UOL Notícias Internacional
 

22/04/2008

Tecnologia provoca temor no tradicional mercado de chá da Índia

The New York Times
Jeremy Kahn
Em Guwahati, Índia
Os comerciantes aglomeram-se em torno das mesas de madeira em um grande e empoeirado auditório, examinando grossos catálogos que descrevem caixas de chá. Um vendedor sentado na frente do salão grita os preços em uma cadência rápida, enquanto os comerciantes berram e gesticulam, assinalando as suas ofertas.

Uma enérgica batida do martelo fecha cada venda, e o processo começa de novo - segundo as regras do mercado o leiloeiro tem que vender pelo menos três lotes em um minuto.

A cena repete-se todas as terças e quartas-feiras pela manhã, aqui no Centro de Leilão de Chá no Estado de Assam, no centro da famosa região produtora de chá da Índia, encaixada entre Butão, Bangladesh, Mianmar e China.

Jehad Nga/The New York Times 
Mulher colhe folhas de chá nos campos de Makaibari, em Darjeeling, na Índia

O chá é comercializado desta forma na Índia desde 1861. Mas, neste ano, a cacofonia dos leilões públicos de chá darão lugar ao barulho suave de teclados: os mercados de chá da Índia estão se tornando digitais.

Da mesma forma como o comércio eletrônico tomou conta da Bolsa de Valores de Nova York e da Bolsa de Mercadorias de Chicago, a mudança para os leilões computadorizados promete virar de ponta-cabeça o mundo tradicional dos mercadores de chá. Embora os produtores de chá e as grandes multinacionais tenham recebido bem a promessa do comércio computadorizado, diversos pequenos negociantes de chá temem que um comércio eletrônico signifique o fim de seu meio de vida.

O órgão governamental que estabelece as regras para o comércio de chá na Índia, o Departamento de Chá Indiano, vê no comércio eletrônico uma maneira de ajudar os plantadores que foram duramente atingidos pelos preços reduzidos do chá na última década. A idéia é que o comércio eletrônico resulte em preços mais justos e em menores custos das transações comerciais.

Estudos de outros mercados de commodities em todo o mundo demonstraram que até mesmo reduções modestas nos custos por meio da automação são capazes de gerar grandes aumentos no volume comercializado. O esforço da Diretoria do Chá é apenas uma dentre várias experiências na Índia nas quais o comércio computadorizado está sendo estimulado como forma de melhorar os preços que os agricultores pobres recebem pelas suas colheitas.

A principal vantagem do sistema computadorizado, segundo a Diretoria do Chá, é que os compradores podem fazer as ofertas de qualquer lugar, sem terem que estar fisicamente presentes na sala de leilão - ou sequer na mesma cidade em que o chá está estocado. "Isso significa maior participação do comprador e também maior competição", afirma H.N. Dwibedi, um consultor que assessora a Diretoria do Chá em questões referentes ao comércio computadorizado. "Uma maior competição garante que o verdadeiro preço do produto será encontrado".

Dwibedi diz também que um sistema eletrônico deverá ajudar a automatizar a compilação de catálogos de chá e a eliminar a papelada envolvida nas negociações, fazendo com que os negociantes poupem tempo e dinheiro.

A Índia, o maior produtor de chá do mundo, é também o terceiro maior exportador, depois de Sri Lanka e Quênia. Atualmente, nove centros de leilão como este de Guwahati operam em todo o país, e por eles passam cerca de 55% das 1 milhão de toneladas de chá indiano vendidas a cada ano (o restante é vendido diretamente das plantações para companhias de chá ou consumidores).

Atualmente, levar o chá a leilão pode ser uma tarefa que consome tempo e dinheiro: os plantadores colhem as folhas verdes, que a seguir são processadas, transformando-se em chá preto, ou então as vendem para que sejam processadas em outros locais. Após o processamento, um corretor leva um lote de chá, estoca-o, avalia a sua qualidade, envia amostras para potenciais compradores para degustação, e cria catálogos identificando os chás à venda - um processo que pode demorar semanas.

Depois disso o corretor vai até uma casa de leilão e vende o lote. Ele certifica-se de que o comprador pagou o preço combinado e levou a carga, e, em troca, recebe uma comissão, geralmente de 1% do preço da venda, mais o preço da armazenagem e outras taxas.

Um sistema eletrônico é especialmente atraente para grandes companhias de chá, como a Tata, o conglomerado indiano que é dono da marca de chá Tetley, e a Hindustan Unilever, o braço indiano da companhia internacional de produtos Unilever, que é dona da marca PG Tips.

Juntas, essas duas companhias controlam cerca de 45% do mercado. Elas têm feito pressões pela adoção dos leilões eletrônicos.

