UOL Notícias Internacional
 

26/04/2008

Especialistas reavaliam o Nafta na esperança de curar a indústria americana

The New York Times
Elisabeth Malkin
Na Cidade do México
A senadora Hillary Rodham Clinton prometeu dar início à renegociação do Nafta em seus cem primeiros dias de governo, caso seja eleita. O senador Barack Obama disse que usaria a ameaça de não participar do bloco econômico como um martelo para pressionar o México por uma política de empregos mais forte e estabelecimento de normas ambientais.

Os dois candidatos democratas têm com freqüência culpado o Nafta (Acordo de Livre Comércio Norte Americano), existente há 14 anos, pela situação de desemprego dos trabalhadores das zonas industriais decadentes, onde os postos de trabalho se extinguiram por conta da concorrência mundial. Mas ao criticar o acordo que retirou as barreiras de comércio e investimentos entre o Canadá, Estados Unidos e México, eles estão de fato se referindo ao comércio com o México.

A promessa de renegociar alguns pontos do Nafta é muito mais complexa do que os candidatos admitem publicamente. Uma questão é o quanto poderão exigir em relação a normas ambientais e trabalhistas mais rígidas. A outra é se serão capazes de recuperar os empregos da indústria.

Os ataques ao Nafta, a princípio durante a campanha para a primária de Ohio e, mais recentemente, antes da votação de terça-feira (22/04) na Pensilvânia, surpreenderam alguns especialistas e analistas. Não resta muita dúvida de que o crescimento da Ásia, principalmente da China, acelerou a perda de empregos nos Estados Unidos mais rapidamente do que fez o Nafta.

Ainda assim, o argumento tem um impacto forte - principalmente quando marcas americanas famosas arrumam as malas e se mudam para o México. Um exemplo recente é a produtora de chocolates Hershey Co.. Esse mês, o presidente do sindicato Teamsters, James P. Hoffa, viajou para Reading, Pensilvânia, para visitar o que os sindicalistas chamam de "vítimas do Nafta": 260 trabalhadores de uma fábrica da Hershey que vai se mudar para o México até o fim do ano.

"Estes ditos acordos de comércio estão aniquilando os empregos americanos", disse Hoffa. "Eles não dizem respeito ao comércio; e sim a ajudar as companhias a mudarem suas fábricas para países com mão-de-obra mais barata."

Em tese, uma política trabalhista mais forte e a adoação de normas ambientais aumentariam os custos de fazer negócio no México e poderiam levar as companhias a pensar duas vezes antes de se mudarem. Mas com o salário médio por hora de trabalho na indústria mexicana custando cerca de 13% da média dos EUA, de acordo com o Escritório de Estatísticas do Trabalho, a mão-de-obra no México continua barata.

Fora isso, há o problema da aplicação da lei. Nos acordos ambientais e de trabalho do Nafta não há sanções efetivas contra as companhias que infringem a lei ou governos que não ajudam a cumpri-la.

Alguns defendem que esses acordos, no mínimo, deveriam ser submetidos ao mesmo tipo de arbitragem e sanções que as disputas em relação às barreiras de comércio e investimentos enfrentam hoje. Mas mesmo isso pode não surtir muito efeito. As disputas de comércio do Nafta se arrastam por anos e as regras nem sempre são obedecidas.

Outra opção seria estabelecer multas para as companhias que violassem as regras, ou mesmo boicotes contra a importação de seus produtos. Mas isso pode ser um tiro pela culatra. Sob a vigência do Nafta, algumas indústrias como a automobilística se tornaram altamente integradas. As peças automotivas cruzam a fronteira com freqüência à medida que são montadas em peças maiores que, por sua vez, têm seu destino final nas fábricas de automóveis dos Estados Unidos. Interromper o processo, por razões trabalhistas, poderia resultar em problemas para a indústria americana e seus trabalhadores.

"O Nafta não vai desaparecer", diz Jeff Faux, membro do Instituto de Política Econômica, que se opôs ao acordo quando ele estava sendo negociado no começo dos anos 90. "Não tem como colocar a pasta de dente de volta no tubo."

O governo conservador do México rejeitou a renegociação do Nafta. Mas se o acordo fosse reaberto, o México apresentaria suas próprias demandas, talvez relacionadas a medidas para facilitar a migração ou proteger seus produtores de milho.

"Se houver uma negociação séria, ela não vai ser unilateral", diz Luis de la Calle, ex-negociador do Nafta para o México, que atualmente é consultor político. "Vamos colocar o trabalho e o meio ambiente de volta no Nafta, mas em troca do quê?"

