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27/04/2008

Amor moderno - será que foi um encontro ou fiz papel de babá?

The New York Times
Julie Klausner*
Em Nova York
Um gato de uma banda de rock me mandou uma mensagem de e-mail do nada. Tínhamos um amigo em comum, e ele havia me visto cantando "Christmas Wrapping" do Waitresses uma noite em um karaokê no Brooklyn. Ele disse que queria ter dito um "oi", mas não tinha feto a barba naquele dia e não queria causar uma má impressão.

Até então, tudo bem. Ele com certeza era bonito, o que eu descobri graças ao Google: cabelo liso, fino, cor de palha, com maçãs do rosto tão definidas que poderiam cortar fatias de um pedaço de queijo Jarlsberg e tão finas como notas de Post-it.

Ele continuou a se apresentar, tudo em letras minúsculas. Passei os olhos sobre sua exposição desconexa, esperando a recompensa. Será que ele ia me convidar para sair? Não. "estou em casa absolutamente confuso porque vamos viajar dentro de alguns dias para gravar um disco e tenho que/realmente deveria terminar uma lista de músicas. então estou só mandando um oi/ou um oi-novamente ! tudo de bom."

Meu entusiasmo se esvaiu. Um cara interessante de uma banda independente ma mandou um "oi/ou um oi-novamente" meio confuso? E ele vai viajar dentro de alguns dias para gravar um CD de rock? Quantos anos ele tem: 40 para 19? Virei os olhos, mas eles aterrisaram naquelas maçãs do rosto na tela do meu computador. Respondi o e-mail e deixei as coisas mais fáceis para ele. Até escrevi tudo em caixa-baixa, imitando sua casualidade. "oi. quando quiser sair para beber alguma coisa, me avise. vai ser divertido te conhecer."

Um livro sobre relacionamentos, que eu li uma vez, dizia às mulheres para usarem a palavra "diversão" sempre que possível. O autor dizia que ela tinha um poder afrodisíaco subliminar sobre os homens, que querem uma garota tranqüila, apegada apenas aos momentos de diversão - o equivalente humano da Coca Light. Eu não sou assim.

Durante o mês seguinte, ele me mandou algumas mensagens contanto sobre a estadia de sua banda no noroeste: novidades sobre o disco, o clima. Os textos dele eram como cartões postais; ele estava noticiando, e não se comunicando. Mesmo assim, gostava de receber notícias dele e imaginava se ele iria se encontrar comigo em Nova York, ou se iria perder o interesse. Apesar do meu ceticismo, ainda queria sair com um cara bonitão que se deu ao trabalho de entrar em contato comigo depois de me ver cantando em um bar.

Enquanto ele esteve fora, perguntei aos meus amigos músicos o que sabiam sobre ele. Joanna, que é cantora, o resumiu assim: "Ele é um navio dos sonhos do rock independente. Tem uma voz transcendente e escreve letras adoráveis. Tem um rosto bonito, um filho, e viaja bastante. Ele é um astro em seu próprio mundo."

Fiquei surpresa em saber que ele era pai. Eu tinha 28 anos na época e nunca tinha saído com um cara que tivesse filhos. Além disso, ele próprio tinha jeito de criança.

Eu nunca fui do tipo que cai por músicos. Sei que as garotas normalmente devem ficar loucas por líderes de banda que fecham os olhos quando cantam e assentem com a cabeça quando a bateria começa a tocar, mas sou como Shania Twain em relação a esse assunto: isso não me impressiona muito. Prefiro o discernimento e a inteligência em vez da capacidade de cantar afinado a qualquer momento. Sabe, é possível ensinar um macaco a tocar guitarra.

Ainda assim, qualquer um que consiga ganhar o pão fazendo algo criativo impressiona. E ele tinha um rosto bonito. Vou ter de confiar na palavra de Joanna sobre as letras dele, porque tentei ouvir algumas músicas na Internet e fiquei tão entediada pelas melodias que não consegui prestar atenção nas letras. É aquele som "emo" típico: monocórdico, pesado, exaustivo, mas obviamente com muito sentimento.

Ele mandou uma mensagem de texto quando voltou à cidade e me convidou para sair numa segunda-feira. Eu respondi que sim, e ele escreveu, "na verdade, você está disponível hoje à noite?"

"Não", respondi. Senti como se fosse uma mãe tardiamente estabelecendo limites. Uma hora depois ele me respondeu: "então, segunda-feira!"

Ele já estava me irritando, e nós nem havíamos nos conhecido. Logo eu aprenderia uma lição que os homens já sabem há anos: que é impossível se sentir atraído por alguém de quem você não gosta.

Talvez "gostar" seja a palavra errada. Havia algo atrapalhado e cativante em relação a ele, ou talvez fosse apenas o fato de ele ser bonito. Até mesmo as mulheres mais cínicas podem se derreter com um rosto bonito.

Ele disse para encontrá-lo na estação de metrô perto de onde ele mora no Brooklyn. Ele era mais baixinho do que eu esperava, mas de qualquer forma bem bonitinho. Eu estava usando vestido e salto alto, como uma mulher adulta num encontro. Ele usava calça de veludo e tênis Vans sem cadarço. Eu flutuava acima de sua cabeleira loira.

Ele me levou para um passeio no bairro. Fico sempre desconfiada quando um cara leva uma garota para caminhar, porque isso exala a pobreza e a uma incapacidade de planejar. Parecia que ele estava me levando para um passeio em sua propriedade, e a julgar pela forma que as pessoas na rua o cumprimentavam, perguntando sobre seu disco e sobre a turnê, era como se ele fosse o rei da vizinhança.

