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24/04/2008

Apoio à Igreja russa esconde 'tolerância' oficial do Kremlin

The New York Times
Clifford J. Levy

Em Stary Oskol, Rússia
Foi pouco depois da igreja metodista se estabelecer aqui que os problemas começaram.

Primeiro vieram as visitas de agentes da FSB, a sucessora da KGB, que evidentemente viram uma ameaça nas poucas dezenas de almas buscadoras que se reuniam em apartamentos apertados para ler a Bíblia e, talvez, beber um pouco de chá. As autoridades locais então rotularam a igreja de "seita". Finalmente, no mês passado, eles a fecharam.

Houve um tempo após a queda do comunismo em que pequenas congregações protestantes floresceram aqui no sudoeste da Rússia, quando era quase tão fácil abrir uma igreja quanto um comércio. Hoje, esta região industrial se tornou emblemática da supressão da liberdade religiosa sob o presidente Vladimir V. Putin.

James Hill/The New York Times 
Arcebispo Ioann, chefe da Igreja Ortodoxa russa na região de Belgorod, em Lent, Stary Oskol

Assim como o governo aumentou o controle sobre a vida política, ele também se intrometeu nos assuntos religiosos. Os representantes do Kremlin em muitas áreas transformaram a Igreja Ortodoxa Russa em uma religião oficial na prática, repelindo outras denominações cristãs que parecem oferecer concorrência significativa por fiéis. Eles praticamente proibiram os protestantes de arrebanharem fiéis e desencorajaram a fé protestante por meio de uma série de medidas de interferência, segundo dezenas de entrevistas com autoridades do governo e líderes religiosos por toda a Rússia.

Esta aliança estreita entre o governo e a Igreja Ortodoxa Russa se tornou uma característica definidora do mandato de Putin, uma coreografia na qual se reforçam mutuamente e que geralmente é descrita aqui como um trabalho "orquestrado".

Putin faz aparições freqüentes com o líder da Igreja, o patriarca Aleksei 2º, nas emissoras nacionais de televisão controladas pelo Kremlin. Na semana passada, Putin apareceu proeminentemente aceitando um convite de Aleksei 2º para atender à missa da Páscoa Ortodoxa Russa, que ocorre neste domingo.

O relacionamento é baseado em parte em uma ideologia nacionalista comum dedicada a restaurar o poderio da Rússia após o desarranjo que se seguiu ao fim da União Soviética. A hostilidade da Igreja em relação aos grupos protestantes, muitos deles baseados nos Estados Unidos, ou que possuem um grande número de fiéis aqui, é tingido do mesmo sentimento anti-Ocidente freqüentemente expressado por Putin e outras autoridades.

A antipatia do governo também parece derivar em parte da cautela do Kremlin em relação a organizações independentes não aliadas do governo.

Aqui em Stary Oskol, a cerca de 480 quilômetros ao sul de Moscou, a polícia despejou uma congregação de Adventistas do Sétimo Dia de seu salão de encontros, a forçando a realizar seus cultos religiosos em uma casa caindo aos pedaços ao lado de uma construção. Os batistas evangélicos foram impedidos de alugar um teatro para um festival de música cristã, e nem mesmo foram autorizados a distribuir brinquedos em um orfanato. Um pastor luterano disse que partiu por alguns anos porque temia por sua vida. Ele voltou, mas se mantém discreto.

Na televisão local no mês passado, o principal padre ortodoxo russo da cidade, que é confidente dos políticos mais poderosos da região, fez um sermão que foi repetido em intervalos de poucas horas. Seu tema: heresia protestante.

"Nós deploramos aqueles que são desviados -as testemunhas de Jeová, batistas, evangélicos, pentecostais e muitos outros que cortam as vestes de Cristo como bandidos, que são como os soldados que crucificaram Cristo, que rasgaram a túnica sagrada de Cristo", declarou o padre Aleksei D. Zorin.

Esta linguagem é familiar aos protestantes em Stary Oskol, que chegam a cerca de 2 mil em uma cidade de 225 mil.

O reverendo Vladimir Pakhomov, o pastor metodista, lembrou de um alerta de um oficial da FSB para um de seus paroquianos: "O protestantismo está enfrentando momentos difíceis -ou talvez seu fim".

