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19/04/2008

Americanos têm profundo respeito por Bento 16, mas amam mesmo João Paulo 2º

The New York Times
Andy Newman*
Nova York - No Centro de Artigos Católicos da avenida Arthur no Bronx no outro dia, não havia mais nenhum santinho do Papa Bento 16. As cópias da foto do papa exposta na vitrine eram vendidas rapidamente.

Mas o dono da loja, John V. Iazzetti, diz que seus clientes parecem preferir o homem cuja foto estava exposta em uma estante do lado de dentro da loja. "Para dizer a verdade", diz Iazzetti, "estou vendendo mais fotos de João Paulo 2º do que de Bento 16" - cerca de duas para cada uma.

Atravessando a 187th Street, na livraria religiosa Mount Carmel, Antonetta I. Mancuso, uma cliente regular, conseguiu os cobiçados ingressos para ver a missa de Bento 16 no Estádio Yankee no domingo. Mas ela, também, disse que estará pensando no papa anterior.

"É, João Paulo 2º estava em meu coração", diz Mancuso, 70. "Mas não posso esperar que eles (o Vaticano) o tornem um santo." Mancuso resumiu Bento 16 em poucas palavras: "Ele é o Papa novo".

Bento 16 chegou a Nova York na sexta-feira (18). Foi a sua primeira visita aos EUA como líder da Igreja Católica Romana. Com sapatos vermelhos, ele chegou pisando na longa sombra de seu predecessor: João Paulo 2º, o grande comunicador, ator treinado, vencedor do comunismo, poeta aclamado, pontífice-celebridade.

Sim, Bento 16 é capaz de lotar o Estádio Yankee várias vezes. Seus livros e encíclicas estão sendo disputados nas livrarias católicas. Mas as vendas e pedidos de ingressos não signficam necessariamente paixão.

Desta vez, ninguém está usando camisetas, como as que podiam ser vistas em 2005 depois da morte de João Paulo, declarando o pontífice o "Papa do Povo" (apesar disso, o site www.popebenedictxvifanclub.com está vendendo uma bonita caneca de cerveja com um brazão que traz um homem parecido com Bento 16 e os dizeres "Eu amo meu Pastor Alemão").

Enrevistas com dezenas de católicos em toda a cidade durante a semana passada revelaram que muitos ainda estão de luto pela perda de João Paulo 2º, três anos depois de sua morte.

Segundo a assistente de dentista Glenda Wells, 49, do Brooklyn, que estava fazendo compras na livraria Filhas de São Paulo em Midtown, Bento 16 "ainda não substituiu meu garoto favorito. Eu amava João Paulo 2º."

Na melhor das hipóteses, alguns católicos dizem, Bento 16 consegue empatar, por causa da força do respeito devido ao posto de vigário de Cristo. "Para mim, ele é o mesmo que João Paulo 2º porque representa a mesma coisa", disse Felipe Olibos, funcionário de um restaurante no Harlem Espanhol, enquanto saía da missa de domingo na Igreja de Santa Ana. "O outro morreu, e agora ele dá continuidade em seu lugar."

No que diz respeito a pesquisas mais rigorosas, uma enquete dos Católicos Americanos feita em março feita pela Pew Forum sobre Religião e Vida Pública revelou que 74% têm uma impressão favorável de Bento 16.

Numa pesquisa Pew de 1996, João Paulo 2º tinha uma aprovação de 93%. O polonês Carol Woytila estava no auge de sua popularidade entre os americanos (ele visitou os EUA em 1995). Mas seis anos antes, em 1990, uma pesquisa Pew havia revelado que, entre todos os americanos, João Paulo 2º tinha uma impressão favorável de 79%.

Bento 16 nunca conseguiu um número mais alto do que 52% nas pesquisas nacionais Pew feitas desde que foi elevado ao posto, em 2005.

É claro, ser papa não é um concurso de popularidade - particularmente para o papa atual. "Sob João Paulo 2º, havia um certo culto à personalidade, que acho que Bento 16 não gosta", diz o reverendo Thomas J. Reese, membro sênior do Centro Teológico de Woodstock na Universidade de Geortown. "Bento 16 não quer um culto de personalidade em torno de si. Ele quer apontar na direção de Jesus".

Para ser justo, esta é a primeira oportunidade para muitos católicos americanos formarem uma impressão de Bento 16 como foi dito através da extensa e em geral bastante favorável cobertura de sua visita pela mídia. "A diferença sobre como os dois papas são vistos tem mais a ver com seus estilos pessoais do que com sua essência", dizem os especialistas católicos.

"João Paulo 2º era um pastor, e este homem é um professor", diz Christopher M. Bellitto, professor da Universidade Keane em Nova Jersey e autor de "101 Perguntas e Respostas sobre o Papa e o Papado".

David Gibson, autor da biografia "A Regra de Bento", chama o papa João Paulo 2º de "papa da Broadway". Já Bento 16, diz ele, "se fosse um turista na cidade de Nova York, ele visitaria os conventos e o Metropolitan Museum."

Nenhum dos dois pode dizer que Bento 16 não está sendo recebido calorosamente pelos quase 3 milhões de católicos da cidade de Nova York. Uma visita papal - a primeira para esta área em 13 anos - ainda é um grande evento. A Arquediocese de Nova York recebeu 200 mil pedidos para os 57 mil lugares do Estádio Yankee disponíveis para a missa.

"A procura tem sido simplesmente atronômica", diz Joseph Zwilling, porta-voz da Arquidiocese. "Outro dia, anunciamos na Internet 5 mil ingressos para as pessoas assistirem a papamóvel passar na Quinta Avenida próximo à catedral de St. Patrick, e eles se esgotaram em poucas horas."

Outra razão importante pela qual João Paulo 2º continua tão popular é que as pessoas tiveram tempo para se familiarizar com ele. Ele foi o papa durante 26 anos, por muito mais tempo do que qualquer outro papa desde a metade dos anos 1800. Para os católicos que nasceram ou cresceram durante seu regime, João Paulo foi o único papa que conheceram, ou sentiam como se conhecessem.

"Ele foi uma pessoa incrível, completa em vários aspectos", disse a estilista Barbara Hopkins, 50, de Blauvelt, Nova York, na sexta-feira do lado de fora do lugar onde está o papa na East 72nd Street. "Que eu saiba Bento 16 não fez nada tão grandioso até agora."

O professor Bellitto, da Universidade Kean, diz: "Já ouvi pessoas de 40 e 50 anos dizendo: 'Vou vê-lo na TV, porque eu já conheci o verdadeiro papa.'"

A pesquisa recente da Pew revelou que 15% dos católicos ainda não formaram uma opinião sobre Bento 16. Uma dessas pessoas, Rita Davis, diz que está mais do que disposta em dar uma chance ao papa.

"É como se você perdesse um ente querido e outra pessoa tentasse tomar o seu lugar", disse Davis, 51, do Bronx, que trabalha em um hospital e estava fazendo compras na livraria Filhas de São Paulo. Ela disse que planeja acampar do lado de fora do Estádio Yankee na esperança de que uma visão de Bento 16 acalme seu coração. "Pode ser que a gente não sinta o mesmo", disse ela, "mas a pessoa fará o máximo para preencher aquele vazio."

*Contribuíram com a reportagem: Suzanne DeChillo, Ewa Kern-Jedrychowska, Colin Moynihan e Mathew R. Warren. Eloise De Vylder

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