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20/04/2008

Amor Moderno: por um tempo, a alegria do casamento foi nossa

The New York Times
Torie Osborn*
Eu nunca levantei a bandeira do casamento gay - pelo menos até passar por um, recentemente. Há pouco mais de quatro anos lá estava eu, sob a magnífica cúpula da prefeitura de São Francisco, olhando para os olhos de minha parceira e jurando amor eterno. Naquela época, não percebi que participar com entusiasmo desse alegre rito de passagem iria me expor ao seu deprimente lado sombrio.

Supreendi a mim mesma ao me casar. Até então eu havia boicotado os casamentos de muitos amigos hétero (e aliados políticos de nossa luta por igualdade), ficando ressentida contra os que, um a um, escolhiam abraçar esse privilégio, deixando a nós, gays e lésbicas, à margem.

Nos anos seguintes, o movimento pelos direitos civis gays avançou continuamente, assegurando para os casais alguns direitos legais que variavam de Estado para Estado. Na Califórnia, minha parceira e eu assinamos um registro de parceria doméstica sem benefícios em 2001, e então, apenas dois anos depois, recebemos uma série de benefícios distintos-mas-quase-iguais envolvendo herança, assuntos médicos, adoção e impostos estaduais. Sinceramente, aquilo era suficiente para mim.

Fiquei preocupada com o fato de que a comunidade gay estivesse muito focada no casamento e esquecendo de sua capacidade em se aliar aos outros para defender temas globais que cada vez mais alimentavam minhas próprias paixões políticas: a saber, a sustentabilidade ambiental e a justiça econômica.

Mas quando o prefeito de São Francisco, Gavin Newsom, começou a oferecer certidões de casamento em 2004, minha parceira e sentimos a atração magnética de entar para a história. Não somente participamos do desfile de casamento com 4 mil casais em direção à prefeitura, como convencemos nossas amigas mais próximas, três casais de lésbicas, a transformarem aquilo em uma experiência pública.

Os outros casais já estavam juntos há pelo menos 20 anos; nós éramos as mais jovens do grupo, juntas há apenas seis anos. Todas feministas, escolhemos dia 8 de março, o Dia Internacional da Mulher, como dia do nosso casamento surpreendentemente estonteante.

Como ativista social de longa data, já participei de vários atos de desobediência civil, mas nenhum tão profundo e maravilhoso. Lá estávamos nós na cúpula, e me peguei lembrando de quando vivia em San Franciso, vinte anos atrás, e a prefeitura era um símbolo desencorajador de exclusão, um lugar de protesto regular e desordenado.

Eu estava me casando a menos de cem metros de onde, em 1978, um supervisor da cidade, Harvey Milk, primeiro oficial abertamente gay a ser eleito para um cargo político importante, foi assassinado juntamente com o prefeito George Moscone.

Eu estive lá naquela noite trágica, chorando do lado de fora em silêncio com milhares de outras pessoas, com nossas velas tremulando diante do choque e pesar. Voltei lá quando o assassino de Harvey Milk recebeu uma sentença leve de sete anos, e nossa raiva borbulhante em relação à injustiça explodiu num ataque de violência: carros da polícia foram queimados e janelas foram estilhaçadas.

Uma revolução social mais tarde, o dia do meu casamento começou no Aeroporto Internacional de Los Angeles às 6 da manhã, ao me encontrar com os outros casais e nossos convidados, amigos e crianças. Um casal usava longos vestidos brancos iguais com deliciosos decotes que afastavam o mau-humor de levantar tão cedo.

No avião, nossa exuberância coletiva transformou todo o vôo das 7 da manhã em um excitante musical "Vamos nos Casar de Manhã". No alto-falante, o piloto deu suas congratulações "a nossos amigos gays viajando para o norte para se casarem", e ganhamos abraços e lágrimas de todas as aeromoças quando saímos do avião.