Nós fomos parar num bar, onde nos sentamos perto um do outro, em banquetas. Uma vez que eu peguei minha cerveja, ele colocou seu joelho entre os meus, e me lembrei bem por quê tinha concordado em sair com ele. Senti meu desprezo pela sua postura de Peter Pan indo embora enquanto os hormônios tomavam conta do meu corpo. Tudo o que eu conseguia pensar era na sensação do veludo do joelho dele entre as minhas coxas nuas.
Ele disse que havia comprado um DVD da "The Electric Company" para mostrar os episódios para o filho. Eu disse a ele que era fã dos programas infantis dos anos 70. "Quer ir lá pra casa assistir 'The Electric Company'?", ele perguntou.

Apertei seu joelho entre minhas pernas. "Claro."

Ele morava num apartamento de um quarto e havia transformado o quarto em uma sala de brinquedos para o seu filhinho. Estava lotado de brinquedos de madeira, e tudo ficava à altura das canelas. Ele reservava o quarto para quando o filho ia visitá-lo, o que aparentemente não acontecia com freqüência.

Retiramos-nos para a sala, onde havia uma cama dobrável embutida sob o armário da parede. O colchão baixou como uma ponte elevadiça, e nós ficamos lá por algumas horas. Foi uma diversão atrapalhada e adorável.

Três dias depois, recebi uma mensagem de texto dele: "espero que você tenha chegado bem ontem à noite!". E, logo depois, "oops, desculpe julie. achei que tivesse mandado essa mensagem na terça-feira."

Graças à tecnologia, há muitas novas maneiras de pisar na bola.

Depois da mensagem que não chegou, não recebi mais nada. Me senti boba ao admitir que parte de mim acreditava que ficarmos juntos iria colocá-lo num papel mais ativo.

Algumas semanas depois, num vôo de Chicago de volta para Nova York, eu não conseguia dormir: havia me colocado no papel principal de uma cena pornográfica que não parava de se repetir na minha cabeça. Assim como a doceria Splenda faz com que você sempre queira comer mais um doce, até um encontro sexual casual pode gerar uma fome de algo que não pode ser satisfeito só com uma noite de bagunça numa cama dobrável. Mandei uma mensagem de texto enquanto esperava minha bagagem no Aeroporto Kennedy.

Ele disse que estava limpando a casa. Me ofereci para ir até lá com o DVD "Free to Be ... You & Me" ["Livres para Ser ... Eu & Você] na esperança de que ele estivesse a fim de assistir alguma programa infantil dos anos 70, o que agora admito foi um eufemismo.

Peguei um táxi e fui até o apartamento dele, onde ficamos na cozinha ouvindo música e comendo ravioli enquanto ele me contava sobre seu filho.

O processo de custódia na semana anterior havia ficado feio. A mãe da criança não queria que ele tivesse nenhum direito de visita, e ele estava de coração partido.

Ele disse que eles saíram por três meses e que ele nunca a havia chamado de namorada. Quando ele terminou o relacionamento, ela anunciou que estava grávida. Ele achava que ela estivesse tomando pílula e pensou que ela tinha ficado grávida para que ele não a deixasse. Mas foi o que ele fez, de qualquer forma, e depois disso, ela teve a criança e se mudou para o exterior.

Fiquei chateada pela mulher que achou que uma criança poderia funcionar como um fermento de maturidade para um homem que saiu com ela três por meses e ainda assim manteve o relacionamento casual. Mas também me senti mal por ele, atropelado por esse desafortunado efeito colateral de uma vida de sonhador. Lembro de Joanna me dizendo como muitas das canções dele eram sobre saudades e perda: pensei sobre o amor de sua vida, esse menino pequeno de cabelos loiros, morando a um mundo de distância.

Ele fez questão de usar camisinha comigo naquela noite, na cama de seu filho.

Depois disso, não tive notícias dele. Eu não quis telefonar, mas percebi que havia deixado meus brincos e o DVD no seu apartamento. Eu precisava pegar as minhas coisas e continuar com a minha vida, mas sabia que era minha vez de ligar. Ele não iria entrar em contato: eu estava esperando que o Papai Noel devolvesse meus brincos.

Mandei uma mensagem de texto curta a caminho do metrô para dizer que queria minhas coisas de volta e que estaria pela vizinhança mais tarde. Enquanto isso, fui encontrar uma amiga para alguns drinques perto de onde ele morava.

Algumas horas depois que tinha mandado a mensagem, recebi o seguinte: "oi julie. desculpe não ter entrado em contato. tudo tem estado meio louco. outro motivo é que eu estou me encontrando com outra pessoa e quero ver onde isso vai dar. de qualquer forma, estou com suas coisas, só me diga onde eu posso deixá-las, um abraço"

Senti minhas bochechas queimando. Como isso aconteceu? Mesmo apesar de eu ter enxergado claramente através desse palhaço, ainda assim fui machucada. Eu gostava dele, apesar de tudo. Não era justo.

Logo ele entrou no bar com uma sacola de compras e sentou-se entre minha amiga e eu. O constrangimento era palpável, denso, como fondue.

"Oi", disse ele, entregando-me a sacola.

"Obrigada", respondi, olhando para meu drinque.

Houve então uma longa pausa.

"Então", disse ele. "O que está fazendo?"

Respirei fundo e olhei-o nos olhos. "Tomando um drinque", disse, respondendo à pergunta mais estúpida do mundo.

Ele levou um momento para perceber a situação, então se levantou em silêncio e foi embora pela noite. Eu peguei meu DVD, coloquei meus brincos, amassei a sacola de compras e terminei minha Coca Diet.

*Julie Klausner é escritora e artista e vive na cidade de Nova York. Eloise De Vylder

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