UOL Notícias Internacional
 

25/04/2008

Paquistão se aproxima de acordo com principal militante radical

The New York Times
Ismail Khan, em Peshawar, no Paquistão, e
Carlotta Gall, em Cabul, no Afeganistão
O governo paquistanês está perto de fechar um acordo com as tribos que mais militam em sua fronteira turbulenta, cujo principal líder é acusado de orquestrar a maior parte dos atentados suicidas dos últimos meses e o assassinato da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto.

Um acordo provisório de 15 pontos, que foi mostrado ao "The New York Times", requer o fim da atividade militante e a libertação de prisioneiros em troca da retirada gradual dos militares paquistaneses de parte da região tribal do Waziristão do Sul.

Enquanto o acordo ainda estava sendo negociado pelo governo junto aos anciões tribais, o líder militante Baitullah Mehsud emitiu ordem para que seus combatentes cessassem suas atividades tanto dentro das regiões tribais quanto na província adjacente da Fronteira Noroeste, advertindo de punição estrita aos violadores.

A estratégia de abordagem dos militantes pareceu uma tentativa do novo governo paquistanês de romper com as políticas do presidente Pervez Musharraf e restaurar alguma calma no Paquistão, que tem sido agitado por um número crescente de ataques suicidas. Diplomatas e autoridades afegãs em Cabul sugeriram que o novo governo estava tentando demonstrar boa vontade, mas também estava tentando ganhar tempo para trazer estabilidade ao país.

A perspectiva de um acordo com Mehsud, entretanto, foi recebida com ceticismo pelas autoridades americanas e afegãs, que criticaram os acordos passados por terem permitido que o Taleban e a Al Qaeda se reunissem, fortificassem seus laços e usassem o Paquistão como base para planejar ataques no país e no exterior.

"Vimos os acordos que fizeram anteriormente e não funcionam", disse uma autoridade americana referindo-se a um acordo no Waziristão do Norte, em setembro de 2006, que foi acusado de fortalecer os militantes e provocar um aumento dos ataques do outro lado da fronteira contra as forças dos EUA e da Otan no Afeganistão.

Em Washington, a porta-voz da Casa Branca Dana Perino também falou com desconfiança. "Estamos preocupados com isso", disse ela. "O que os estimulamos a fazer é continuar a combater os terroristas e não perturbar as operações militares e de segurança que estão em curso para impedir o porto seguro aos terroristas".

Apesar de Musharraf também ter negociado com os militantes, ele usou militares nas áreas tribais de uma forma que muitos paquistaneses criticaram como pesada. As operações militares e a aliança com os EUA no combate ao terrorismo tornaram-se profundamente impopulares.

O novo governo de coalizão, eleito em fevereiro, prometeu em campanha trazer paz por meio do diálogo. Líderes do Partido Nacional Awami, que governa a província da Fronteira Noroeste e faz parte da coalizão nacional, disseram que não acham que Mehsud entraria em negociações sérias. Entretanto, aparentemente, eles decidiram testá-lo.

Mehsud, talvez o mais famoso militante paquistanês, lidera um grupo amplo de militantes nas áreas da fronteira, chamado de Tehrik-i-Taliban Pakistan, ou movimento do Taleban no Paquistão. O líder é acusado de despachar muitos se não todos os ataques suicidas que atingiram o Afeganistão e o Paquistão nos últimos dois anos. Membros do governo americano disseram que acreditam que ele foi responsável pelo assassinato de Bhutto e que uma comunicação interceptada de uma conversa entre Mehsud e um de seus comandantes depois do evento confirmou seu envolvimento.

A justiça paquistanesa acusou Mehsud de ordenar e planejar a morte da ex-primeira-ministra. Entretanto, o viúvo de Bhutto, Asif Ali Zardari, e outros membros de seu partido duvidaram da versão dos eventos fornecida pelo governo anterior. Zardari, que hoje é presidente do partido, disse que Mehsud enviou-lhe uma mensagem negando seu envolvimento nos ataques contra Bhutto.

O acordo provisório foi cuidadosamente discutido e aprovado por altos líderes políticos em Islamabad e tem o apoio do estabelecimento militar, segundo as autoridades.

O sinal verde final para as conversas foi dado em uma reunião em Islamabad, no dia 15 de abril, com os altos líderes do novo governo de coalizão, que inclui o partido de Bhutto, Partido dos Povos Paquistaneses, hoje dirigido por Zardari.

Segundo as autoridades, o presidente do Partido Nacional Awami, Asfandyar Wali Khan, informou seus parceiros de coalizão sobre o assunto e obteve seu consentimento.

