UOL Notícias Internacional
 

22/04/2008

Em Bagdá, serviços locais são uma arma para conquistar o apoio dos moradores

The New York Times
Michael R. Gordon*

Em Bagdá
Enquanto as tropas americanas e iraquianas lutam para controlar o bairro de Cidade de Sadr desta capital, o programa do governo iraquiano para restaurar os serviços básicos como eletricidade, água e esgoto e coleta de lixo deixa a desejar, colocando em risco o esforço para conquistar os moradores desconfiados da área.

Por semanas, há relatos de que o primeiro-ministro Nouri al-Maliki estava prestes a anunciar um programa multimilionário para reconstrução do trecho sul de Cidade de Sadr, que atualmente está ocupado por tropas iraquianas e americanas.

Mas quase um mês após o avanço das forças americanas e iraquianas na área, não há sinais de reconstrução. Em vez disso, as ruas estão repletas de montes de lixo e piscinas de esgoto. Muitos bairros ainda estão sem eletricidade e muitos moradores estão temerosos demais para enfrentar o fogo cruzado em busca de atendimento médico. Os funcionários iraquianos de obras públicas, aparentemente com medo dos combates, raramente comparecem para trabalhar e o governo diz que a área não está segura o suficiente para que os reparos tenham início.

João Silva/The New York Times 
Soldado americano passa ao lado de lixo sendo queimado em Cidade de Sadr, Bagdá

No sábado, três moradores de Cidade de Sadr abordaram cuidadosamente uma posição do Exército americano para entregar um alerta: a menos que o governo iraquiano ou os americanos façam algo para restaurar os serviços essenciais e remover as pilhas de lixo, as milícias ganhariam maior apoio.

O governo iraquiano há muito tem dificuldade para melhor os serviços aos seus cidadãos, mas o atraso nos esforços de reconstrução em Cidade de Sadr está complicando a estratégia americana para impedir as milícias da área e deter os morteiros e mísseis que são disparados de suas ruas na direção da fortificada Zona Verde.

Na esperança de estabilizar a porção sul de Cidade de Sadr, as forças americanas estão construindo um muro para dividir o bairro e avançando juntamente com o exército iraquiano para as áreas de Thawra e Jamilla ao sul de onde a barreira está sendo construída.

Mas uma tática padrão -e, segundo muitos aqui, crucial- de contra-insurreição é ter apelo junto a uma população cética após os combates em uma área por meio da restauração e melhoria de serviços básicos.

"Aquele que for capaz de consertar os serviços públicos detém as chaves do reino em termos de conquistar o apoio do povo iraquiano e no final colocar um fim a este conflito", disse o sargento Alex J. Plitsas, da 312ª Companhia de Operações Psicológicas, que se reuniu com representantes de Cidade de Sadr.

"As pessoas me dizem repetidas vezes que consideram suas necessidades básicas como sendo mais do que alimentos, roupas e abrigo", disse o sargento, cuja equipe faz parte da Companhia B, 1º Batalhão, 14º Regimento de Infantaria. "Elas incluem eletricidade, água e esgoto. E até que o governo iraquiano forneça esses serviços básicos, eles não confiarão neles."

De fato, o Exército Mahdi, a milícia fundada por Muqtada Al Sadr, o clérigo antiamericano que detém a influência aqui, há muito emprega a entrega de ajuda e serviços básicos como meio de construir influência política em sua luta pelo poder.

"Por meio de um esquema semelhante ao do Hizbollah, o movimento sadrista xiita se estabeleceu como o principal provedor de serviços no país", notou um recente relatório da Refugiados Internacionais, um grupo de defesa. "Em conseqüência da importância dos agentes de fora do Estado no fornecimento de assistência e segurança, os civis estão ingressando nas milícias."

Cidade de Sadr é tão grande e pobre que grandes áreas se encontram em ruínas, e apesar de funcionários do governo terem se mostrado dispostos a consertar os dutos de água, esgoto e linhas elétricas no passado, agora eles relutam em entrar em um momento de confrontos abertos.

Em meio aos recentes combates, o governo iraquiano realizou uma coletiva de imprensa conjunta com as forças armadas americanas no domingo, para divulgar seus planos para ajudar Cidade de Sadr, incluindo US$ 150 milhões para reformar a infra-estrutura da área. Mas quando pressionado por um prazo para a reconstrução, um porta-voz iraquiano para o plano de segurança de Bagdá se recusou a estimar uma data para início, dizendo que ainda é perigoso trabalhar no bairro.

