UOL Notícias Internacional
 

16/04/2008

Por meio de um filme, a Índia ganha uma janela para o Paquistão

The New York Times
Amelia Gentleman
em Nova Déli
Entre todas as manchetes lisonjeiras que saudaram o lançamento neste mês do primeiro filme paquistanês a ser exibido na Índia em quatro décadas, uma marcou seu diretor, Shoaib Mansoor.

"Nós não sabíamos que o Paquistão tinha casas tão boas", dizia a manchete, lembrou Mansoor em uma entrevista aqui.

Foi um lembrete notável de quão pouco as pessoas na Índia sabem sobre seus vizinhos do outro lado da fronteira.

Nos últimos 43 anos, nenhum filme feito no Paquistão foi distribuído comercialmente nos cinemas da Índia até a estréia aqui do filme de Mansoor, "Khuda Kay Liye" ("Em Nome de Deus"). Esta ausência contribuiu para uma ampla ignorância na Índia sobre o Paquistão contemporâneo, um país separado por tamanha hostilidade política entrincheirada que poucos indianos já o visitaram.

O lançamento do filme, que quebrou todos os recordes de bilheteria no Paquistão no ano passado, foi saudado aqui como um momento significativo no lento progresso das conversações de paz entre a Índia e o Paquistão.

O governo paquistanês impôs uma proibição à distribuição e exibição de filmes indianos após a guerra entre os países em 1965, uma das três guerras que os países travaram desde que a região foi dividida pela partição em 1947. Nenhuma ordem formal recíproca foi emitida pela Índia, mas a hostilidade política inicial à idéia de exibir filmes paquistaneses foi substituída posteriormente por considerações comerciais.

Na segunda metade do século 20, a indústria cinematográfica paquistanesa, conhecida como Lollywood, entrou em severo declínio e produzia pouco que merecesse distribuição na Índia, que é bem servida por sua própria indústria cinematográfica, Bollywood.

Apesar da proibição, cópias piratas dos sucessos de Bollywood sempre foram muito populares no Paquistão. E em 2006, com a melhoria dos laços políticos, o governo paquistanês gradualmente começou a relaxar sua posição, permitindo que um número limitado de filmes indianos fosse exibido legalmente nos cinemas.

O efeito foi um espelho falso cultural dividindo os países, com o Paquistão capaz de observar a Índia (ou uma versão berrante de Bollywood da Índia), mas com os indianos incapazes de ver além de suas próprias fronteiras.

"Os filmes indianos nunca deixaram de chegar ao Paquistão, em DVDs", disse Mansoor. "De forma que todo paquistanês está ciente do modo de vida na Índia, sobre como as coisas funcionam na Índia. Mas não há nada vindo na outra direção, e o resultado é que a Índia tem conceitos claramente equivocados sobre o Paquistão."

O filme dele foi editado em Déli, onde ele ficou "chocado com a ignorância" dos colegas indianos na sala de montagem, ele disse.

"Eles tinham idéias muito surpreendentes sobre o Paquistão", lembrou Mansoor. "Eles perguntavam: 'Vocês têm táxis lá? 'As mulheres podem dirigir?' 'As mulheres podem freqüentar a universidade?' Eles achavam que o Paquistão consistia apenas de fanáticos e mulás."

Além do espanto com a beleza inesperada das casas paquistanesas, o público e os críticos ficaram impressionados com o vislumbre que o filme transmite das dificuldades de ser um muçulmano liberal no Paquistão pós-11 de Setembro.

O filme mostra dois irmãos, ambos músicos talentosos em Lahore, se distanciando após abraçarem leituras diferentes do Islã. Um cai sob a influência de um mulá local, abandona seu grupo de rock sufi e seus pais ricos, liberais, na casa decorada deles e parte para se juntar ao Taleban.

O outro deixa o Paquistão para estudar música em Chicago, onde se apaixona pelos Estados Unidos e se casa com uma americana. Mas então ele é preso e submetido a um abuso estilo Abu Ghraib por autoridades que suspeitam de sua formação muçulmana, erroneamente convencidos de que ele teve um papel no planejamento dos ataques do 11 de Setembro.

"Esta é a tragédia que um muçulmano enfrenta atualmente", disse Mansoor. "Nós somos espancados pelos fundamentalistas, com o rótulo de que somos ocidentalizados demais, e quando saímos do país, somos rotulados de fundamentalistas só porque temos nomes paquistaneses."

A atuação é desigual, mas sob as várias tramas, Mansoor transmite a mensagem de que "todo muçulmano não é terrorista".

"As pessoas precisam entender que todos os paquistaneses não são fundamentalistas fanáticos", ele disse.

Ele está satisfeito com a resposta na Índia. "As pessoas aplaudiram aqui nos mesmos pontos que as pessoas aplaudiram no Paquistão", ele disse. "Isto é um bom sinal."

Como disse um crítico indiano, Subhash K. Jha, todos na Índia deveriam assistir o filme "para entender o isolamento, entender qual é a sensação de ser considerado um terrorista, ser revistado de forma bruta, a dor e a humilhação".

"Eu não acho que é fácil de entender na condição de hindu", disse Jha.

Mas ele disse que o filme não teria um apelo óbvio para grande parte do público indiano.

"Infelizmente, muitas pessoas não se interessarão em assistir um filme que revela como é a vida de um muçulmano, de forma que seu impacto será bem restrito", ele disse. "Não é um filme popular; ele não possui os grandes astros que atraem o público."

Um roteirista de Bollywood, Javed Akhtar, descreveu "Khuda Kay Liye" como um "filme muito ousado e honesto".

"A ignorância gera suspeita e a suspeita gera ódio, ela cria vilões imensos", ele disse. "Há muito para ser visto e ouvido pelos públicos indiano e americano."

Shailendra Singh, diretor administrativo da Percept Picture Co., que está distribuindo o filme, disse que o processo para trazê-lo para a Índia foi surpreendentemente fácil e que a resposta inicial de bilheteria é encorajadora. Ele previu que o filme, cuja produção custou US$ 1,5 milhão, arrecadará US$ 2,5 milhões nos próximos três meses na Índia.

"Nós nos sentimos como se estivéssemos fazendo parte da história", ele disse. George El Khouri Andolfato

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