Minha parceira e eu havíamos nos conhecido sete anos antes, e nosso namoro progrediu entre jogos da liga feminina de basquete e longas trilhas. Ela era 12 anos mais nova e estava há um ano fazendo residência em cirurgia médica, descrevia a si mesma como "uma monogâmica doméstica" querendo se estabelecer.

Eu tinha vivido sozinha por 11 anos, sem nunca estar pronta para me comprometer, e estava relutante até mesmo em irmos morar juntas. Mas ela insistiu, e, depois de alguns anos eu pulei com os dois pés, e troquei meu apartamento por uma pequena casa que nós podíamos dividir. Adotamos um excêntrico gato de três cores chamado Pumpkin, e nossa família estava completa. Nós duas tínhamos empregos que gostávamos mutio - ela, a residência em cirurgia, e eu, como diretora executiva de uma fundação por justiça social em Los Angeles antes de entrar para a equipe sênior do novo prefeito, Antonio Villaraigosa.

Paralelamente, nossa relação vivia um desdobrar constante dos direitos dos relacionamentos gays: trocamos alianças depois daquela assinatura simbólica do registro estadual, mas nossa parceria doméstica começou a parecer concreta quando recebemos uma carta do secretário de Estado da Califórnia nos alertando que se não estivéssemos prontas para a variedade de direitos e responsabilidades da parceria doméstica legal, deveríamos cancelar nosso registro até o fim do ano.

Nós estávamos prontas. A vida era boa. Reformamos a casa e construímos uma vida maravilhosa de ativismo, trabalho que nos realizava, jogos de pôquer, fins de semana em Palm Springs, e viagens para fazer trilha nas Sierras todos os anos.

Conseqüentemente, apesar de não nos darmos muita importância à igualdade de casamento, alegremente nos juntamos ao bonde do casamento que nos levou à cúpula da prefeitura. Naquela noite, ao chegarmos em nossa casa em Los Angeles, a encontramos magicamente decorada, de cabo a rabo, com enfeites de casamento.

Descobrimos que os simpáticos elfos eram os meus colegas de trabalho, que haviam sorrateiramente preparado tudo durante o dia para nos surpreeender e divulgar a notícia para nossos vizinhos. Enquanto nos aproximávamos, vimos um tapete branco que havia sido colocado na porta da frente e coberto com pétalas de rosa cor-de-rosa e com uma pilha de presentes de última hora: biscoitos que as meninas escoteiras do fim da rua vendiam, uma planta da vizinha cristã do lado, muitos buquês de rosas vermelhas.

Foi então que a chuva de congratulações começou: durante as semanas seguintes, recebemos centenas de presentes, cartões e mensagens de e-mail de todos os cantos de nossas vidas. O departamento inteiro de minha parceira, composto principalmente por cirurgiões homens, enviaram o presente perfeito para um casal de lésbicas: um generoso vale-presente da Home Depot.

Meu presente favorito veio da equipe que milita pelos direitos dos trabalhadores coreanos na fundação que eu dirijo: dois patos de madeira pintados, muito bonitos, da tradição coreana. Demos a eles um lugar de honra na sala de estar, próximo à certidão de casamento elegantemente emoldurada que havia sido impressa nas cores do arco-íris e em papel brilhante.

A surpreeendente manifestação de apoio de nossos amigos hétero me ensinou uma lição profunda: casar é um rito de passagem para um círculo mais amplo da humanidade que nós compartilhamos. Com um casamento de verdade - não uma cerimônia de comprometimento, não um registro doméstico de parceria - nós havíamos nos iniciado em um círculo repleto de pessoas que automaticamente afirmavam quem nós éramos. Era um clube que nem sabíamos que existia até que nos juntarmos a ele.

Então, quatro meses depois, a Corte Suprema da Califórnia anulou os casamentos. Estava dirigindo por uma estrada quando fiquei sabendo da notícia pelo rádio, e me senti um embrulho tão grande no estômago que tive de parar o carro. O fato de eu ter previsto esse resultado não o tornou menos avassalador.