"Nós não estamos dizendo que vamos distribuir suprimentos hoje, mas assim que a situação estiver estabilizada nós trabalharemos nestes projetos", disse Tahseen Al Sheikhly, o porta-voz do plano de segurança. "Por causa da segurança, não haverá nenhum projeto por enquanto."

Os atrasos na restauração dos serviços básicos estão bem aparentes para as tropas americanas que patrulham a área. Durante uma patrulha no domingo, soldados caminhavam em meio a nuvens cinzentas de lixo queimado e contornavam poças de esgoto.

Os moradores se queixam do lixo espalhado pelas ruas e canos de água quebrados. Um homem em uma túnica marrom conhecida como dishdasha, se queixava de que o governo iraquiano não fazia nada para criar empregos.

O Corpo de Bombeiros está funcionando, mas estudantes se queixam de que as escolas estão fechadas. Um menino, que disse ter medo de percorrer uma rua marcada pela batalha para ir até um hospital próximo, perguntou aos soldados americanos se podiam tratar uma irritação de pele.

Os oficiais americanos disseram que apesar de que poderia parecer mais simples para os Estados Unidos pagarem e organizarem as obras de esgoto ou linhas de força, a política americana é transferir estas responsabilidades de reconstrução para as autoridades iraquianas.

"Nós estamos tentando demonstrar alguma paciência aqui", disse o capitão Alex Carter, o oficial de assuntos civis do 1º Esquadrão, 2º Regimento de Cavalaria Stryker, que está anexado à Equipe de Combate da 3ª Brigada, 4º Divisão de Infantaria.

"Seria fácil para o Exército americano vir e consertar tudo, mas no minuto que o fizermos, nós ocuparemos o lugar do GOI e o governo se tornaria dependente de nós", acrescentou Carter, usando a sigla militar americana para o governo do Iraque.

Ainda assim, encorajar os iraquianos a seguirem em frente freqüentemente é uma experiência frustrante. O escritório local de obras públicas iraquiano, conhecido como Beladiyah, fica em um prédio verde-limão perto de um grande cruzamento em Thawra. Os oficiais americanos dizem que grande parte dos funcionários parecem não estar mais indo trabalhar. No sábado e domingo, as tropas americanas foram ao escritório e só encontraram um vigia presente.

"Há muita responsabilidade no momento por parte do GOI", disse Carter.

Os três moradores de Cidade de Sadr que abordaram os americanos temiam ser vistos conversando com os soldados. Eles foram conduzidos rapidamente à instalação e se encontraram sozinhos com Plitsas.

Os iraquianos disseram que contataram o escritório local de obras públicas e até mesmo o Ministério da Eletricidade. Mas a resposta foi a mesma: os funcionários iraquianos disseram que não tinham intenção de se aventurar em Thawra até que a área estivesse segura.

Se o governo iraquiano não está à altura do trabalho, argumentaram os moradores, então era dever dos americanos agir, já que estão em guerra com as milícias. Plitsas disse aos iraquianos que devem fazer sua parte para tornar a área segura para reconstrução, fornecendo dicas sobre a atividade das milícias e repassando suas preocupações cadeia acima.

Enquanto esperam pela ação do governo iraquiano, os americanos deram alguns passos. Um novo centro de operações civil-militar, que deverá ser operado por americanos e iraquianos, está sendo montado. Ele fornecerá aos moradores um local para apresentarem queixas de danos contra as forças americanas, checar o status dos detidos e se encontrar com as autoridades iraquianas.

Como um tapa-buraco, os americanos estão realizando um programa de US$ 400 mil para distribuição de grandes caçambas de lixo e empregar até 200 iraquianos locais. Mais de 90 foram contratados, mas alguns dos trabalhadores não compareceram para trabalhar e os resultados, reconheceu Carter, foram medíocres.

Os coletores de lixo vestem coletes amarelos. Na manhã de segunda-feira, um soldado pediu por rádio por um levantamento visual de quantos trabalhadores estavam recolhendo lixo ao longo de uma grande via.

A resposta por rádio não foi encorajadora: "No começo eram 20, mas agora só há quatro".

*Alissa J. Rubin contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

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