A maioria das igrejas protestantes é obrigada segundo a lei a se registrarem junto ao governo para poderem realizar apenas orações em um apartamento. As autoridades rejeitaram o registro de Pakhomov neste ano, primeiro dizendo que sua documentação era deficiente, então argumentando que a igreja era uma fachada para negócios não especificados.

Pakhomov apelou à Justiça, mas perdeu. Ele disse que agora pode ser preso por simplesmente conversar com crianças sobre participarem de um acampamento metodista.

"Eles nos tornaram leprosos para afugentar as pessoas", disse Pakhomov. "Há este clima que você pode sentir em cada célula sua: 'Não é nossa, é americana, é estranha; como é estranha, não podemos esperar nada de bom dela'. É uma ignorância total."

Yuri I. Romashin, um alto funcionário municipal, disse que a negação do registro da igreja metodista foi apropriada, explicando que o governo precisa proteger contra organizações suspeitas que usam a religião como fachada.

"A meta dela não é santa nem nobre", ele disse sobre a igreja de Pakhomov.

Romashin disse que o governo não discrimina os protestantes. "Nós temos que criar condições para não infringirmos de forma nenhuma o direito deles à religião deles e à liberdade de consciência deles", ele disse.

Mas, como muitas autoridades russas, ele se referiu às igrejas protestantes usando o termo pejorativo: "seitas".

Intolerância religiosa
As limitações aos protestantes da Rússia -cerca de 2 milhões em uma população total de 142 milhões- de forma alguma se aproximam da que existia sob a União Soviética oficialmente ateísta, que reprimia brutalmente a religião. E as igrejas em algumas regiões disseram não experimentar grandes dificuldades.

A Constituição russa garante liberdade religiosa, e Putin fala freqüentemente contra a discriminação. "Na Rússia moderna, a tolerância a outras crenças é a base da paz civil, e um fator importante para o progresso social", ele disse em um encontro de líderes religiosos em 2006.

Putin também condenou o anti-semitismo. Apesar de muitos judeus terem emigrado ao longo das últimas duas décadas, a população judaica -atualmente de poucas centenas de milhares de pessoas- está experimentando uma espécie de renascimento aqui.

O anti-semitismo não desapareceu. Mas em algumas regiões ele parece ter sido substituído pelo antiprotestantismo e, em menor grau, ao anticatolicismo.

Mikhail I. Odintsov, um alto funcionário do escritório do comissário de direitos humanos da Rússia, que foi nomeado por Putin, disse que a maioria das queixas que seu escritório recebe sobre religião envolve os protestantes.

Odintsov listou as questões: "Registro, renovação do registro, problemas com desapropriação ilegal de propriedade, problemas com a construção de igrejas, problemas com reformas, problemas com pastores que vêm do exterior, problemas com a lei, geralmente a polícia. Problemas, problemas, problemas e mais problemas".

"Na Rússia", ele disse, "não há uma força política influente, significativa, partido ou qualquer forma de organização, que defenda e proteja o princípio da liberdade religiosa".

Esta ausência é particularmente grande na esfera regional. A pedido de um bispo ortodoxo russo, os promotores na região oeste de Smolensk fecharam uma igreja metodista no mês passado, supostamente por manter uma minúscula escola dominical sem licença de ensino. Os defensores da igreja notaram que muitas igrejas e outros grupos religiosos na Rússia mantêm escolas religiosas sem licenças e nunca foram perseguidos.

A FSB está travando uma batalha por toda a Rússia contra as testemunhas de Jeová. Em Nizhny Novgorod, no centro do país, o grupo local de testemunhas de Jeová precisou cancelar eventos religiosos pelo menos uma dúzia de vezes nos últimos dois meses, depois que a FSB ameaçou os proprietários de salões de encontro, disseram membros da igreja.

Em fevereiro, algumas autoridades da cidade siberiana de Novosibirsk, a terceira maior da Rússia, propuseram a criação de uma comissão para combater o que chamavam de "seitas totalitárias". O governador da região de Tula, perto de Moscou, acusou a inteligência militar americana de usar as "seitas" protestantes para se infiltrar na Rússia.

As autoridades não disseram precisamente a quais grupos se referiam, mas os pastores protestantes disseram que o epíteto é tão disseminado que a maioria dos russos presume que se refira a todos os protestantes.

O termo claramente penetrou na consciência popular.

