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27/04/2008

Fazendeiros do cinturão dos grãos argentino se revoltam contra impostos

The New York Times
Alexei Barrionuevo
Em Wenceslao Escalante, Argentina
Quando o governo decidiu em março aumentar os impostos sobre o lucro dos fazendeiros, desencadeou uma revolta rural na Argentina. Durante três semanas, produtores rurais irados bloquearam estradas por todo o país, paralizando as vendas de grãos e carne e causando falta de alimentos.

Desde então, o governo tem tentado pacificar os produtores resistentes na mesa de negociações. Mas fazendeiros como Marcelo e Pablo Marchetti, irmãos que trabalham no cinturão dos grãos argentino a oeste da capital, dizem que as conversas não estão levando a lugar nenhum e cada vez mais são uma prova de que a presidente Cristina Fernandez de Kirchner, no cargo há apenas alguns meses, não os compreende.

Eles estão se preparando para retomar a greve de exportação de grãos uma vez que o prazo final para as conversações termina na sexta-feira. Alguns produtores já fizeram alguns bloqueios de estrada espontaneamente nos últimos dias.

"Eles não querem nos ouvir", diz Pablo Marchetti, 40, cujo bisavô italiano fundou a pacata cidade de Wenceslao Escalante há um século. "A curto prazo, simplesmente não os vejo encontrarem uma solução lógica para todo esse problema."

Os produtores dizem que estão preocupados não só com os lucros, apesar do aumento nas taxas ter diminuído seus ganhos. Eles dizem também que as políticas de Kirchner ameaçam reverter um dos maiores crescimentos da história da agricultura argentina e eliminar uma revolução tecnológica e administrativa que fez com que transformou o país em um produtor líder de alimentos no mundo que sofre pela fome e o aumento dos preços dos alimentos.

"Temos uma enorme oportunidade histórica de crescer como país, mas o governo quer punir exatamente o setor que deveria continuar a ser um motor para o crescimento", fala Marcelo Marchetti, 39. "O mundo abriu suas portas para nós, e aqui estamos nós, brigando entre si."

As tensões com os produtores explodiram com uma ferocidade rara por aqui, dizem os fazendeiros, em parte porque as novas taxas tocaram na ferida de uma nação onde os governos anteriores usaram o setor agrícola para redistribuir a riqueza aos pobres.

As políticas de Kirchner fizeram lembrar o General Juan Domingo Peron, que no começo dos anos 50 usou os lucros das exportações agrícolas para industrializar o país e levantar os pobres. Tentando encurralar a inflação que os economistas independentes avaliam em quase 20%, Kirchner também se voltou para os lucros dos fazendeiros e controles alfandegários na tentativa de aumentar os subsídios para os mais pobres e para o fornecimento de alimentos no próprio país.

O descontentamento dos produtores vem crescendo desde pelo menos 2006, quando Nestor Kirchner, marido e predecessor da presidente, limitou as exportações de carne para assegurar uma oferta barata no próprio país. A Argentina, que já havia sido um grande exportador de carnes, viu o Brasil passar na sua frente, construindo a maior indústria de exportação de carne do mundo. No ano passado, até mesmo o pequeno e vizinho Uruguai exportou mais carne per capita do que a Argentina.

A apreensão dos produtores chegou a ponto de ebulição no início de março quando o governo aumentou as tarifas de exportação pela segunda vez desde outubro. Sob um novo sistema de taxa flutuante baseado no preço dos commodities, as tarifas chegaram a 44% dos lucros para a exportação de soja, por exemplo. A nova política também estabeleceu um preço máximo para os produtos.

Kirchner criticou os produtores argentinos por estarem muito focados na produção para o lucro, como a de soja, em detrimento dos produtos necessários para o consumo do mercado interno, como laticínios e carne. As exportações de soja cresceram 263% desde 1997, para 11,5 milhões de toneladas no ano passado. Ela descreve os fazendeiros como oligarcas ambiciosos em veículos 4X4, e como conspiradores não patriotas que tentam destituir o governo.

Alguns dias depois que as últimas medidas de exportação entraram em vigor, os fazendeiros se mobilizaram. Usando a Internet, telefones celulares e satélites, eles formaram uma rede de comunicações ligando fazendas de todos os tamanhos, numa resistência conjunta contra o governo.

Desde que ambos os lados concordaram em sentar à mesa de negociações, o governo recusou-se a voltar atrás nas tarifas de exportação e endureceu sua posição contra os fazendeiros. Depois de prometer, na metade de abril, retirar a proibição da exportação de carne, o governo decidiu mantê-la na semana passada.

Ele também cancelou uma reunião para discutir o setor de trigo, tornando as chances de retirar a proibição dessas exportações cada vez menos prováveis. Além disso, ameaçou impor sanções sobre os produtores se eles falharem em atender à demanda doméstica.

