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19/04/2008

McCain fala sobre a Al Qaeda. Mas qual?

The New York Times
Michael Cooper e Larry Rohter
Do The New York Times
Enquanto faz campanha com o peso de uma guerra altamente impopular em seus ombros, o senador John McCain do Arizona freqüentemente menciona a "Al Qaeda" para descrever o inimigo no Iraque e argumentar a favor da manutenção do curso na guerra ali.

"A Al Qaeda está em retirada, mas não derrotada", é sua resposta padrão sobre como as coisas estão andando no Iraque. Quando repreende os democratas por quererem uma retirada das tropas, ele costuma alertar que "a Al Qaeda então terá vencido". Em um ataque ao senador Barack Obama de Illinois, o pré-candidato democrata, McCain foi ainda mais longe, alertando que se as forças americanas se retirarem, a Al Qaeda "tomaria o país".

Os críticos dizem que ao abordar a guerra desta forma nos comícios e propagandas, McCain, o virtual candidato republicano, está simplificando demais a natureza de hidra da insurreição no Iraque, de uma forma que explora as emoções que o nome "Al Qaeda" provoca desde os ataques do 11 de Setembro.

Há um debate acalorado desde o início da guerra sobre a natureza da ameaça no Iraque. O governo Bush há muito retrata a luta como parte da guerra mais ampla contra os terroristas islâmicos. Os oponentes da guerra acusam o governo de nublar deliberadamente a distinção entre os terroristas do 11 de Setembro e as forças antiamericanas no Iraque.

"O problema fundamental que enfrentamos no Iraque é que não há um único centro de gravidade, como na Guerra Fria, mas toda uma constelação de forças adversárias", disse Bruce Hoffman, um especialista em terrorismo e contra-insurreição. "Isto é muito mais fracionado do que a maioria das pessoas pode imaginar, com múltiplas partes independentes, e quando você conta com esse universo de redes, não é possível adotar uma abordagem tamanho único."

A entidade a qual McCain se refere -a Al Qaeda na Mesopotâmia, também conhecida como Al Qaeda no Iraque- só passou a existir depois que os Estados Unidos invadiram o Iraque em 2003. A Estimativa Nacional de Inteligência mais recente a considera a ramificação mais potente da Al Qaeda. Ela é um grupo altamente local e vagamente organizado de árabes sunitas que, segundo o ponto de vista oficial dos militares americanos que McCain endossa, é liderado pelo menos em parte por agentes estrangeiros e recebe combatentes, recursos e direção de altos líderes da Al Qaeda.

Em discussões mais longas sobre o assunto, McCain freqüentemente entra em maiores detalhes sobre as entidades que disputam o controle no Iraque. Alguns analistas não são contrários a McCain retratar a insurreição (ou as múltiplas insurreições) no Iraque como sendo a Al Qaeda. Eles dizem que ele está usando uma "frase de efeito perfeitamente razoável" que, apesar de imprópria do ponto de vista acadêmico, é aceitável em campanha, um lugar que "não é propício a longas explicações sobre o que estamos realmente enfrentando", disse Kenneth M. Pollack, diretor de pesquisa do Centro Saban para Políticas para o Oriente Médio da Instituição Brookings, em Washington.

Mas alguns estudantes da insurreição dizem que McCain está fazendo uma generalização perigosa.

"Os Estados Unidos não estão combatendo a Al Qaeda, eles estão combatendo os iraquianos", disse Juan Cole, um forte crítico da guerra e que é autor de "Sacred Space and Holy War: The Politics, Culture and History of Shiite Islam" (espaço sagrado e guerra santa: a política, cultura e história do Islã xiita) e professor de história da Universidade de Michigan. Um membro da Al Qaeda "é tecnicamente definido como alguém que presta fidelidade a Osama Bin Laden e recebe uma operação de terror para executar. É como a Máfia", ele disse. "Você ingressa e passa a ser leal a um chefão. E não sei se alguém no Iraque se encaixa nesta definição técnica."

A Al Qaeda na Mesopotâmia é apenas um grupo, apesar de um bastante letal, no ensopado de insurgentes sunitas, milícias xiitas, grupos apoiados pelo Irã, gangues criminosas e outros concorrentes que compõem a insurreição no Iraque. Isto ficou bem ilustrado no mês passado, quando o esforço malsucedido do exército iraquiano para tomar o controle de Basra das milícias xiitas levou a uma explosão de violência.

A atual situação no Iraque deveria ser mais apropriadamente descrita como uma "guerra civil multifaccionária" na qual "o governo é composto por facções xiitas rivais" e está "sob ataque de um grupo xiita de fora, o Exército Mahdi", escreveu Ira M. Lapidus, um co-autor de "Islam, Politics and Social Movements" (Islã, políticas e movimentos sociais) e um professor de história do Centro para Estudos do Oriente Médio da Universidade da Califórnia, em Berkeley, por uma mensagem por e-mail.

"As forças sunitas são igualmente difíceis de avaliar", ele acrescentou, e "é uma pergunta ainda sem resposta se a Al Qaeda é de fato uma organização que opera de forma unificada".

