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24/04/2008

Enfrentando a crise, presidente da Colômbia enfatiza avanços econômicos e democráticos

The New York Times
Simon Romero
Em Bogotá, Colômbia
O acordo de comércio de seu país com Washington está em suspenso. Seu primo está lutando contra a prisão por causa de uma possível ligação com os esquadrões da morte paramilitares. Os assassinatos de sindicalistas continuam. Mas quando perguntam a ele sobre os desafios de seu país, o presidente Álvaro Uribe aponta para o progresso no fortalecimento das instituições democráticas e no impulso ao crescimento econômico.

"A Colômbia não vive uma época de crise, mas sim uma época de soluções", disse Uribe em uma entrevista concedida na segunda-feira (21/04) no palácio presidencial Casa de Narino. Segundo ele, o judiciário está forte o suficiente para investigar a corrupção generalizada, o que já resultou na prisão de dezenas de membros do Congresso colombiano e do ex-chefe de inteligência de Uribe. "Nós quase que dobramos o orçamento da Justiça", observou.

Na terça-feira (22/04) foi emitida uma ordem de prisão contra Mario Uribe, um ex-senador que é primo de segundo-grau e confidente do presidente, sob acusações de que ele havia se encontrado com um comandante militar para discutir campanhas eleitorais que tinham como objetivo beneficiar os paramilitares, grupos responsáveis por algumas das piores atrocidades cometidas durante a longa guerra civil colombiana.

Numa atitude potencialmente embaraçosa para o presidente, Mario Uribe buscou asilo na embaixada da Costa Rica na Colômbia, em vez de entregar-se à prisão. A Costa Rica negou seu pedido no fim da terça-feira. Durante a entrevista, Uribe não falou sobre as ações de seu primo. Mas enfatizou que houve uma queda considerável no número de assassinatos e seqüestros em toda a Colômbia desde que ele assumiu o poder em 2002, o que atribui em parte à ação do governo em desmobilizar milhares de combatentes paramilitares.

Há um temor crescente de que as forças paramilitares, criadas para combater as guerrilhas de esquerda, estejam ressurgindo em algumas regiões do país voltadas para o tráfico de drogas e a extorsão. Acredita-se que os grupos insurgentes sejam responsáveis por uma grande parte do tráfico de cocaína; cerca de 90% da cocaína consumida nos Estados Unidos ainda vem da Colômbia.

Mas Uribe disse que seu governo recuperou o "monopólio do Estado para lutar contra qualquer grupo ilegal", referindo-se aos novos grupos armados como "quadrilhas criminosas". Uribe, um advogado que estudou em Harvard e Oxford, enunciou essas palavras cuidadosamente com um forte sotaque britânico.

Apesar do escândalo que arrepiou o Congresso, seu gabinete e sua própria família, Uribe continua bastante popular por aqui, com taxas de aprovação acima dos 80%. Muitos colombianos ficaram do seu lado após uma disputa diplomática em março com o Equador e a Venezuela devido a um bombardeio por parte da Colômbia contra um acampamento rebelde colombiano no Equador.

Os assassinatos de membros sindicais na Colômbia, entretanto, preocupam algumas autoridades de Washington, onde o assunto, combinado às divergências bilaterais, impediu o progresso de um acordo de comércio mais extensivo entre os dois países.

Quando questionado sobre esse atraso, Uribe, principal aliado de Bush na América Latina, escolheu suas palavras com cautela. "Tenho de ser muito prudente", disse.

"Mas precisamos do reconhecimento em relação ao progresso que a Colômbia já conseguiu", disse. "Precisamos nos associar aos Estados Unidos, não para esconder nossos problemas, mas para nos ajudar a resolvê-los". E continuou, citando a descoberta do assassinato de um sindicalista no norte da Colômbia na segunda-feira, um crime para o qual Uribe está oferecendo uma recompensa de mais de US$ 40 mil para capturar os responsáveis.

Enquanto os aliados de Uribe estão empenhados numa iniciativa para criar uma emenda à Constituição que permita a ele concorrer a um terceiro mandato, outro escândalo emergiu esta semana depois que uma integrante do Congresso, Yidis Medina, disse que ofereceram a ela favores ilegais em troca do apoio para a emenda que permitiu a Uribe concorrer a seu segundo mandato, em 2006.

Negando veementemente a acusação, Uribe disse: "meu governo reconhece o direito de participação política, e jamais tolera a corrupção."

Ao ser questionado sobre um terceiro mandato, tema que têm dividido a elite política do país, o presidente mudou de assunto para discutir os muitos desafios que a Colômbia ainda enfrenta. E sorriu abertamente quando foi pressionado para responder. "A longo prazo, é bem melhor ter muitos líderes que carreguem a tocha", concluiu Uribe.

Expressando desdém pelas guerrilhas de esquerda ainda em guerra contra o governo, Uribe, cujo pai teria sido morto pelos rebeldes em uma tentativa de seqüestro fracassada, disse esperar que surjam evidências dos vínculos entre os rebeldes e alguns advogados, revelando outra faceta das conexões entre o Congresso e os grupos armados ilegais.

O Congresso está exaurido, com dezenas de membros deixando suas cadeiras por causa do escândalo paramilitar, e com a discussão da legislação paralisada. Mas as prisões também são uma demonstração rara de recuperação institucional, comparando a poucos países na América Latina que têm um judiciário poderoso o suficiente para enfrentar a corrupção nessa escala.

Uribe apontou para outras diferenças entre Colômbia e os países vizinhos, particularmente o Equador, a Bolívia e Venezuela, que são governados por líderes de esquerda com pontos de vista contrastantes na relação com os Estados Unidos, no que diz respeito às regras de investimento e ao papel das forças do mercado na economia.

"Reconhecemos que somos uma espécie de exceção na América Latina", disse, ao explicar a abertura da Colômbia aos investimentos privados domésticos e estrangeiros. "Mesmo com uma grande riqueza de petróleo, é impossível construir a coesão social a longo prazo", disse com uma ironia sutil em relação às políticas socialistas do presidente Hugo Chávez na Venezuela rica em petróleo. Nos últimos meses, Uribe tem antagonizado com Chávez.

Durante a entrevista, Uribe retornou ao tema das instituições democráticas, que a seu ver fazem a Colômbia se destacar na região como parceira dos Estados Unidos, apesar da forma como essas instituições têm sido desqualificadas por causa de suas relações com os comandantes da guerra civil do país.

"A Colômbia tomou decisões para superar o longo pesadelo da violência", disse Uribe, sem sugerir que o fim da guerra esteja próximo. "Na Colômbia, não são os insurgentes que estão contra os ditadores", disse. "São os terroristas contra a democracia." Eloise De Vylder

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