas semanas atrás, ele fez um convite através do secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Tarcisio Bertone.

Em um outro nível, Park East é a escolha lógica para um papa que deseja fazer uma declaração simbólica. Schneier fez do diálogo entre as diferentes fés o trabalho da sua vida. Por meio da Fundação do Apelo à Consciência, que ele fundou em 1965 e que ainda dirige, Schneier manifestou-se repetidamente a favor da liberdade religiosa e dos direitos humanos, fosse para os judeus na antiga União Soviética, para os católicos na ex-Tchecoeslováquia, para os cristãos na China ou para pessoas oprimidas em qualquer parte do mundo.

Ele não carece de detratores - pessoas que vêem nele um indivíduo sedento de publicidade e de oportunidades de aparecer junto aos líderes mundiais. Mas ninguém duvida do seu compromisso para com a cooperação inter-religiosa.

"Estou naquela órbita. A órbita caracterizada pela forte convicção de que os líderes religiosos - especialmente hoje em dia, quando existe uma dimensão religiosa na maior parte dos conflitos do mundo - devem estar na linha de frente, juntos, demonstrando solidariedade".

De certa forma, a história dele e a do papa seguem rotas paralelas.

Schneier, 78, nasceu em Viena e fugiu dos nazistas aos nove anos de idade, mudando-se para Budapeste com a sua mãe viúva. Lá ele sobreviveu ao Holocausto - ou Shoah, em hebraico - antes de seguir para os Estados Unidos em 1947. Quando era o adolescente Joseph Ratzinger, Bento 16, que faz 81 anos nesta quarta-feira, foi obrigado a ingressar na Juventude Hitlerista e a servir nas unidades alemãs de baterias anti-aéreas.

"Quando você experimenta a tragédia da Segunda Guerra Mundial, que custou milhões e milhões de vidas humanas, incluindo a minha própria família em Auschwitz e Terezin durante o Shoah, a forma de olhar para o mundo realmente muda", afirma Schneier. "E o papa conheceu os flagelos da guerra, a destruição, a fome e tudo o mais relacionado àquele conflito".

"Mas, quem sobrevive, diz para si mesmo: Ok, eu sobrevivi devido a um objetivo", diz ele. "É necessário pagar a dívida. A forma de fazer disso é o 'tikkun olam', a expressão em hebraico para designar um mandato religioso para 'consertar as injustiças do mundo'".

"Eu entendo totalmente aqueles sobreviventes que trazem memórias horríveis dentro de si, algo que todos trazemos. Memórias que estão simplesmente congeladas no tempo", diz o rabino. Mas este é o caminho que ele escolheu. "Ninguém deve se deixar paralisar pela História", afirma ele. UOL

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