UOL Notícias Internacional
 

24/04/2008

O rebelde acidental, por Paul Auster

The New York Times
Paul Auster*
Foi o ano dos anos, o ano da loucura, o ano de fogo, sangue e morte. Eu acabava de completar 21 e estava tão louco quanto todo mundo.

Havia meio milhão de soldados americanos no Vietnã, Martin Luther King tinha sido assassinado, as cidades queimavam em toda a América e o mundo parecia rumar para a derrocada apocalíptica.

Ser louco me parecia uma reação perfeitamente saudável para a mão que me haviam dado: as mesmas cartas que todos os rapazes receberam em 1968. No instante em que me formasse na faculdade, eu seria recrutado para lutar em uma guerra que eu desprezava no mais profundo do meu ser, e como já tinha decidido me recusar a lutar naquela guerra, sabia que meu futuro só apresentava duas opções: a prisão ou o exílio.

Eu não era uma pessoa violenta. Revendo hoje aqueles dias, vejo-me um jovem tranqüilo, amante de livros, lutando para aprender a ser um escritor, mergulhado em meus cursos de literatura e filosofia em Columbia. Eu havia marchado em manifestações contra a guerra, mas não era um membro ativo de qualquer organização política no campus. Simpatizava com os objetivos do SDS (um dos vários grupos de estudantes radicais, mas de modo algum o mais radical), mas nunca fui a suas reuniões nem jamais distribuí um panfleto ou folheto. Eu queria ler meus livros, escrever meus poemas e beber com meus amigos no bar West End.

Há 40 anos uma manifestação de protesto foi realizada no campus de Columbia. A questão não tinha nada a ver com a guerra, mas sim com um ginásio que a universidade ia construir no Morningside Park. O parque era propriedade pública, e como Columbia pretendia criar uma entrada separada para os moradores locais (na maioria negros), o projeto do edifício foi considerado injusto e racista. Eu concordava com essa avaliação, mas não fui à manifestação por causa do ginásio.

Fui porque estava louco, louco com o veneno do Vietnã nos meus pulmões, e as centenas de estudantes que se reuniram ao redor do relógio de sol no centro do campus naquela tarde não estavam lá para protestar contra a construção do ginásio, e sim para ventilar sua loucura, para gritar contra alguma coisa, qualquer coisa, e como éramos todos alunos de Columbia, por que não atirar tijolos contra Columbia, já que ela estava envolvida em lucrativos projetos de pesquisa para empresas militares e assim contribuía para o esforço de guerra no Vietnã?

Discursos tempestuosos se seguiram, a multidão irada rugia em aprovação, e então alguém sugeriu que fôssemos todos para o canteiro da obra e derrubássemos o alambrado que havia sido erguido para barrar os invasores. A multidão achou que era uma idéia excelente, e lá se foi a turba de estudantes loucos aos gritos, em disparada do campus de Columbia até o Morningside Park. Para minha grande surpresa, eu estava com eles. O que havia acontecido com o menino gentil que planejava passar o resto da vida sentado sozinho em um quarto escrevendo livros? Estava ajudando a derrubar a cerca. Ele puxou, empurrou e sacudiu, juntamente com dezenas de outros e, verdade seja dita, encontrou grande satisfação nesse ato louco e destrutivo.

Depois dos tumultos no parque, os prédios do campus foram invadidos, ocupados e mantidos durante uma semana. Eu acabei no pavilhão de matemática e ali fiquei durante todo o "sit-in". Os estudantes de Columbia estavam em greve. Enquanto realizávamos calmamente nossas reuniões nos edifícios, lá fora o campus fervia com disputas beligerantes aos gritos e socos, enquanto os que eram a favor ou contra a greve se enfrentavam com abandono. Na noite de 30 de abril, a administração de Columbia se irritou e a polícia foi chamada. Seguiu-se uma rebelião sangrenta. Junto com outras 700 pessoas eu fui preso -puxado pelo cabelo até a perua da polícia por um oficial, enquanto outro pisava na minha mão com sua bota. Mas sem mágoas. Fiquei orgulhoso por ter feito o meu pouquinho pela causa. Ao mesmo tempo louco e orgulhoso.

O que nós conseguimos? Não muita coisa. É verdade que o projeto do ginásio foi arquivado, mas a verdadeira questão era o Vietnã, e a guerra se arrastou por mais sete anos terríveis. Não se pode mudar a política do governo atacando uma instituição privada. Quando os estudantes franceses se insurgiram em maio daquele ano dos anos, estavam confrontando diretamente o governo nacional -porque suas universidades eram públicas, controladas pelo Ministério da Educação, e o que eles fizeram provocou mudanças na vida da França. Nós em Columbia éramos impotentes, e nossa pequena revolução não passou de um gesto simbólico. Mas gestos simbólicos não são gestos vazios, e, dada a natureza daqueles tempos, fizemos o possível.

Eu hesito em traçar comparações com o presente -e portanto não terminarei este trecho de memória com a palavra "Iraque". Hoje tenho 61 anos, mas meu pensamento não mudou muito desde aquele ano de fogo e sangue, e sentado sozinho neste quarto com uma caneta na mão percebo que continuo louco, talvez mais louco que nunca.

*Paul Auster é o autor de "A Trilogia de Nova York", "O Inventor da Solidão", "Timbuktu", entre outros. "Man in the Dark", seu próximo livro, será lançado em breve. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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