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18/04/2008

Krugman: agarrando-se ao estereótipo

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
Será que a agora famosa citação "amarga" de Barack Obama terá um grande peso politicamente? Francamente, não tenho a menor idéia.

Mas há uma pergunta diferente: Obama estava certo?

Os comentários de Obama combinaram afirmações sobre economia, sociologia e comportamento do eleitor. Em cada caso, sua afirmação estava em grande parte, quando não inteiramente, errada.

Começando pela economia. Obama: "Você vai a estas pequenas cidades na Pensilvânia e, como muitas pequenas cidades no Meio-Oeste, os empregos sumiram há 25 anos e nada os substituiu. E continuaram caindo no governo Clinton, no governo Bush".

Há, de fato, cidades onde fábricas fecharam durante os anos 80 e nada as substituiu. Mas a sugestão de que o interior americano sofreu igualmente durante os anos Clinton e Bush é profundamente enganadora.

Na verdade, os anos Clinton foram muito bons para os trabalhadores americanos no Meio-Oeste, onde a renda média real dos lares subiu muito antes de cair após 2000. (Você pode ver os números no meu blog, krugman.blogs.nytimes.com.)

Nós podemos argumentar sobre quanto crédito Bill Clinton merece por esse boom. Mas se eu fosse um dos líderes do Partido Democrata, eu ordenaria Obama a parar de nublar a distinção entre a prosperidade da era Clinton e o desastre econômico da era Bush.

Depois, a sociologia: "E não causa surpresa o fato de se tornarem pessoas amargas, de se agarrarem às armas, religião ou antipatia por pessoas que são diferentes delas".

A palavra crucial aqui não é "amargas", mas se "agarrarem". As dificuldades econômicas levam as pessoas a buscarem consolo em armas de fogo, Deus e xenofobia?

É verdade que as pessoas em Estados pobres têm uma maior tendência de freqüentar regularmente a igreja do que os moradores nos Estados ricos. Isto poderia indicar que a fé de fato é uma resposta à adversidade econômica.

Mas isto em grande parte reflete o fato dos Estados do Sul serem tanto religiosos quanto pobres; alguns Estados pobres fora do Sul, como Maine e Montana, são na verdade menos religiosos do que Connecticut. Além disso, dentro dos Estados pobres as pessoas com menor renda, na verdade, costumam freqüentar menos a igreja do que as com renda mais alta. (A correlação opera de forma oposta nos Estados ricos.)

No geral, nada disto sugere que as pessoas se voltam a Deus por frustração econômica.

Finalmente, Obama, em comentários esclarecedores posteriores, declarou que as pessoas das quais falava "não votam em questões econômicas" e são motivadas por coisas como armas e casamento gay.

Há uma teoria política que se tornou famosa graças ao livro "What's the Matter With Kansas?", de Thomas Frank. Segundo esta teoria, as questões de "valores" levam os americanos de classe trabalhadora a agirem contra seus próprios interesses ao votarem nos republicanos. Obama pareceu sugerir que este também é o motivo para apoiarem Hillary Clinton.

Eu fiquei impressionado com o livro de Frank quando saiu. Mas meu colega de Princeton, Larry Bartels, que assinou um editorial no "Times" na quinta-feira, me convenceu de que Frank estava errado.

Em seu editorial, Bartels citou dados mostrando que os americanos trabalhadores, de cidade pequena, na verdade apresentam uma probabilidade menor do que os moradores metropolitanos ricos de votar com base em religião e valores sociais. Nem os eleitores de classe trabalhadora se inclinaram a votar nos republicanos com o tempo; pelo contrário, os democratas se saem melhor junto a estes eleitores agora do que nos anos 60.

É verdade que os americanos que freqüentam igreja regularmente tendem a votar nos republicanos. Mas diferente do estereótipo, este relacionamento é fraco nas rendas mais baixas e forte entre os eleitores de alta renda. Isto é, apesar da religião ajudar os republicanos, isto não se deve pelo convencimento da classe trabalhadora a votar contra seus próprios interesses, mas sim ao produzir supermaiorias entre os evangélicos ricos.

Então por que os republicanos venceram tantas eleições? Em seu livro, "Unequal Democracy", Bartels mostra que a "mudança de controle do Sul sólido dos democratas para os republicanos após o movimento dos direitos civis" explica toda -literalmente toda- a história de sucesso republicana.

Importa o fato de Obama ter abraçado uma teoria incorreta sobre o que motiva os eleitores de classe trabalhadora? Sua campanha certamente não se baseia no livro de Frank, que pede por um foco renovado nas questões econômicas como forma de reconquistar a classe trabalhadora.

De fato, o livro conclui com um forte ataque contra os democratas, que agrada aos "ricos profissionais de colarinho branco, que são liberais em questões sociais", ao mesmo tempo que "abandonam a linguagem que antes os distinguia acentuadamente dos republicanos". Isto não soa um pouco como a campanha de Obama?

De qualquer forma, o ponto importante é que os americanos de classe trabalhadora votam em questões econômicas e podem ser atraídos por um político que ofereça respostas reais para seus problemas.

E mais uma coisa: vamos torcer para que assim que Obama não estiver mais concorrendo contra alguém com o nome Clinton, ele pare de denegrir o excelente retrospecto econômico do único governo democrata que a maioria dos americanos recorda. George El Khouri Andolfato

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