UOL Notícias Internacional
 

18/04/2008

Bolinhos de barro alimentam os desesperados no Haiti

The New York Times
Marc Lacey*,
Em Porto Príncipe, no Haiti
A fome bateu à porta da frente do palácio presidencial do Haiti. Ela despejou-se pelas ruas, queimando pneus e enfrentando soldados e policiais. A fome derrubou o primeiro-ministro do país.

A fome no Haiti, aquele vácuo na barriga sentido por tantos aqui, tornou-se mais intensa do que nunca nos últimas dias, à medida que os preços globais dos alimentos disparavam, chegando a subir até 45% desde o final de 2006, e transformando produtos de consumo básicos dos haitianos, como feijão, arroz e milho, em tesouros guardados a sete chaves.

Recentemente os filhos de Saint Louis Meriska tiveram apenas duas colheres de arroz cada um como única refeição do dia, e não comeram mais nada no dia seguinte. Com o olhar embaçado, e tendo o seu próprio estômago vazio, este pai desempregado disse, com desespero na voz: "Eles olharam para mim e disseram: 'Papai, estou com fome'. E eu tive que desviar o olhar. É uma situação humilhante que deixa a gente com raiva".

Tyler Hicks/The New York Times 
Homem procura resto de alimentos em aterro sanitário em Porto Príncipe, no Haiti

E esta fúria é palpável por todo o globo. A crise de alimentos não se faz sentir apenas entre os pobres. Ela está também erodindo os ganhos das classes operária e média, semeando níveis inquietantes de descontentamento e criando novas pressões sobre governos frágeis.

No Cairo, no Egito, as forças armadas foram convocadas para assar pães, já que a disparada dos preços dos alimentos ameaça transformar-se na centelha capaz de incendiar uma fúria mais generalizada contra um governo repressor. Em Burkina Faso e em outras partes da África subsaariana, as agitações sociais provocadas pela falta de comida estão ocorrendo com freqüência nunca vista. Na relativamente próspera Malásia, a coalizão de governo quase foi enxotada pelos eleitores, que citaram os aumentos dos alimentos e dos combustíveis como as suas principais preocupações.

"É a pior crise do gênero em mais de 30 anos", afirma Jeffrey D. Sachs, economista e assessor especial do secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-Moon. "Trata-se de um problema grave, que obviamente está ameaçando vários governos. Alguns desses governos estão em situação delicada, e creio que haverá mais crises políticas pela frente".

De fato, à medida que gera ebulição nas nações em desenvolvimento, a disparada dos preços dos bens de consumo - a maior desde o governo Nixon - vem jogando os países mais pobres do hemisfério sul contra o relativamente rico norte, fazendo com que aumentem as demandas por reformas das políticas agropecuárias e ambientais das nações prósperas. Mas os especialistas afirmam que há poucas soluções possíveis para uma crise vinculada a tantos fatores, que vão da intensa demanda por alimentos em economias emergentes como a China, à disparada dos preços do petróleo e ao desvio de recursos alimentares para a produção de biocombustíveis.

E tampouco existem fórmulas prontas para lidar com a crise. Na Ásia, os governos estão aplicando medidas para limitar a armazenagem de arroz, depois que alguns comerciantes entraram em pânico com os aumentos dos preços e compraram toda a quantidade do produto que estava ao seu alcance.

Até mesmo na Tailândia, que produz um excedente de 10 milhões de toneladas de arroz em relação à demanda interna, e que é o maior exportador mundial do produto, os supermercados estipularam limites para a quantidade de arroz que os clientes individuais têm permissão para comprar.

Mas existe também bastante nervosismo e confusão em relação à melhor forma de se proceder e à gravidade do impacto, especialmente em um momento no qual governos já em dificuldades lutam para manter os subsídios dos alimentos.

"Tempestade escandalosa"
"Esta é uma tempestade de intensidade máxima, a tempestade perfeita", afirmou na quarta-feira (16/04), no Fórum Econômico Mundial sobre a América Latina, em Cancun, no México, o presidente de El Salvador, Elias Antonio Saca.

"Por quanto tempo suportaremos esta situação? Temos que alimentar o nosso povo, e os alimentos estão tornando-se escassos. Esta tempestade escandalosa poderá transformar-se em um furacão capaz de desestruturar não só as nossas economias mas também a estabilidade dos nossos países", alertou o presidente salvadorenho.

