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23/04/2008

Dominó oferece alívio aos haitianos e humilhação aos perdedores

The New York Times
Marc Lacey
Em Porto Príncipe, Haiti
Havia sofrimento nos olhos de Jean François, sofrimento real, uma expressão terrível de infelicidade. O motivo talvez fosse o fato de ele não ter comido quase nada naquele dia, ou o desemprego, ou a total falta de esperança de conseguir um trabalho. Talvez a expressão de Jean François se devesse à imundície generalizada do seu bairro, uma favela enorme e deprimente, composta de barracos com telhados de zinco.

Ao se deparar com tal cena, um observador seria tomado por um impulso no sentido de auxiliar o homem de 29 anos, de consolá-lo, de ajudá-lo de alguma forma a sair daquele estado visível de profunda depressão.

Mas não havia nada a se fazer. O fato é que o motivo imediato do desespero de François não residia na miséria ou no desemprego, mas sim na série de derrotas que sofreu na mesa de jogo - e nas dezenas de prendedores de roupa presos à sua face, braços e barriga.

Tyler Hicks/The New York Times 
Haitiano tem pregadores presos no rosto e nos braços como castigo por derrota no dominó

Em um contraste marcante com a aparência sofrível de François, os outros homens reunidos para um áspero jogo de dominó no bairro Cité Soleil, em Porto Príncipe, em uma tarde recente, riam prazerosamente. E a risada deles duplicava de intensidade todas as vezes que olhavam para François. Um coro de urros animados crescia a cada vez que ele perdia um outro jogo, e mais prendedores de roupa eram colocados nas suas orelhas, bochechas, queixo, antebraços e torso.

Todos concordaram que os pregadores são particularmente dolorosos quando beliscam as orelhas. Finalmente, após perder e, a seguir, perder de novo, François não agüentou mais. "Dói demais", disse ele, levantando-se da mesa frágil e removendo os pregadores um a um. Um outro jogador logo ocupou o lugar dele, empurrando François para o lado e fazendo uma jogada. Todo mundo necessita de uma válvula de escape de vez em quando e, no Haiti, onde a situação é sempre difícil, e rebeliões devido à falta de comida irromperam recentemente em todo o país, o dominó oferece exatamente esta possibilidade de alívio temporário.

"Ele é um grande passatempo", afirma Tousaint Chavane, 61, pai de sete filhos, que estava jogando, e ganhando, em uma tarde recente. "O jogo ajuda a gente a esquecer". Aqueles que contam com algum dinheiro para gastar podem freqüentar as rinhas de galo ou jogar na loteria, que utiliza os mesmos números premiados da Loteria do Estado de Nova York, a fim de evitar alegações de manipulação dos resultados.

Mas a beleza do dominó é que, para jogá-lo, não é necessário sequer um gourde (a moeda do Haiti). Isto, entretanto, não significa que não haja um preço a ser pago.

O dominó é jogado em duplas ou individualmente. Os pregadores de roupa são apenas uma das várias técnicas que os haitianos utilizam para punir aqueles que perdem quatro jogos consecutivos.

Algumas punições concentram-se menos na dor e mais no ridículo. Por exemplo, obrigando o jogador a usar um saco de açúcar vazio na cabeça ou um chapéu enorme de cores berrantes. Outros perdedores podem ter as faces empoadas, fazendo com que a pele negra fique branca, ou ainda ser obrigados a vestir grossos casacos a fim de que sofram no calor opressivo.

O método específico de sofrimento depende das regras de cada mesa de jogo em determinado dia, algo que varia bastante dependendo da região do país.

Às vezes o perdedor é obrigado a saudar todas as pessoas que se aproximam da mesa. Ou a beber um copo d'água toda vez que perde um jogo, sem direito a ir ao banheiro. Ou a trazer de volta qualquer peça de dominó que um outro jogador arremesse da mesa, ainda que ela caia em uma vala de esgoto. Segundo os jogadores, qualquer um pode acabar como perdedor, dependendo do dia.

"Não dá de fato para dizer quem é o melhor jogador", diz Harry Degrave, 38, um pai de seis filhos que freqüenta assiduamente as mesas de dominó de Cité Soleil. "Um dia pode ser ele. Outro dia pode ser aquele cara ali. E depois pode ser eu. Algo que não apreciamos é alguém que conta muita vantagem. Todos ficam querendo que esta pessoa perca e sofra".

Em um outro jogo, no bairro Juvenat, os jogadores sorvem uma bebida alcoólica caseira, e os efeitos são bastante evidentes.

Enquanto uma partida bastante competitiva desenrola-se à sombra de uma árvore, Excellent Fontus, 67, faz palhaçadas e fala sobre como a situação era boa nos velhos tempos, quando a maior parte dos jogadores mais novos ainda não tinha nascido.

"Vocês estão todos jogando dominó, e quando voltarem para casa ainda estarão famintos", diz ele, provocando os outros.

Tirando uma moeda do bolso, ele diz: "Na minha época podia-se comprar muita coisa com isto. Agora é preciso uma sacola de dinheiro, e mesmo assim não dá para comprar quase nada".

Todos fazem um sinal de assentimento, embora a batida forte das peças de dominó sobre a mesa não diminua de intensidade enquanto o velho fala.

Nesta disputa específica os prendedores de roupa são colocados apenas nos antebraços dos perdedores, em uma variação do jogo. François Mondesir, 40, um pedreiro ocasional que joga dominó durante os vários dias em que não consegue encontrar trabalho, não ganha há algum tempo.

"Isto torna o jogo divertido", diz ele, após ter sido expulso da mesa, enquanto esfrega os braços doloridos. "Quanto mais tempo os pregadores ficam presos na gente, mais dor eles provocam. Isso faz com que você se esqueça de tudo o mais que está lhe incomodando".

No Cemitério Nacional, os coveiros desempregados usam uma técnica diferente para punir os perdedores. Pesos de metal - peças de ferro retiradas do portão do cemitério - são atados a uma corda e a seguir jogados sobre os ombros do perdedor. À medida que o tempo passa, o incômodo causado pela carga é evidente.

"Não temos emprego", reclama Yves Beauvil, 58, pai de três filhos e que é o perdedor do dia. "Se não estivéssemos jogando dominó, o que mais faríamos?"

Quanto ao peso no seu ombro esquerdo, Beauvill diz que é apenas um pequeno incômodo. "Dá para suportar", assegura ele, provocando sorrisos de satisfação nos outros jogadores. UOL

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