UOL Notícias Internacional
 

21/04/2008

O dinheiro não compra a felicidade. Bem, reconsiderando...

The New York Times
David Leonhardt
Ao final da Segunda Guerra Mundial, a economia japonesa passou por um dois maiores "booms" que o mundo já viu. De 1950 a 1970, o rendimento per capita cresceu mais do que sete vezes. O Japão, em poucas décadas, transformou a si mesmo de um país despedaçado pela guerra em uma das nações mais ricas da terra.

Ainda assim, estranhamente, os cidadãos japoneses não pareceram nem um pouco mais satisfeitos com suas vidas. De acordo com uma pesquisa, a porcentagem de pessoas que deram a resposta mais positiva em relação à satisfação na vida de fato caiu desde o final dos anos 50 até o início dos anos 70. Eles estavam mais ricos mas, aparentemente, não estavam felizes.

Esse contraste se tornou o exemplo mais famoso de uma teoria conhecida como paradoxo de Easterlin. Em 1974, um economista da Universidade da Pensilvânia chamado Richard Easterlin publicou um estudo em que argumentava que o crescimento econômico não necessariamente levava a uma maior satisfação.

Os habitantes dos países pobres tornaram-se mais felizes uma vez que puderam suprir suas necessidades básicas, o que não surpreende. Mas, além disso, os ganhos pareciam zerar as estatísticas. Traduzindo em termos atuais, ter um iPod não faz você mais feliz, porque então você vai querer um iPod Touch. A renda relativa - quanto você ganha em comparação aos outros ao seu redor - importava muito mais do que a renda absoluta, escreveu Easterlin.

O paradoxo rapidamente se tornou um clássico da ciência social, citado em jornais acadêmicos e na mídia popular. Ele esbarrou em um instinto humano quase espiritual de acreditar que o dinheiro não pode comprar a felicidade. Como dizia a manchete do New York Times em 2006, "Os hippies estavam certos todo o tempo em relação à felicidade".

Mas agora o paradoxo de Easterlin está sendo atacado.

Na semana passada, na Brookings Institution em Washington, dois jovens economistas - da Universidade da Pensilvânia, assim como Easterlin - apresentaram uma refutação ao paradoxo. Isso rapidamente capturou a atenção dos maiores economistas em todo o mundo. E também levou a uma resposta espirituosa por parte de Easterlin.

No novo paper, Betsey Stevenson e Justin Wolfers argumentam que o dinheiro de fato tende a trazer felicidade, mesmo que não a garanta. Eles apontam que nos 30 estranhos anos desde que Easterlin publicou seu trabalho, uma explosão de pesquisas públicas permitiu que se observasse melhor a questão. "A mensagem central", disse Stevenson, "é que os ganhos importam."

Assim como o paradoxo de Easterlin reconhece, uma renda relativa é muito importante. Cerca de 90% dos americanos que pertencem a famílias que ganham pelo menos US$ 250 mil por ano disseram que são "muito felizes" em uma recente pesquisa do Gallup Poll. Nas famílias com renda aquém dos US$ 30 mil, apenas 42% das pessoas deram essa resposta.

Mas Stevenson e Wolfers argumentam que a renda absoluta parece ser tão importante quanto. Para entender o que eles querem dizer, observe o mapa que acompanha esta coluna. É baseado nas pesquisas Gallup feitas em todo o mundo, e mostra claramente que a satisfação com a vida é maior nos países ricos. Os habitantes desses países parecem entender que eles têm uma boa situação, mesmo que não tenham um iPod Touch.

Mesmo a anomalia japonesa não é exatamente o que parece à primeira vista. Stevenson e Wolfers desenterraram as antigas pesquisas do governo e descobriram que a pergunta havia mudado com o passar do tempo.

No final dos anos 50 e no começo dos 60, a resposta mais positiva dos entrevistados foi: "apesar de eu não estar totalmente satisfeito, estou bastante satisfeito com a vida agora". (Você é capaz de imaginar uma pesquisa americana com essa opção de resposta hoje?) Mas em 1964, a resposta mais positiva se tornou mais simples: "completamente satisfeito".