Na Ásia, caso o primeiro-ministro Abdullah Ahmad Badawi deixe o cargo, algo que parece ser cada vez mais provável em meio à agitação pós-eleitoral no seio do seu partido, ele poderá tornar-se a primeira baixa política de peso da região, provocada pela inflação dos preços dos combustíveis e alimentos.

Na Indonésia, temendo protestos, o governo recentemente revisou o seu orçamento de 2008, aumentando a verba que gastará com subsídios dos alimentos em cerca de US$ 280 milhões.

"O maior temor são as rebeliões provocadas pela falta de comida", afirma H.S. Dillon, ex-assessor do Ministério da Agricultura da Indonésia. Referindo-se a protestos de pouca intensidade, mas generalizados, desencadeados pelos aumentos do preço da soja em janeiro, ele adverte: "Isto é algo que já aconteceu no passado, e que pode ocorrer novamente".

No mês passado, no Senegal, uma das mais antigas e estáveis democracias da África, a tropa de choque policial espancou e utilizou gás lacrimogêneo contra multidões que protestavam contra os preços elevados da comida, e que mais tarde invadiram uma estação de televisão que transmitia imagens dos protestos.

Muitos senegaleses expressaram raiva em relação ao presidente Abdooulaye Wade por este ter esbanjado dinheiro com a construção de estradas e hotéis de cinco estrelas para uma reunião de cúpula muçulmana no mês passado, enquanto o povo não conseguia comprar arroz e peixe.

"Por que essas rebeliões estão irrompendo?", argumenta Arif Husain, analista de segurança alimentar do Programa Mundial de Alimentos, que publicou apelos urgentes por doações. "O instinto humano é sobreviver, e as pessoas farão tudo o que for possível para garantir a sobrevivência. E quem está com fome fica furioso muito mais rapidamente".

Os líderes que ignoram a ira do povo assumem um risco. O presidente do Haiti, Rene Preval, pareceu provocar as massas à medida que o coro do descontentes com "la vie chère" - a vida cara - ia engrossando. Ele disse que se os haitianos têm condições de comprar telefones celulares, aparelhos que muita gente possui, eles deveriam ser também capazes de alimentar as suas famílias. "Se houver uma manifestação contra o aumento dos preços, venham até aqui e me peguem no palácio, e eu protestarei junto com vocês", disse ele.

Mas quando o povo veio, tomado pela ira e aos milhares, Preval se escondeu no palácio, e a sua guarda presidencial, juntamente com as tropas de paz da ONU, enxotou a multidão.

Dias depois, os parlamentares da oposição votaram pelo afastamento do primeiro-ministro de Preval, Jacques-Edouard Alexis, obrigando o presidente a reformular o seu governo. Frágil até nos melhores momentos, o Haiti agora está na corda bamba, com uma população e uma política em efervescência.

"Por que nos surpreendemos?", questionou Patrick Eli, um ativista político haitiano que monitorou as rebeliões provocadas pela falta de comida na África no início do ano, e que temia que o mesmo ocorresse no Haiti. "Quando algo está vindo na sua direção desde Burkina Faso, você tem que enxergar esta aproximação. O que tivemos aqui foi algo como uma lata de gasolina que o governo deixou exposta para que chegasse alguém, acendesse um fósforo e incendiasse tudo".

Redução de menus
Os preços em ascensão estão alterando os menus, e não para melhor. Na Índia, o povo está racionando o leite das crianças. As porções diárias de dal, um prato indiano típico, estão ficando mais ralas, já que um saco de lentilhas precisa ser fracionado para a preparação de algumas refeições a mais.

Maninder Chand, motorista de um riquixá em Nova Déli, diz que a sua família não come mais carne há várias semanas, tendo desistido do curry de carneiro que era o prato tradicional nos domingos.

Um outro motorista de riquixá, Ravinder Kumar Gupta, diz que a sua mulher deixou de preparar as lentilhas diárias, a principal fonte de proteínas da família, da forma tradicional, com as usuais cebolas e outros temperos, porque o preço do óleo de cozinha fez com que o produto se tornasse inacessível. Atualmente eles comem tigelas de dal aguado e sem sabor, temperado apenas com sal.

Na Rua Hafziyah, no Cairo, ambulantes que vendem alimentos em carroças de madeira gritam os seus preços. Mas poucos consumidores podem se dar ao luxo de comprar os peixes e galinhas que estão à venda, e que ficam expostos ao sol quente. O preço da comida dobrou em dois meses.

