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29/04/2008

Alta dos preços não faz a produção do petróleo crescer

The New York Times
Jad Mouawad
Com os preços do petróleo atingindo altas recordes nos últimos anos, a economia básica sugere que o consumo cairia e a oferta aumentaria graças à exploração de mais petróleo pelos produtores.

Mas à medida que os preços flertam com US$ 120 o barril, muitos especialistas em energia estão preocupados com o fato de aparentemente nenhum dos dois estar acontecendo. Os altos preços contribuíram pouco para a redução da demanda global ou para atrair nova produção, e o desencontro resultante aumentou ainda mais os preços do petróleo.

Isto se traduz em mais dor no bolso nas bombas, com a gasolina atingindo o preço recorde de US$ 3,60 o galão (3,785 litros) em todos os Estados Unidos na segunda-feira. Especialistas prevêem os preços acima de US$ 4 o galão em meados do ano, e um analista previu recentemente que a gasolina poderia atingir US$ 7 nos próximos quatro anos.

Damon Winter/The New York Times 
Duto para distribuição da produção do campo gigante da Baía de Prudhoe no Alasca

Um motivo central para a oferta de petróleo não estar aumentando muito é que os principais produtores fora do cartel da Opep, como Rússia, México e Noruega, estão exibindo sinais problemáticos de lentidão. Diferente da Opep, cuja meta explícita é regular a oferta de petróleo para manter os preços em alta, estes países negociam livremente no mercado de petróleo, com todo o incentivo para manterem a produção máxima em um momento de preço alto.

Mas por vários motivos, incluindo custos cada vez mais altos para prospecção e extração e um aumento das políticas nacionalistas que restringem o investimento estrangeiro, estes países estão fracassando em aumentar sua produção. Eles parecem emperrados em cerca de 50 milhões de barris de petróleo por dia, ou 60% da oferta mundial de petróleo, com poucas perspectivas de crescimento.

"Segundo a teoria econômica normal, e a história de petróleo, a alta dos preços tem dois grandes efeitos", disse Fatih Birol, o economista-chefe da Agência Internacional de Energia, um grupo em Paris que aconselha os países industrializados. "Ela reduz a demanda e induz a oferta de petróleo. Não desta vez."

Com a limitação da oferta global, a geopolítica continua exercendo um grande papel na elevação dos preços do petróleo. Na segunda-feira, os preços futuros do petróleo fecharam a US$ 118,75 o barril, uma alta de 23 centavos, na Bolsa Mercantil de Nova York, após greves de operários de petróleo na Escócia e na Nigéria terem interrompido quase 1,7% da produção mundial diária.

Países de fora da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) são a principal fonte de crescimento da produção nas últimas três décadas, à medida que novos campos foram descobertos no Alasca, Mar do Norte e na região do Cáspio.

Mas analistas da Barclays Capital disseram na semana passada que a oferta de fora da Opep estava "aparentemente estagnada". A Goldman Sachs levantou preocupações semelhantes em março, dizendo que o crescimento da oferta de fora da Opep "não mais pode ser considerada certa".

Ao mesmo tempo, o consumo de petróleo continua expandindo. A previsão é de que o consumo global cresça em 1,2 milhão de barris por dia neste ano, para 87,2 milhões de barris por dia, com grande parte do aumento da demanda vindo da China, Índia e do Oriente Médio, segundo a Agência Internacional de Energia.

Nos Estados Unidos e por grande parte do mundo desenvolvido, os preços mais altos dos combustíveis levaram motoristas a reduzirem o consumo e a demanda por gasolina deverá cair neste ano. Mas esta queda deverá ser mais que compensada pelo aumento na demanda de energia nos países em desenvolvimento. Nas próximas duas décadas, a projeção é de que a demanda saltará em 35% e os países em desenvolvimento consumirão mais petróleo do que os países industrializados.

Os preços mais altos do petróleo significam lucros recordes para as companhias de petróleo que, até certo ponto, mascararam os problemas de oferta. A Exxon Mobil e a Chevron deverão apresentar desempenhos espetaculares quando informarem os ganhos trimestrais nesta semana, apesar de enfrentarem dificuldades para aumentar a produção.

"O que é perturbador aqui é que as coisas parecem estar piorando, não melhorando", disse David Greely, um analista da Goldman Sachs. "Estes preços altos não parecem estar atraindo nova oferta significativa." O panorama para a oferta de petróleo "sinaliza um período de escassez sem precedente", disse Jeff Rubin, um analista da CIBC World Markets, na semana passada. Os preços do petróleo poderão ultrapassar US$ 200 o barril em 2012, ele disse, um nível que provavelmente significaria uma gasolina a US$ 7 o galão nos Estados Unidos.

