UOL Notícias Internacional
 

24/04/2008

Carro novo proporciona nova vida aos chineses e até casamento

The New York Times
Keith Bradsher
Em Shuang Miao, China
Li Rifu fez um grande investimento emocional no seu primeiro carro. Li, agricultor e relojoeiro de 46 anos, e a sua mulher nutriam a esperança secreta de que o veículo aumentasse a chance dos seus filhos, que à época tinham 22 e 24 anos, de arranjar namoradas, casar e gerar netos para eles.

Um ano e meio depois, o plano parece estar funcionando. Depois que Li comprou o seu Geely King Kong pelo equivalente a US$ 9.000, os dois filhos arrumaram namoradas rapidamente. O mais velho já se casou, após um rápido namoro que incluiu vários passeios no carro da família, no interior do qual o casal trocou os seus primeiros beijos furtivos.

"No carro o ambiente é mais fechado, mais clandestino", disse Li Fengyang, o primogênito de Li, durante um recente jantar em família, fazendo com que a sua mulher ficasse profundamente ruborizada.

Qilai Shen/The New York Times 
Chen Yanfe, mulher de Li Rifu, observa a chegada de carros dos convidados ao casamento

A atenção do Ocidente pelo crescente apetite da China por automóveis geralmente concentra-se no vínculo entre este fenômeno e a dependência cada vez maior do petróleo estrangeiro, a demanda acelerada por recursos naturais como o minério de ferro e as emissões cada vez mais maciças de gases causadores do efeito estufa.

Mas milhões de famílias chinesas, da mesma forma que milhões de famílias norte-americanas, não enxergam tais conexões. Para elas, um carro é algo ao mesmo tempo mais simples e mais complicado.

A J.D. Power and Associates calcula que quatro quintos de todos os carros novos vendidos na China são comprados por pessoas que nunca tiveram um automóvel antes - nem mesmo usado. Essa proporção mantém-se constante nos últimos quatro anos. Já nos Estados Unidos, menos de um décimo dos carros novos é comprado por pessoas que nunca tiveram um automóvel novo antes, e menos de 1% de todos os carros novos é vendido a pessoas que nunca antes adquiriram um veículo novo ou usado.

O crescimento explosivo do número dos chineses que compram o seu primeiro carro é a força que move as vendas recordes de veículos no país, que aumentaram mais de oito vezes desde 2000. Foi por isso que a China acabou de ultrapassar o Japão como o segundo maior mercado de automóveis do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

Uma mudança de atitude dos chineses já é clara e provavelmente terá grandes conseqüências para o mundo todo: até mesmo os consumidores que adquirem o seu primeiro carro estão tornando-se mais sofisticados e querem automóveis melhores.

Os fabricantes domésticos de automóveis, como Geely e Chery, que já foram temidos pelas companhias européias e de Detroit como possíveis exportadoras para os mercados ocidentais, viram as vendas aumentar modestamente, estagnar e cair no ano passado - ainda que o mercado chinês como um todo tivesse continuado a crescer cerca de 20% ao ano.

As beneficiadas têm sido as joint ventures de multinacionais que vendem aqui carros projetados no exterior, como o Buick Excelle, o Volkswagen Jetta e o Toyota Camry. Praticamente todo especialista em automóvel acreditava que as multinacionais perderiam rapidamente fatias deste mercado para as fabricantes domésticas de carros de baixo custo.

Em vez disso, os consumidores chineses, incluindo os que compram carro pela primeira vez na vida, tornaram-se mais seletivos no que se refere ao conforto, ao estilo e à confiabilidade dos carros que adquirem. Como resultado, em vez de planejar uma conquista dos mercados externos, as companhias locais estão redobrando os seus esforços no mercado doméstico.

"Os consumidores estão em uma trajetória ascendente. Eles querem automóveis das marcas maiores e mais tradicionais", explica Michale Dunne, diretor-gerente da J.D. Power na China. "Eles preferem esperar, poupar e comprar veículos mais sofisticados em vez de sair da loja com um carro menor".

No outono de 2006, a família de Li - e especialmente Li Rifu - não quis aguardar. Quando a família comprou o primeiro carro, todos os seus membros concordaram em conceder entrevistas para a reportagem em Shuang Miao, uma aldeia rural na província de Zhejiang, na zona centro-leste da China. Mais tarde eles concordaram em dar outros depoimentos por telefone e concederam uma outra entrevista, durante um jantar de família na semana passada, em Shuang Miao, a fim de falarem sobre as suas experiências como donos do seu primeiro automóvel.

O que emerge é um retrato do papel cada vez mais importante exercido pelos carros sobre as formas, que mudam aceleradamente, como os chineses se socializam, casam, criam os filhos e, possivelmente, morrem.

Li Rifu estava tão entusiasmado no dia em que comprou o seu primeiro carro, em setembro de 2006, que acordou antes do sol nascer. Ele preparou o café-da-manhã para a mulher e os dois filhos crescidos, e a seguir montou na sua motocicleta branca para fazer a curta viagem que vinha aguardando ansiosamente havia anos.