Ahmed Abul Gheit, 25, senta-se em uma banqueta de madeira velha ao lado da sua pilha de tomates que já passaram do ponto. "Não conseguimos sequer encontrar comida", diz ele, olhando para o amigo, Sobhy Abdullah, 50. A seguir, erguendo as mãos para o céu, como se fosse fazer uma prece, ele afirma: "Tomara que Deus dê um jeito no cara que eu tenho em mente".

Abdullah faz um gesto de assentimento, aparentemente sabendo muito bem que o "cara" é o presidente Hosni Mubarak.

No entanto, a capacidade do governo de lidar com a crise é limitada. Ele já gasta mais com subsídios, incluindo da gasolina e do pão, do que com a educação e a saúde juntas. Os preços em ascensão provocaram um rombo no orçamento do governo, bem como nos bolsos do cidadão comum.

"Se todo o povo se levantasse, o governo resolveria este problema", afirma Raisa Fikry - cujo marido recebe uma pensão equivalente a cerca de US$ 83 por mês - enquanto compra verduras e legumes. "Mas todos precisam se levantar juntos. O povo tem medo. Mas todos temos que protestar em conjunto".

Foi esse tipo de conversa que fez com que o governo passasse a tratar os problemas econômicos como ameaças à segurança, enviando tropas de choque e avisando que quem quer que sair às ruas para protestar será tratado com violência.

Não é necessário lembrar ao Níger que cidadãos famintos derrubam governos. O primeiro presidente pós-colonial do país, Hamani Diori, foi deposto em meio a alegações de corrupção desbragada em 1974, enquanto milhões de pessoas passavam fome durante uma seca devastadora.

Mais recentemente, em 2005, ocorreram protestos maciços em Niamey, a capital nigerina. Os protestos fizeram com que o governo prestasse atenção na crise de alimentos daquele ano, que foi provocada por uma mistura complexa de falta de chuva, nuvens de gafanhotos e especulação dos comerciantes.

"Como resultado daquela experiência, o governo criou um ministério para fazer frente à carestia", diz Moustapha Kadi, um ativista que ajudou a organizar as passeatas em 2005. "Assim, quando os preços subiram neste ano, o governo agiu rapidamente no sentido de remover os impostos sobre o arroz, um produto que todo mundo come. Esta ação rápida fez com que o povo deixasse de sair às ruas".

Os pobres comem barro
No Haiti, onde três quartos da população ganham menos de US$ 2 por dia, e uma em cada cinco crianças padece de desnutrição crônica, o único negócio que prospera em meio a todo este cenário cinzento é a venda de bolinhos feitos de barro, óleo e açúcar, um quitute dos desesperados, que geralmente só é consumido pelos mais pobres.

"Eles são salgados, contêm manteiga e a pessoa não sabe que está comendo terra", diz Olwich Louis Jeune, 24, que nos últimos meses tem comido com mais freqüência os bolinhos de barro. "Eles acalmam o estômago faminto".

Mas o descontentamento dos dias de hoje no Haiti não está mais confinado ao estômago. Ele está expresso também em grafites nos muros da capital, e é gritado pelos manifestantes.

Recentemente, Preval articulou uma resposta ao problema, usando dinheiro de auxílio internacional e reduções de preços por parte dos importadores para baixar o preço do saco de açúcar em 15%. Ele também diminuiu os salários de algumas autoridades graduadas. Mas essas medidas são consideradas temporárias.

As soluções reais demorarão anos. O Haiti, com a sua indústria agrícola em frangalhos, precisa se alimentar melhor. O investimento estrangeiro é um fator chave para isso, embora investimentos exijam estabilidade, e não os saques e a violência generalizada provocados pelas manifestações contra a falta de comida.

Enquanto isso, a maioria dos mais pobres sofre silenciosamente, já que essas pessoas estão demasiadamente fracas para partir para o ativismo ou muito ocupadas criando a próxima geração de famintos. Na enorme favela Cite Soleil, no Haiti, Placide Simone, 29, oferece um dos seus cinco filhos a um desconhecido. "Leve um", diz ela, embalando um bebê apático e apontando para quatro outros bebês esqueléticos. Nenhum deles comeu qualquer coisa hoje. "Leve-os. Só quero que você os alimente".

*Lydia Polgreen, em Niamey, no Niger; Michael Slackman no Cairo, no Egito; Somini Sengupta, em Nova Déli; Thomas Fuller, em Bancoc, na Tailândia; e Peter Gelling, em Jacarta, na Indonésia, contribuíram para esta matéria. UOL

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