É de se imaginar, então, que a porcentagem de pessoas que deu essa resposta caiu. Ao analisar os anos antes da mudança da resposta, a porcentagem de pessoas que se diziam "satisfeitas" ou "completamente satisfeitas" cresceu.

Para colocar essa nova pesquisa em contexto, recorri a Daniel Kahneman, um psicólogo de Princeton que dividiu o Prêmio Nobel de economia em 2002. Ele passou sua carreira cutucando os economistas por que acreditam que o dinheiro é tudo, e escreveu sobre o "moinho de aspirações" no centro do paradoxo de Easterlin.

Ainda assim Kahneman achou o trabalho de Stevenson e Wolfers "bem interessante". E acrescentou: "Há uma grande quantidade de evidências se acumulando que indicam que o paradoxo de Easterlin pode não existir."

Então liguei para Easterlin, que agora está na Universidade do Sul da Califórnia e que recebeu uma cópia do trabalho de Stevenson e Wolfers. Ele concordou que as pessoas dos países ricos estão mais satisfeitas. Mas ele é cético em relação ao fato de que a riqueza seja a causa da satisfação. Os resultados poderiam em vez disso refletir diferenças culturais em relação a como as pessoas respondem aos questionários, diz ele.

Ele ficaria mais convencido, continuou, se a satisfação tivesse claramente aumentado nos países à medida que eles ficaram mais ricos. Em alguns, isso aconteceu. Mas em outros - sobretudo nos Estados Unidos e na China - isso não aconteceu.

"Todos querem mostrar que o paradoxo de Easterlin não se sustenta", ele me disse. "E estou totalmente disposto a acreditar que isso é verdade. Mas gostaria de ver uma análise bem informada que mostra isso." Ele disse que pessoalmente gosta de Stevenson e Wolfers, mas achou que eles publicaram "um esboço muito cru sem evidências suficientes."

Os dois economistas, por sua vez, reconhecem que os dados dos países ao longo to tempo são confusos. Mas apontam para o fato de que a satisfação cresceu em sete dos dez países europeus nos quais há uma pesquisa desde 1970. Também aumentou no Japão. E uma boa razão para não ter aumentado nos Estados Unidos é que o pagamento por hora de trabalho da maioria dos trabalhadores não cresceu muito recentemente.

"A evidência ao longo do tempo é frágil", diz Wolfers. "Mas é mais consistente com nossa história do que com a dele."

Então onde é que isso nos deixa?

O crescimento econômico, por si só, certamente não é suficiente para garantir o bem estar das pessoas - isto é a maior contribuição de Easterlin para a economia. Nos EUA, por exemplo, alguns grandes problemas de saúde, como o tratamento básico ruim para doenças do coração, não são decorrência da falta de recursos. Pesquisas recentes também descobriram que algumas das coisas que fazem as pessoas mais felizes - pequenas viagens, tempo com os amigos - têm muito pouco a ver com uma renda alta.

Mas seria um erro levar esse argumento muito adiante. Permanece o fato de que o crescimento econômico não torna os países mais ricos só do ponto de vista materialista.

O crescimento econômico também pode pagar por investimentos em pesquisas científicas que levam a vidas mais longas e saudáveis. Pode permitir que as pessoas banquem viagens para ver seus parentes que não vêem há anos ou a lugares que nunca foram antes. Quando você é rico, pode decidir trabalhar menos e passar mais tempo com seus amigos.

A abundância é um ótimo negócio. Julgando pelo mapa, as pessoas em todo o mundo parecem concordar. Numa época em que a economia americana parece ter caído em uma recessão e a maior parte das famílias está com a renda estagnada há quase uma década, é bom se lembrar por que devemos nos preocupar com isso. Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,32
    3,157
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    0,56
    63.760,62
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host