Algumas regiões estão simplesmente ficando com as reservas esgotadas. A produção da Noruega caiu em 25% desde seu pico em 2001, e no Reino Unido a produção caiu 43% em oito anos. A produção do campo gigante da Baía de Prudhoe no Alasca caiu 65% desde seu pico, há duas décadas.

Em muitos outros lugares, os problemas não estão localizados abaixo do solo, como os executivos do setor gostam de colocar, mas acima. Os impostos mais altos sobre o petróleo e acordos de licenciamento mais onerosos, mão-de-obra escassa e inchaço dos custos, assim como disputas políticas e violência, estão dificultando o aumento da produção.

"É uma crise", disse J. Robinson West, presidente da PFC Energy, uma firma de consultoria de energia em Washington. "O mundo não está ficando sem petróleo, mas sim ficando sem capacidade de produção."

O México, o segundo maior exportador para os Estados Unidos, parece cada vez mais impotente em encontrar novas reservas para compensar o colapso de seu maior campo de petróleo, Cantarell. Uma combinação de queda na produção e aumento do consumo doméstico poderiam eliminar as exportações do México em cinco anos.

Investimento estrangeiro poderia ajudar o México a extrair petróleo de águas profundas, mas esta é uma proposta controversa em um país onde o petróleo há muito é visto como parte do patrimônio nacional.

Outro país, a Rússia, também é foco das preocupações dos analistas. O país não está exatamente ficando sem lugares onde procurar petróleo -um pedaço imenso do leste da Sibéria continua inexplorado- e o país é aquele que mais contribuiu para o crescimento da oferta de energia na última década.

Mas as autoridades de energia russas alertaram recentemente que os dias de crescimento atordoante que se seguiram ao colapso da União Soviética acabaram, já que o país busca estabilizar sua produção. A Rússia atualmente produz cerca de 10 milhões de barris por dia de petróleo, em comparação a 6 milhões de barris em 1996.

O governo russo tem pressionado as empresas ocidentais para obter mais controle sobre seus recursos de energia. Este aumento do nacionalismo na energia poderia congelar os novos investimentos no país e desacelerar qualquer crescimento significativo na oferta por anos.

Enquanto países como a Rússia desaceleram, analistas dizem que a Opep terá que compensar a produção. O cartel do petróleo é responsável por 40% das exportações mundiais de petróleo e é dono de mais de 75% das reservas globais. Mas há sérias preocupações de que a Opep terá dificuldade em aumentar a produção.

A Arábia Saudita, a maior exportadora de petróleo do mundo, está concluindo um plano de US$ 50 bilhões para aumentar sua capacidade para 12,5 milhões de barris por dia, mas sinalizou recentemente que não iria além disso. Isto significa que a Arábia Saudita poderia ficar aquém dos 15 milhões de barris por dia que a maioria dos especialistas esperava que produziria a longo prazo.

Os 13 membros da Opep planejam gastar US$ 150 bilhões para expandir sua capacidade em 5 milhões de barris por dia até 2012. Mas a Opep precisaria produzir 60 milhões de barris por dia em 2030, em comparação aos atuais cerca de 36 milhões de barris, para atender ao crescimento projetado na demanda. Analistas disseram que sem o Irã e o Iraque -onde 30 anos de guerras e sanções debilitaram a produção de petróleo- chegar a esse nível será impossível.

Mas nem todos estão pessimistas com a oferta de energia. Um estudo do Conselho Nacional de Petróleo, um grupo setorial que fornece conselho ao secretário de energia, concluiu que o mundo ainda conta com recursos abundantes de petróleo que podem ser explorados.

De fato, os altos preços provocaram uma corrida global ao petróleo. O Brasil, por exemplo, encontrou grandes campos marítimos que poderiam transformar o país em um dos 10 maiores produtores mundiais de petróleo. Mas o desenvolvimento dos novos campos poderá levar muitos anos.

Para compensar a oferta insuficiente, o mundo está cada vez mais recorrendo a combustíveis de fontes não convencionais, como biocombustíveis e petróleo pesado. As areias betuminosas canadenses, por exemplo, têm atraído grandes investimentos.

Mas a Agência Internacional de Energia estima que os investimentos atuais serão insuficientes para compensar o declínio na produção de petróleo. A agência de energia disse que seriam necessários US$ 5,4 trilhões até 2030 para aumentar a produção global. Caso contrário, ela alertou que uma crise antes de 2015, envolvendo "uma alta abrupta nos preços", não pode ser descartada. George El Khouri Andolfato

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