A rigidez da posição do governo está enraizada em sua necessidade de "reconquistar sua postura política e evitar parecer fraco", diz Daniel Kerner, analista do Grupo Eurásia, uma firma de consultoria. Resolver o conflito com os fazendeiros é menos importante para Kirchner do que "deixar claro para o resto do Partido Peronista que eles ainda continuam fortes o bastante e dispostos a jogar duro", afirma ele.

Mas as pesquisas de opinião sugerem que a atitude de não se comprometer com a revolta dos produtores por parte de Kirchner prejudicou sua popularidade. Ela está fazendo a aposta política de que os produtores não serão capazes de organizar greves com a intensidade e a unidade que já fizeram antes, dizem os analistas.

As pesquisas mostraram que os eleitores, especialmente nas cidades, não irão tolerar falta de alimentos ou aumentos significativos nos seus preços.

Mas no que o governo de Kirchner vê a sobrevivência política, os irmãos Marchetti vêem a perda de uma oportunidade em potencial para o país prosperar a partir de um aumento histórico nos preços dos commodities.

A agricultura tem um lugar notório na história argentina. Um aumento nas exportações de carne e grãos no final dos anos 80 ajudou os líderes do país a construírem cidades ao estilo europeu como Buenos Aires e por um breve tempo catapultaram a Argentina para a lista dos dez países mais ricos do mundo.

Há quinze anos, os Marchetti começaram sua produção rural em Córdoba, a segunda mais importante província agrícola do país. A Argentina tinha acabado de abrir-se para investimentos estrangeiros, sua moeda estava atrelada ao dólar, e o país rapidamente se colocou entre os produtores agrícolas mais competitivos do mundo.

Hoje, os preços da soja, milho e trigo estão próximos de, ou já atingiram, altas recordes, "esse era o momento da Argentina alimentar o mundo", disse Dan Basse, presidente da AgResource Co., uma consultoria agrícola em Chicago.

Mas o conflito em relação às taxas de exportação gerou incertezas sobre a Argentina, disse Basse, e as companhias internacionais de grãos já assinalaram sua preferência em investir mais dinheiro no vizinho Brasil, outro rolo compressor da agricultura onde as políticas agrícolas têm sido claramente mais encorajadoras. Ambos são considerados fundamentais para as iniciativas globais de preencher a demanda crescente de grãos de soja na China e na Índia.

Nas províncias que se alastram pela zona rural argentina, a paralisação também deixou sementes de dúvida e enfraqueceu os peronistas. Os governadores se encontraram divididos entre apoiar Kirchner ou seus eleitores fazendeiros.

Uma lei de emergência aprovada em 2002, no meio de uma crise econômica, permitiu ao governo Kirchner criar taxas de exportação e manter a arrecadação dos impostos longe das mãos dos governadores e prefeitos. Os Kirchners usaram a distribuição dessa arrecadação para manter o controle político sobre as províncias, o que foi fundamental para a eleição de Cristina.

Mas recentemente alguns governadores estão lutando contra isso, ninguém mais do que Juan Schiaretti, o governador peronista de Córdoba , que ganhou a eleição por causa do apoio dos fazendeiros. Durante uma breve entrevista, Schiaretti confirmou que o conflito rural criou tensões entre ele e o governo nacional.

Schiaretti pressionou pelo aumento do que os legisladores chamam de fundos de "co-participação" para assegurar que as províncias tenham uma parte maior da arrecadação sobre os produtos agrícolas. Carlos Gutierrez, ministro da agricultura de Córdoba, disse que apenas 10% das tarifas sobre a soja retornam à província para infra-estrutura e outros projetos; o restante fica em Buenos Aires com o governo nacional.

Em Wenceslao Escalante, os irmãos Marchetti, que estudaram contabilidade na faculdade, disseram que as políticas do governo estavam matando seus incentivos para produzir mais. Uma década atrás, eles formaram a companhia Cigra, investindo na última tecnologia de sementes e equipamentos agrícolas, e mais tarde compraram equipamentos de colheira de US$ 400 mil com sistema GPS.

Há sete anos os irmãos expandiram seus investimentos para o norte, em Chaco e Santiago del Estero, províncias onde acreditava-se que a terra era muito seca para sustentar culturas de milho e soja. Hoje, com sementes mais avançadas e melhor sistema de rotação de culturas, o local é considerado a fronteira de avanço da agricultura argentina. Mas a produção lá está ameaçada pela redução nos lucros.

Conforme o governo passou a retirar mais dos fazendeiros, os preços internacionais para suprimentos agrícolas, incluindo sementes e fertilizantes, cresceram mais rápido do que os preços dos commodities, disse Marcelo Marchetti. O preço do fósforo, por exemplo, quase triplicou desde o ano passado, disse.

Repentinamente, o futuro parece nublado. Os irmãos decidiram não fazer nenhum investimento durante o próximo ano.

"Tudo está em suspenso", disse Marcelo Marchetti. Eloise De Vylder

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