UOL Notícias Internacional
 

28/04/2008

Jimmy Carter: diplomacia pária

The New York Times
Jimmy Carter*
Em Atlanta
Uma política contraproducente de Washington em anos recentes tem sido a de boicotar e punir facções locais ou governos que se recusam a aceitar diretivas dos Estados Unidos. Essa política torna difícil a possibilidade de que tais líderes possam moderar suas políticas.

Dois notáveis exemplos estão no Nepal e no Oriente Médio. Há 12 anos, as guerrilhas maoístas pegaram em armas num esforço para derrubar a monarquia e mudar a vida política e social da nação. Embora os Estados Unidos tenham declarado que os revolucionários eram terroristas, o Centro Carter concordou em ajudar na mediação entre as três principais facções: a família real, os partidos políticos há muito estabelecidos e os maoístas.

Em 2006, seis meses depois que a monarquia opressora foi privada de seus poderes, um cessar-fogo foi firmado. Os combatentes maoístas depuseram suas armas e os soldados nepaleses concordaram em ficar em seus postos. Nosso centro continuou seu envolvimento e os países - embora não os Estados Unidos - e organizações internacionais começaram a trabalhar com todas as partes para encontrar a conciliação na disputa e organizar eleições.

Os maoístas estão tendo sucesso na busca de suas principais metas: abolir a monarquia, estabelecer uma república democrática e terminar com a discriminação contra intocáveis e outros historicamente privados de seus direitos de cidadania. Depois de uma surpreendente vitória nas eleições do dia 10 de abril, os maoístas terão um papel maior na criação de uma constituição e ao governar por cerca de dois anos. Para os Estados Unidos, eles ainda são terroristas.

De volta para casa depois de acompanhar a eleição nepalesa, eu, minha esposa e meu filho, fomos para Israel. Meu objetivo era conhecer o máximo possível para ajudar na vacilante iniciativa de paz endossada pelo presidente Bush e pela secretária de Estado Condoleezza Rice. Embora eu soubesse que a política oficial dos EUA fosse de boicotar o governo da Síria e líderes do Hamas, não recebi qualquer negativa ou mensagens de advertência a respeito da viagem, exceto que poderia ser perigoso visitar Gaza.

O Centro Carter havia monitorado três eleições palestinas, incluindo uma para o Parlamento, em janeiro de 2006. O Hamas havia vencido em vários pleitos municipais, ganhando reputação pela administração eficiente e honesta e se saiu surpreendentemente bem na corrida legislativa, superando o partido no poder, o Fatah. Vitorioso, o Hamas propôs um governo de unidade com Mahmoud Abbas do Fatah como presidente e ofereceu importantes ministérios ao Fatah, incluindo o das Relações Exteriores e o das Finanças.

O Hamas foi declarado uma organização terrorista pelos Estados Unidos e por Israel, e o governo palestino eleito foi forçado a se dissolver. Mais tarde, o Hamas ganhou o controle de Gaza e o Fatah está "governando" a Cisjordânia, dominada por Israel. Pesquisas de opinião pública mostram o Hamas perseverantemente ganhando popularidade. Uma vez que não poderá haver paz com os palestinos divididos, nós, do Centro Carter, acreditamos que é importante explorar condições permitindo que o Hamas seja trazido pacificamente de volta às discussões. (Uma recente pesquisa entre israelenses, que estão familiarizados com essa histórias, mostrou que 64% são a favor de conversações diretas entre Israel e o Hamas.)

Da mesma forma, Israel não poderá ganhar a paz com a Síria a menos que a disputa pelas colinas de Golã seja resolvida. Aqui, novamente, a política dos EUA é condenar ao ostracismo o governo sírio e impedir conversações bilaterais de paz, ao contrário do desejo de altas autoridades de Israel.

Nós nos reunimos com líderes do Hamas de Gaza, Cisjordânia e Síria, e depois de dois dias de intensas discussões, eles nos deram essas respostas oficiais às nossa sugestões que tinham como meta realçar as perspectivas de paz:

- O Hamas aceitará qualquer acordo negociado por Abbas e pelo primeiro-ministro Ehud Olmert de Israel, desde que seja aprovado ou em um referendo palestino ou por um governo eleito. O líder do Hamas, Khaled Meshal, confirmou novamente sua posição, embora alguns subordinados tenham negado, para a imprensa.

- Quando chegar a hora, o Hamas vai aceitar a possibilidade de formação de um governo profissional apartidário de tecnocratas, que governará até que possam ser realizadas as próximas eleições.

- O Hamas também vai dispersar sua milícia em Gaza, caso possa ser formada uma força de segurança profissional apartidária.

- O Hamas permitirá que o soldado israelense capturado por militantes palestinos em 2006, o Cpl. Gilad Shalit, envie uma carta aos pais. Se Israel concordar com uma lista de prisioneiros a serem trocados, e o primeiro grupo for libertado, Shalit será enviado para o Egito, aguardando as libertações finais.

- O Hamas aceitará um cessar-fogo mútuo em Gaza, com a expectativa (não exigência) de que isso venha a incluir mais tarde a Cisjordânia.

- O Hamas aceitará o controle internacional sobre a faixa de Rafah entre Gaza e o Egito, desde que os egípcios e não os israelenses controlem o fechamento da travessia.

Além disso, o presidente da Síria, Bashir al-Assad, manifestou sua expectativa em iniciar negociações com Israel para encerrar o impasse sobre as colinas de Golã. Ele pede apenas que os Estados Unidos se envolvam e que as negociações de paz sejam públicas.

Por meio de mais consultas com esses líderes proscritos ainda pode ser possível ressuscitar e acelerar as paralisadas negociações de paz entre Israel e seus vizinhos. No Oriente Médio, como no Nepal, o caminho para a paz está na negociação, não no isolamento.

*Jimmy Carter, o 39º presidente dos EUA, é o fundador do Centro Carter e ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 2002 Claudia Dall'Antonia

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