A Tata espera que o sistema computadorizado permita que ela coordene melhor as suas iniciativas nacionais para as vendas e poupe custos trabalhistas, segundo Kevin Paul, gerente da divisão de exportações da Tata Tea. O sistema de leilões pode também constituir-se em uma vantagem para os grandes compradores ao tornar mais difícil a divisão de lotes, uma prática na qual vários pequenos compradores se reúnem para comprar em conjunto um único grande lote de chá.

Por esta e outras razões, muitos pequenos compradores estão temerosos - especialmente aqueles que atuam como agentes de leilão para companhias de chá distantes. "Se os seus diretores das companhias puderem fazer propostas de suas cidades em qualquer lugar da Índia, o papel dessas pessoas será minimizado", diz Jayanta Kakati, secretário do Centro de Leilão de Chá de Guwahati.

Um dia os nove centros de leilão separados poderão se aglutinar, quem sabe resultando em um único mercado nacional de venda.

Os corretores também estão preocupados. Alguns dizem que um comércio eletrônico permitirá que plantadores e fábricas dispensem os seu serviços, vendendo diretamente para o mercado, embora não percam tempo em observar que o chá, ao contrário de muitos outros produtos agrícolas, não é uma commodity de verdade.

Cada lote de chá é único, e os compradores precisam degustá-lo para conhecerem a qualidade daquilo que estão comprando, o que faz com que o chá assemelhe-se mais aos vinhos finos - um produto para o qual o vinhedo, o solo e o clima desempenham papéis vitais - do que ao trigo ou à carne de porco.

"Teremos que mudar, mas sempre haverá uma exigência de alguém para avaliar a qualidade do chá, e catalogar o produto de maneira apropriada", diz Bikram Barua, diretor da Contemporary Brokers, uma das maiores companhias de comércio de chá do norte da Índia. "Por este motivo, não acredito que o corretor desapareça".

Mas os corretores de chá da Índia estão certos em se preocupar, explica Benn Steil, membro do Conselho de Relações Exteriores em Nova York. "É muito difícil para as firmas e os indivíduos especializados em negociações nos leilões adaptar-se aos mercados eletrônicos", afirma ele, observando as dificuldades que muitas firmas especializadas que atuam na Bolsa de Valores de Nova York vêm encontrando desde que o comércio eletrônico foi introduzido no ano passado.

Até mesmo alguns compradores que apóiam o mercado eletrônico dizem estar preocupados com a estrutura deste mercado. Por exemplo, eles temem que catálogos inteiros possam ser colocados simultaneamente à venda. Alguns compradores de chá dizem que preferem leilões parcelados, nos quais os lotes são oferecidos um por vez, porque isso permite que eles ajustem as suas ofertas a fim de obter quantidades suficientes dos tipos de chá corretos para manter um sabor consistente nas suas misturas do produto.

Esta é a segunda maior tentativa da Índia de implementar a venda eletrônica de chá. Em 2005, a Diretoria do Chá determinou que todos os leilões de chá deveriam ser feitos eletronicamente, mas a plataforma de informática que o órgão adquiriu da IBM estava repleto de problemas de software, e em um ano o sistema foi totalmente abandonado. A IBM não retornou os telefonemas que foram feitos durante várias semanas pela reportagem à empresa, no sentido de que a sua versão fosse ouvida.

Uma firma da Internet chamada teauction.com também tentou oferecer leilões on-line no início desta década, mas nunca conseguiu movimentar grandes volumes, e acabou fechando.

As autoridades indianas dizem que desta vez as coisas serão diferentes. O sistema mais recente está sendo projetado pela NSE-IT, um ramo da bolsa de valores da Índia especializado em criar plataformas computadorizadas de comércio. A Diretoria do Chá pretende estrear este sistema em Calcutá, onde tiveram início os primeiros leilões de chá, em dezembro próximo, e introduzir o software nos outros centros de leilão nos três meses posteriores.

A princípio, embora o comércio vá ser conduzido por computadores, compradores e corretores ainda terão que estar presentes no centro de leilão. Mas, caso o desempenho do sistema seja bom, ele será aberto para o comércio remoto pela Internet.

Os comerciantes de chá mais antigos, muitos dos quais não sabem lidar com computadores, já falam com tom de voz melancólico nos centros de leilão, como se já estivessem fora do jogo.

"Éramos capazes de entrar em uma sala de leilão e entender rapidamente como estava o mercado em cinco ou dez minutos - quem estava comprando a partir de que país e por que", diz Ulhas Saraf, diretor da Saraf Trading Corporation, uma companhia de chá na cidade de Kochi, no sul da Índia.

Mesmo assim, Saraf, que ingressou no setor na década de 1950, afirma que não poderia se colocar como empecilho ao progresso. "A nova geração acha que o computador é melhor", afirma ele. UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    13h19

    0,24
    3,148
    Outras moedas
  • Bovespa

    13h30

    0,21
    64.822,18
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host