Nos últimos meses, McCain também está falando mais sobre a ameaça representada pela influência iraniana no Iraque, o que o coloca em acordo com os oficiais militares americanos, que após os combates em Basra parecem cada vez mais convencidos de que o apoio iraniano aos grupos xiitas agora constitui a principal ameaça à segurança no Iraque.

McCain reconheceu estas preocupações na noite de terça-feira, em uma entrevista para Chris Matthews no "MSNBC", quando disse que "nós agora vemos os iranianos começando a reafirmar sua antiga ambição persa, como você sabe, para aumentar sua influência, particularmente no sul do Iraque".

Ao falar sobre ambas as ameaças, McCain viajou no mês passado para uma visita ao Oriente Médio, onde disse várias vezes de forma errada que os iranianos estavam treinando agentes da Al Qaeda no Irã e os enviando para o Iraque. Avisado por um de seus companheiros de viagem, o senador Joseph I. Lieberman, de Connecticut, McCain se corrigiu, dizendo que falou de forma errada e queria dizer que o Irã estava treinando "outros extremistas" no Iraque.

E McCain foi além do que normalmente diz e do que seus assessores de política externa acreditam durante uma discussão com Obama no final de fevereiro. Ela começou quando Obama disse em um debate democrata que apesar de pretender retirar as forças americanas do Iraque o mais rapidamente possível, ele se reservava o direito de enviar as tropas de volta "caso a Al Qaeda formasse uma base no Iraque".

McCain aproveitou o comentário. "Eu tenho notícias", disse McCain em um comício em Tyler, Texas. "A Al Qaeda está no Iraque. Ela se chama 'Al Qaeda no Iraque'. Meus amigos, se partirmos, eles não estabeleceriam uma base. Eles tomariam o país, e não vou deixar isso acontecer."

Em geral, as posições de Obama acompanham as de muitos analistas independentes. Em um discurso em agosto, ele criticou Bush dizendo: "O presidente quer nos fazer acreditar que cada bomba em Bagdá faz parte da guerra da Al Qaeda contra nós, não uma guerra civil iraquiana. Ele elevou a Al Qaeda no Iraque -que não existia antes de nossa invasão- e negligencia as pessoas que nos atingiram no 11 de Setembro, que estão treinando novos recrutas no Paquistão".

A senadora Hillary Rodham Clinton, que deseja iniciar a retirada dos soldados, falou sobre deixar algumas tropas para trás para combater a Al Qaeda, lidar com os insurgentes sunitas, impedir a agressão iraniana, proteger os curdos e possivelmente ajudar os militares iraquianos. Ela alertou no ano passado sobre os riscos de permitir que o Iraque se transforme em um Estado fracassado, "que serviria como um campo fértil para insurgentes e para a Al Qaeda".

Quase ninguém, incluindo McCain, espera que a Al Qaeda na Mesopotâmia, um grupo sunita, assuma o controle do Iraque dominado pelos xiitas em caso de uma retirada americana. A situação que temem, e que McCain às vezes elabora, é a de que uma retirada americana seja celebrada como um triunfo pela Al Qaeda e crie instabilidade, que o grupo então poderia explorar para se tornar mais poderoso.

"A Al Qaeda no Iraque proclamaria vitória e aumentaria seus esforços para provocar tensões sectárias, buscando uma guerra civil plena, que então se transformaria em genocídio e desestabilizaria o Oriente Médio", disse McCain neste mês. "O Iraque se tornaria um Estado fracassado. Ele poderia se transformar em um santuário para terroristas treinarem e planejarem suas operações."

Randy Scheunemann, o principal assessor de política externa de McCain, disse durante uma recente teleconferência com repórteres que no caso de uma retirada americana, "não necessariamente uma única entidade assumiria o comando". Mas essa retirada poderia fortalecer as milícias xiitas no sul e os curdos no norte, deixando a Al Qaeda "livre para tentar impor sua vontade" e liderar uma maior violência sectária, que "provavelmente atrairia os vizinhos para o conflito", ele disse.

Apesar de ser "absolutamente incorreto descrever a insurreição sunita no Iraque como conduzida pela Al Qaeda, não se pode falar apropriadamente sobre o Iraque sem falar sobre a Al Qaeda no Iraque" e sua importância na guerra maior contra o terror, disse Reuel M. Gerecht, um ex-especialista em Oriente Médio da Agência Central de Inteligência (CIA) e que agora é membro do Instituto Americano do Empreendimento, em Washington. "Bin Laden é um bom juiz da história de sua própria organização e futuro, e ele olha para o Iraque como a grande batalha, o vai ou racha que decidirá o destino da ummah", a comunidade global dos fiéis islâmicos.

Quando o general David H. Petraeus, o alto comandante militar no Iraque, testemunhou no Comitê de Serviços Armados do Senado na semana passada, McCain buscou um endosso ao seu foco na Al Qaeda. Mas Petraeus respondeu com uma avaliação mais cheia de nuances do que o argumento que McCain costuma oferecer em sua campanha.

A Al Qaeda "ainda é uma grande ameaça, apesar de certamente não tão grande quanto já foi, digamos, há 15 meses", ele disse.

Em resposta a outra pergunta de McCain, Petraeus respondeu: "A área de operação da Al Qaeda foi altamente reduzida em termos das áreas de controle que dispunha há um ano e meio". George El Khouri Andolfato

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