O presidente mexicano Felipe Calderón, durante um encontro com o presidente Bush e o primeiro-ministro do Canadá Stephen Harper em Nova Orleans, defendeu enfaticamente o Nafta em alguns comentários feitos na última segunda-feira (22/04).

Os analistas americanos questionam se um novo presidente estaria disposto a usar seu capital político para reabrir as negociações do Nafta em face de outros assuntos mais prementes como o sistema de saúde ou a guerra no Iraque.

Os candidatos democratas estão repetindo os argumentos contra o Nafta defendidos no começo dos anos 90, quando oponentes como o bilhonário texano Ross Perot defendiam que o mercado comum geraria um "ruído de sucção gigante" por causa dos empregos que se transfeririam para o México.

Mas muita coisa mudou desde então. (Por exemplo, a Perot Systems, que ele ajudou a fundar, montou sua própria subsidiária mexicana.)

Nos primeiros anos do Nafta, os empregos deixaram os EUA e se transferiram para o México, apesar de a economia dos EUA em rápido crescimento não ter sentido a perda. Mas nessa década, a perda de postos de trabalho dos EUA para a China fez com que aquela primeira leva de empregos que se deslocaram para o México parecesse minúscula. E mesmo as indústrias mexicanas estão se transferindo para países com mão-de-obra ainda mais barata, principalmente a China, diz Enrique Dussel Peters, economista-chefe do Centro de Estudos Sino-Mexicanos na Universidade Autônoma do México.

O emprego na indústria caiu 10% de 2000 a 2007, de acordo com estatísticas do governo mexicano, diz ele. O debate nos Estados Unidos faz "com que pareça que o México é o vilão que está roubando os empregos", disse Dussel. "Gostaria que fosse esse o caso."

Ao mesmo tempo, a China e outros países estão destruindo o prometido aumento de exportações dos EUA para o México. Há dez anos, o México comprava quase 80% de seus produtos importados dos Estados Unidos. No ano passado, esse número caiu para pouco menos de 50%. "Há um quarto integrante que não foi convidado para a festa do Nafta", disse Dussel, referindo-se à China.

A ênfase em relação aos direitos trabalhistas e ambientais ignora as mudanças dentro do próprio México. Lá, um forte movimento ambientalista se desenvolveu, deixando as multinacionais em guarda e pressionando o governo para inspecionar a poluição industrial.

De fato, os integrantes da geração baby boom norte-americana, e não as indústrias do país, estão, sem saber, no centro do debate ambiental mais feroz do México. Os ativistas locais têm lutado contra o rápido desenvolvimento do litoral mexicano - na maior parte impulsionado pela construção de condomínios e residências para americanos aposentados.

No que diz respeito ao trabalho, o cenário não mudou tanto. As fábricas mexicanas que produzem para exportação ainda reconhecem quase que somente os coniventes sindicatos patronais. Mas mesmo que uma revisão do Nafta seja capaz de fortalecer os direitos trabalhistas, as corporações multinacionais do México têm agora o mesmo trunfo que tinham nos Estados Unidos: podem se mudar para um país mais barato.

Os analistas de ambos os lados concordam que se algo de concreto vier a resultar das discussões sobre o Nafta, deverá ser uma abordagem mais ampla das relações dos Estados Unidos com o México e o Canadá.

"Eles voltaram tanto a atenção para o Nafta que o próximo presidente terá de fazer alguma coisa", diz Jeffrey J. Schott, membro sênior do Instituto Peterson de Economia Internacional em Washington. Ele argumenta que a energia, a segurança e as mudanças climáticas são as principais preocupações do próximo presidente ao lidar com o México e o Canadá e que os "assuntos secundários como o trabalho e o meio ambiente" serão conseqüência disso.

Robert A. Pastor, diretor do Centro de Estudos Norte-Americanos na Universidade Americana, propõe um fundo para ajudar o México a construir a infra-estrutura necessária para desenvolver seus Estados pobres do centro e do sul. "Se o México crescer rápido, nossas exportações também crescerão", diz ele. De acordo com seu plano, as três nações do Nafta contribuiriam para o fundo.

Faux, do Instituto de Política Econômica, concorda, apesar de defender uma negociação mais explícita em relação à melhoria dos direitos trabalhistas em toda a região.

"A questão real é: sobre que tipo de economia da América do Norte estamos falando?", diz Faux. "Agora que temos esta economia continental, como podemos administrá-la de forma que funcione para todos?" Eloise De Vylder

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