O chefe das forças armadas, general Ashfaq Parvez Kayani, em uma reunião no dia 2 de abril, disse ao primeiro-ministro Syed Yusuf Raza Gilani e aos altos líderes dos partidos da coalizão que os militares aceitariam as instruções da liderança política nas questões relativas à segurança interna, inclusive em negociações de paz com militantes e qualquer ação militar, segundo uma autoridade.

Khan e outros membros do governo não foram encontrados para comentários na quinta-feira. Zahid Khan, membro do governo do Partido Nacional Awami em Peshawar, confirmou as negociações com a tribo de Mehsud, mas não com o líder diretamente, e disse que o governo central era responsável pela negociação com as áreas tribais.

De acordo com documento provisório, o acordo de paz seria assinado entre o administrador político do Waziristão do Sul, como representante do governo Paquistão, e os anciões tribais, com representantes das tribos de Mehsud no Waziristão do Sul.

Como está, o acordo requer que as tribos de Mehsud cessem os ataques contra o governo e suas forças de segurança, assim como seus equipamentos e propriedades, parem de seqüestrar militares e autoridades governamentais, reabram as estradas e permitam liberdade de movimento à força de segurança local.

As tribos de Mehsud também teriam que assegurar que nenhuma atividade terrorista ocorreria em qualquer lugar do Paquistão, inclusive nas regiões tribais, e que eles não prestariam assistência a outros nos ataques nem usariam seu território para atividades contra o Estado.

Os homens de Mehsud também prometeriam não criar um governo paralelo, respeitar a lei e contatar a administração política para a resolução seus problemas, enquanto o governo decidiria as questões de acordo com os costumes locais e com a cooperação dos anciões locais.

O acordo requer que as tribos de Mehsud expulsem os militantes estrangeiros de seu território e prometam não lhes dar abrigo no futuro. O documento diz que a expulsão de militantes estrangeiros começaria depois de um mês da assinatura do acordo, mas que, com bons motivos, poderia ser adiada por um mês.

O documento também requer que os partidários de Mehsud assistam ao governo no desenvolvimento de planos para a região.

Não há menção de cessar ataques do outro lado da fronteira no Afeganistão ou contra o governo ou as forças estrangeiras no Afeganistão.

O acordo prevê a troca de prisioneiros logo após sua assinatura, como medida para fomentar a confiança mútua. Após a assinatura do acordo, o exército seria retirado do território de Mehsud de forma gradual e escalonada.

O acordo provisório também afirma que não pode ser anulado por pressões externas ou internas, numa presumível referência à pressão americana ou outra.

Uma autoridade expressou cautela e disse que o acordo ainda não está pronto. "Envolve duras negociações", disse a autoridade. "De forma alguma é simples e fácil".

A ordem de Mehsud para seus combatentes cessarem as atividades pareceu séria e foi distribuída em panfletos no Waziristão do Sul e distritos adjacentes. O texto advertia de duras penas se as ordens não fossem obedecidas, disse seu porta-voz.

"Baitullah Mehsud emitiu diretrizes para todos seus camaradas que, para restaurar a paz na região, devem cessar suas atividades daqui por diante, tanto nas regiões tribais quanto nos distritos da província da Fronteira Noroeste", dizia o panfleto. "Ele advertiu que suas diretrizes devem ser cumpridas ou os violadores serão punidos publicamente", disse.

Maulavi Omar, porta-voz de Mehsud, disse em entrevista telefônica de uma locação não revelada que os militares já começaram a se retirar da parte de Mehsud do Waziristão do Sul como resultado das negociações entre os dois lados.

Um porta-voz militar, no entanto, negou que tenha havido ordens para a retirada do exército. "Ainda não", disse o general Athar Abbas. "Até agora, não recebemos ordens do governo a este respeito", disse ele.

Maulavi Omar alegou que Tehrik-e-Taliban tinha como reféns mais de uma centena de militares, paramilitares e autoridades do governo e que seriam soltos após a assinatura do acordo de paz em uma grande reunião tribal chamada "jirga".

Maulavi Omar também disse que havia negociações paralelas para restaurar a paz tanto nas áreas tribais quanto na província da Fronteira Noroeste. Em documento separado, o governo provincial assinou um acordo com os líderes militantes de Malakand, área ao norte de Peshawar que inclui o vale turístico de Swat, onde ocorreram combates pesados nos últimos seis meses.

Uma grande "jirga" tribal seria feita para confirmar o acordo obrigatório dos dois lados, disse Maulavi Omar. "Haverá total obediência do nosso lado", disse ele, acrescentando que está mais otimista do que nunca que a paz finalmente retornará região. Deborah Weinberg

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