"Sendo uma ortodoxa russa, eu sou contra as seitas", disse Valeriya Gubareva, uma professora aposentada, que foi perguntada sobre os protestantes enquanto saia de uma igreja ortodoxa russa daqui. "Nossa religião ortodoxa russa é inviolável e não deve ser abalada."

Como outros paroquianos entrevistados, Gubareva disse que apóia a liberdade religiosa.

Uma nova identidade
Apesar da freqüência à igreja ser muita baixa na Rússia, as pesquisas mostram que os russos estão abraçando a Igreja Ortodoxa Russa como parte de sua identidade. Em uma recente pesquisa, 71% dos pesquisados se descreveram como ortodoxos russos, em comparação a 59% em 2003.

Há poucas centenas de milhares de católicos romanos na Rússia, e a Igreja Ortodoxa Russa tem relações tensas com o Vaticano, acusando missionários católicos de tentarem converter russos. O Vaticano diz que busca apenas atender aos católicos existentes.

O governo russo freqüentemente rejeita vistos para padres católicos estrangeiros, que são enviados pelo Vaticano porque existem poucos padres russos.

A Rússia tem mais muçulmanos do que protestantes ou católicos -algo entre 7 milhões e 20 milhões, dependendo de como a prática religiosa é medida. Mas a Igreja Ortodoxa Russa considera o Islã menos provável de conseguir converter fiéis.

Há números consideráveis de protestantes na Rússia desde a segunda metade do século 18. Após a queda da União Soviética em 1991, as igrejas protestantes no Ocidente viram a Rússia como um território fértil e gastaram pesadamente no envio de missionários para ajudar os fiéis existentes e converter outros.

Mas a Igreja Ortodoxa Russa, que foi amplamente perseguida sob o comunismo, estava se reconstruindo e preocupada em perder fiéis.

Uma reação se seguiu. Em 1997, sob o presidente Boris N. Yeltsin, a primeira grande lei federal foi aprovada restringindo as igrejas e missionários protestantes, exigindo que muitos deles se registrassem junto ao governo. Mas Yeltsin tinha uma relação bem mais ambivalente com a Igreja Ortodoxa Russa do que Putin, e no caos daqueles tempos as leis nem sempre eram aplicadas.

Sob Putin, que usa uma cruz e fala publicamente sobre sua fé, o governo acrescentou regulamentações e as leis freqüentemente são fiscalizadas de forma mais rigorosa ou, como dizem alguns protestantes, caprichosa.

Por sua vez, a Igreja, com seus laços com os czares, conferiu legitimidade a Putin ao defender seu governo enquanto ele consolidava o poder e esmagava a oposição. Em dezembro, após Putin ter escolhido seu importante assessor, Dmitri A. Medvedev, como seu sucessor na presidência, Aleksei 2º enalteceu a decisão em televisão nacional. Medvedev, que assume o governo em 7 de maio, venceu facilmente a eleição no mês passado.

Aleksandr Fedichkin, um líder da Aliança Evangélica Russa, que representa muitas igrejas protestantes, disse que os governadores, que são nomeados por Putin, regularmente acatam aos bispos ortodoxos russos.

"Muitas vezes, as autoridades nos dizem: 'Por favor, você deve perguntar ao bispo ortodoxo sobre sua atividade, e se ele concordar, então você pode trabalhar aqui'", disse Fedichkin.

Ao ser perguntado sobre essas queixas, Dmitri S. Peskov, um porta-voz do Kremlin, disse que os protestantes fizeram avanços impressionantes na Rússia, com as várias organizações religiosas registradas oficialmente no país tendo aumentado quase cinco vezes, para mais de 23 mil, nos últimos anos. Muitas delas, ele disse, eram protestantes.

"Acima de tudo, todas as religiões são tratadas de forma igual", disse Peskov. "Mas ao mesmo tempo, é preciso ter em mente que a Igreja Ortodoxa Russa é a principal igreja na Rússia, a igreja mais popular na Rússia."

Ele acrescentou: "Falando sobre as violações em termos de protestantes e outros, sobre possíveis queixas, é muito difícil traçar alguma tendência".

Ele recomendou que se buscasse o ponto de vista do bispo Sergei V. Ryakhovsky, chefe da União Pentecostal, que foi nomeado por Putin para a Câmara Pública, um conselho consultivo do Kremlin.