Li passou quase a sua vida inteira aqui, na sua vila rural, que fica no sopé de uma montanha escarpada. Autodidata, ele é a versão chinesa encarnada do sonho norte-americano. Li aprendeu a consertar relógios, e conseguiu um emprego como capataz em uma mina de carvão na vizinha província de Anhui ao consertar o relógio do gerente. Após poupar algum dinheiro, ele voltou para a sua vila para dar início a um negócio de sucesso que atualmente emprega cinco camponeses. A firma é especializada no cultivo de flores para jardins. Naquela manhã de setembro, Li seguiu de motocicleta pelas estradas de terra da sua vila, passou por um riacho lamacento ladeado de bambuzais, no qual as mulheres da vila lavavam roupas nas pedras que ficam sobre a correnteza turva. Ele chegou a uma estrada pavimentada de quatro pistas, depois a uma outra de seis pistas, e rumou para o seu destino em Taizhou, uma cidade próxima: uma concessionária de automóveis.

No decorrer da jornada de meia hora, Li estava ansioso demais para prestar atenção à dor persistente e inexplicável na base da sua coluna.

Ele queria de fato um carro preto. Mas os filhos preferiam branco, dizendo que esta era uma opção mais popular para a geração deles, e Li acabou cedendo antes mesmo de seguir para a concessionária.

"Sem este carro, os meus filhos não teriam sido capazes de arranjar esposas - as garotas não se casariam com eles", afirma Li, lembrando-se de como, quando cortejou a sua mulher, no início da década de 1980, ele só necessitava de uma bicicleta. Ele arruinou meia dúzia de pneus de bicicleta carregando a mulher nos passeios que faziam juntos.

Li escolheu um sedã branco compacto Geely King Kong para um curto test drive. Depois, entregou o carro ao vendedor e subiu três lances de escada até o caixa. Mais tarde ele pagaria mais US$ 1.000 em taxas relativas ao emplacamento. "Nos dias que se seguiram, todos queriam dirigir o carro", conta ele com orgulho, afirmando que a sua previsão se confirmou. Li fala do seu sonho de um dia dirigir pela China para visitar Pequim e o Tibete, embora admita que precisará de mais aulas de direção antes que tais jornadas que duram dias sejam possíveis.

O fato de ser dono de um carro ajudou Li a conseguir contratos maiores para as suas flores. "Os meus clientes ficavam encantados por eu tê-los visitado de carro - isso faz com que a negociação passe para um patamar totalmente diferente", explica Li.

Vários meses após a aquisição do veículo, Fengyang, o filho mais velho de Li, de fato arrumou uma namorada, Jin Ya, uma bela vendedora da China Mobile, um serviço de telefonia celular. Cinco meses depois eles foram até o cartório local e casaram-se. Atualmente, ambos dizem que um dia querem ter um filho.

No jantar de família, Jin discorda da idéia que as jovens chinesas só consideram um homem como potencial marido caso este seja capaz de levá-las para passear de carro.

"Eu não, eu não!", afirma ela acaloradamente, antes de admitir com relutância. "Outras garotas dizem de fato que o homem precisa ter um carro".

Mas quando o Geely King Kong trazia novas alegria para a família de Li - o crescimento dos negócios, o namoro de Fengyang e Ya - a tragédia se abateu: Li Rifu e a sua mulher, Chen Yanfe, descobriram que sofriam de câncer.

O câncer do aparelho reprodutor de Chen foi aparentemente curado após uma despesa médica de US$ 7.000. Mas o tumor maligno na próstata de Li, do tamanho de um punho - a causa da dor misteriosa nas costas que o incomodava quando ele comprou o carro - resistiu a duas cirurgias e a quatro sessões de quimioterapia. O custo: mais de US$ 40 mil.

Como o seguro saúde local só cobre a despesa máxima de US$ 4.300 por pessoa anualmente, Li teve que vender vários dos seus bens, e ficou até endividado. Ele usava um chapéu durante o jantar em família, já que não gosta que as pessoas vejam como perdeu os cabelos devido à quimioterapia.

Daqui a duas semanas ele irá para um grande hospital de Xangai para submeter-se a mais uma cirurgia - uma viagem de carro de cinco horas para o norte -, e a seguir passará por mais duas sessões de quimioterapia. Mas ele não irá no carro da família: no ano passado ele vendeu o veículo por quase US$ 8.000 para cobrir as suas despesas médicas, e no momento não tem como comprar outro carro.

É o tipo de fato comum neste país, supostamente comunista, mas que tem um sistema de saúde precário, ou até mesmo inexistente. Enquanto muitas famílias escalam a ladeira rumo à classe média e compram carros, outras estão despencando dessa classe devido a problemas com os negócios, despesas médicas e outros contratempos, e não podem comprar um substituto para o primeiro carro.

Infelizmente, a família Li passou recentemente por uma outra tragédia. O filho caçula, Fengwei, também arrumou uma namorada com o auxílio do carro da família, a filha do gerente de uma grande fábrica, uma pessoa impressionante para a visão de mundo de Li Rifu. Mas o pai da garota morreu duas semanas atrás, quando um guindaste de construção da fábrica despejou acidentalmente a carga sobre ele depois que um eixo de aço partiu-se.

Apesar disso tudo, Li Rifu procura manter o otimismo. Ele agora sonha em recuperar a saúde, em ganhar novamente o dinheiro que gastou com o tratamento e, depois disso - assim como um número cada vez maior dos seus compatriotas - em comprar um carro maior e mais bonito do que o compacto Geely que teve que vender.

"Se eu comprar um outro carro, será um automóvel de melhor qualidade, com bancos ainda mais confortáveis e uma direção mais macia", afirma Li. UOL

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