Com a decisão da corte, nossa felicidade doméstica havia se aprofundado - ambas percebemos que as coisas estavam diferentes, como se nosso laço estivesse mais seguro.

Ah, mas como dizem, não há segurança real, e então aconteceu que essa etapa da vida se transformou em outra, mais triste.

Três anos após o casamento, próximo à nossa data de aniversário no ano passado, minha parceira anunciou num elegante jantar francês que estava me deixando. Meu mundo caiu, entrei num túnel escuro, e levou quase todo o ano passado para que eu me reerguesse.

Tudo se revelou um clichê embaraçoso: eu a apoiei durante sua residência e o estabelecimento de sua carreira, e agora que era para ser a minha vez, ela estava se mudando. O psiquiatra que nós consultamos chamou aquilo de "mudança na estrutura de satisfação das necessidades". Eu chamei aquilo de me jogar de um precipício. É claro, as separações são mais complicadas, mas foi como eu senti.

É verdade, a corte já havia dissolvido nosso casamento de última hora e ainda deveria fazer uma lei definitiva sobre o assunto. Mesmo assim, os nossos direitos pela parceria doméstica duramente conquistados precisavam ser desfeitos por advogados e procedimentos legais, assim como funciona com os casais hétero.

E sou grata a essas leis, uma vez que elas são feitas para proteger aqueles que como eu, no final, se descobrem em desvantagem financeira em relação ao parceiro. Não pude deixar de perceber a ironia de que toda a minha luta de 30 anos por direitos civis gays havia se transformado naquela papelada.

O meu divórcio significou que eu estava sendo introduzida a um outro círculo de (quase) fraternidade: das mulheres abandonadas porque se casaram com médicos antes que eles terminassem suas residências. Recebi uma ligação de uma pessoa desconhecida que havia ouvido a minha história e se sentiu compelida a ligar e gentilmente me dar uma lição na secretária eletrônica: como é que eu não sabia da legendária habilidade que os cirurgiões têm de se separar de seus sentimentos?

Um outro amigo, psicólogo, me contou durante um jantar sobre um vasto estudo que mostrava a prevalência de divórcio na vida pós-residência dos médicos. "É uma síndrome comumente conhecida na área do aconselhamento de casais", disse-me ele com um sorriso apologético.

No quadro geral, a Suprema Corte da Califórnia recentemente ouviu argumentos em relação ao casamento gay. Faz quatro anos desde que a mágica iluminou a prefeitura de San Francisco e minha própria vida. Apesar do meu desfecho pessoal, continuo feliz por aquele momento e pelo que ele significou.

Agradeço ao prefeito hétero por sua decisão corajosa, e percebi o quão errada eu estava em escolher a parceria doméstica, quase equivalente ao casamento. Cruzo meus dedos na esperança de que a Califórnia siga Massachusetts e decida substituir a parceira doméstica pelo casamento real.

Já se passou um ano desde que fui forçada a experimentar o lado negro do comprometimento de uma união legal. Mas o lado bom disso tudo, para mim, é sua rede de segurança - a igualdade do divórcio. E com a ajuda constante de meus amigos, consegui me manter em pé através da horrível jornada de luto e finalmente sair mais forte e mais inteira. Eu até mesmo descobri uma nova alegria surgir em minha alma, que se abriu como um pequeno botão de violeta; ela veio do silêncio que se segue ao luto.

Como muitos antes de mim, estou um pouco mais sábia, conhecendo um pouco mais de mim mesma, profundamente castigada mas muito mais confortável em minha própria pele. Graças às leis de parceria doméstica, Pumpkin e eu pudemos ficar na casa, e estou começando a pensar que não vou ser uma lésbica divorciada amarga para sempre.

*Torie Osborn, ex-diretora executiva da Força Tarefa Nacional para Gays e Lésbicas, é conselheira do prefeito de Los Angeles e de várias fundações Eloise De Vylder

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