Ryakhovsky disse em uma entrevista que apesar do Kremlin expressar apoio a tolerância, a situação na esfera regional é mais problemática. Pouco ou nada é feito, ele disse, para ajudar as igrejas protestantes que são rotineiramente impedidas pelas autoridades de obter espaço para os cultos religiosos. Nem, ele disse, o Kremlin parece interessado em desencorajar os membros do clero ortodoxo russo de atacarem os protestantes.

"Estas questões, como a construção e obtenção de terrenos, são profundamente problemáticas por toda a Rússia", ele disse. "A questão não se limita a regiões ou províncias em particular. Eu sou como um bombeiro e tenho que correr para diferentes áreas do país, para encontrar formas de estabelecer um diálogo com as autoridades."

O controle ortodoxo
Aqui no sudoeste da Rússia, a região de Belgorod, tradicionalmente uma fortaleza da Igreja Ortodoxa Russa, está na dianteira da campanha antiprotestantismo.

Em 2001, durante o primeiro mandato de Putin, a região aprovou uma lei que restringe o proselitismo protestante. Mais recentemente, ela obrigou que todas as crianças nas escolas públicas tenham aulas do que é basicamente um curso de religião ortodoxa russa. Um guia para os professores recomenda que as escolas tenham salas religiosas com retratos de Jesus Cristo, ícones ortodoxos russos e outros itens sacros.

O governador regional, Yevgeny Savchenko, que chama a si mesmo de um governador ortodoxo russo, não quis ser entrevistado para este artigo.

O arcebispo Ioann, o chefe da Igreja Ortodoxa russa na região de Belgorod, disse que os russos têm uma profunda conexão com a Igreja Ortodoxa que o governo deve nutrir. "Basicamente, nós começamos a viver um período que é como o segundo Batismo da Rússia, assim como foi antes do Batismo da Rússia antiga", ele disse, se referindo à adoção do cristianismo pela Rússia no ano 988.

Ele disse que a Igreja queria manter laços estreitos com outras religiões, apesar de ser difícil ignorar as conexões estrangeiras dos protestantes. "O que mais me alarma é que a maioria delas nasce -me perdoe, mas preciso dizer a verdade- do dinheiro do Ocidente", ele disse. "Naturalmente, elas precisam exercer o papel das ofendidas que precisam de proteção."

O arcebispo negou que a Igreja deprecia os protestantes.

"Em nossos sermões, você nunca nos ouvirá tentando condená-los ou dizendo que fazem algo errado", ele disse.

Na verdade, no dia em que o arcebispo estava sendo entrevistado, a televisão local exibia repetidamente o sermão de seu vice, Zorin, comparando os protestantes àqueles que mataram Jesus Cristo.

As igrejas protestantes daqui disseram que são deixadas em paz pelas autoridades apenas se mantiverem suas atividades atrás de portas fechadas. Como ocorreu em um recente fim de semana, quando grupos de protestantes seguiam para quaisquer locais de encontro que conseguissem encontrar.

O pastor luterano, o reverendo Sergei Matyukh, conduziu um serviço em um pequeno apartamento com seu colega metodista, Pakhomov, em uma demonstração de apoio. Muitos no culto disseram que o que mais os incomodava é o fato das autoridades que os importunam antes professarem sua lealdade ao comunismo, mas agora à Igreja Ortodoxa Russa.

"Os detentores de poder, como regra, são ateístas", disse Gennadi Safonov, que trabalha na área de marketing. "Eles adotaram uma moda ou uma tendência."

Um dos poucos grupos protestantes com uma base permanente é o dos Batistas Evangélicos, que em relativa liberdade no início dos anos 90 conseguiram obter um prédio que abriga várias centenas de pessoas. Eles foram autorizados a ficar, apesar de dizerem que não são autorizados a encontrar outro espaço.

Os protestantes daqui precisam receber permissão oficial antes de fazerem qualquer coisa que lembre remotamente proselitismo. O reverendo Vladimir Kotenyov, um pastor batista, disse que sua igreja desistiu de pedir.

"Naturalmente, será visto como uma propaganda voltada à nossa população", disse Kotenyov. "'Que tipo de propaganda estão pregando?', eles perguntariam. 'Uma religião americana?'"

"É a forma como pensam: se você é uma pessoa russa, significa que precisa ser ortodoxo russo." George El Khouri Andolfato

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