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29/04/2008

Krugman: McCain faz promessas que não pode cumprir

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
Como herdeiro político apontado por um presidente profundamente impopular - de acordo com o Gallup, o presidente Bush tem o maior índice de desaprovação já registrado em 70 anos de pesquisas - John McCain deveria ter poucas esperanças de vencer as eleições em novembro. No entanto, o fato é que as pesquisas atuais mostram o candidato praticamente empatado com qualquer um dos dois democratas.

Em parte isso pode refletir os problemas dos democratas. Mas isso pode ser, sobretudo, um reflexo da percepção, avidamente disseminada pelos muitos admiradores de McCain na mídia noticiosa, de que ele é muito diferente de Bush - um sujeito responsável, que fala as coisas diretamente.

Mas será essa concepção de todo verdadeira? Durante a campanha de 2000 as pessoas diziam quase o mesmo sobre Bush; mas aqueles de nós que examinaram a fundo suas propostas políticas, especialmente as que diziam respeito aos impostos, tiveram uma amostra do que viria depois.

E uma olhada sobre o que McCain diz sobre impostos mostra a mesma combinação de irresponsabilidade e demagogia que, já em 2000, forneciam uma previsão sobre o caráter do governo Bush.

O programa tributário de McCain contém três elementos principais.

Primeiro, ele propõe tornar permanentes a maior parte dos cortes de taxas de Bush, que estão atualmente programados para expirar no final de 2010. (Ele propõe reinstaurar o imposto sobre a herança, apesar de ser sob uma taxa bem baixa.)

Em segundo lugar, ele quer eliminar a taxa mínima alternativa, que foi originalmente criada para prevenir os ricos de explorarem brechas do sistema tributário, mas que na verdade começou a atingir a classe média alta.

Em terceiro lugar, ele quer reduzir drasticamente as taxas sobre os lucros corporativos.

De acordo com o apartidário Centro de Políticas Tributárias, o efeito geral do programa tributário de McCain seria a redução da arrecadação federal em mais de US$ 5 trilhões em 10 anos. Isso é uma perda de arrecadação muito grande - suficiente para acarretar grandes problemas para o caixa do governo.

Mas antes de falar sobre isso, vamos dar uma olhada no que eu considero verdadeiramente revelador: a resposta da campanha de McCain à abordagem do Centro de Políticas Tributárias. A resposta, escrita por Douglas Holtz-Eakin, ex-chefe do Departamento do Orçamento do Congresso, critica o centro por adotar "convenções irrealistas em relação ao orçamento congressista". O que é isso?

Bem, o Congresso "convenciona" a legislação tributária ao comparar as estimativas da arrecadação que seria coletada se as novas leis fossem aprovadas, com as estimativas de arrecadação da lei atual. Nesse caso isso significa comparar o programa de McCain com o que iria acontecer se os cortes de impostos de Bush expirassem dentro do prazo estipulado.

Holtz-Eakin quer que a política de McCain seja comparada, em vez disso, com a "política atual" - ou seja, mantendo as taxas nos níveis de hoje.

Mas eis o problema: a razão pela qual os cortes nos impostos de Bush vão expirar é que o governo Bush entrou numa jogada de decepção. Ele colocou uma data de expiração para os cortes nas taxas, que nunca teve a intenção de honrar, como forma de esconder o custo verdadeiro desses impostos.

A campanha de McCain quer que aceitemos o resultado dessa decepção como um fato da vida. O que Holtz-Eakin está dizendo, na verdade, é: "não iremos cometer nenhuma irresponsabilidade diferente - estamos apenas perpetuando a irresponsabilidade do governo Bush. Isso não conta."

Esse é o tipo de demagogia fiscal que têm sido a marca do governo Bush. Em todo caso, não oferece nenhuma resposta ao ponto principal levantado pela análise do Centro de Políticas Tributárias, que não tem nada a ver com a comparação com as taxas anteriores: o programa tributário de McCain deixaria o governo federal com uma arrecadação muito pequena para cobrir suas despesas, levando a déficits gigantescos a menos que houvesse um corte drástico dos gastos.

E McCain até agora não disse nada realista em relação a como resolveria a gigantesca falha no orçamento que o corte de impostos produziria - uma falha tão grande que para eliminá-la seria necessário cortar os benefícios de seguridade social em três quartos, eliminando o Medicare, ou algo tão drástico quanto. Falar sobre combate ao desperdício e reforma dos gastos, como faz Holtz-Eakin, não é o suficiente para realizar esse corte.

Agora, McCain não é o único a fazer promessas que não pode cumprir - o mesmo pode ser dito, em certa medida, dos candidatos democratas. Mas o projeto de McCain é de longe muito mais irresponsável do que qualquer coisa que os democratas estejam propondo, num nível tão diferente que sua proposta se torna única. O orçamento de McCain simplesmente não faz sentido.

Então quais são as intenções reais de McCain?

Para dizer a verdade, o programa tributário de McCain não parece incorporar nenhuma política coerente. Em vez disso, parece um exercício enorme de sedução - uma tentativa de acalmar a direita do Partido Republicano, não importando que não faça o menor sentido.

A impressão de sedução que o discurso tributário de McCain deixa é reforçada por sua proposta de férias dos impostos sobre os combustíveis no verão - uma medida que iria, na verdade, ajudar pouco os consumidores, apesar de aumentar explosivamente os lucros da indústria do petróleo.

Cada vez mais, McCain soa como um homem que diria qualquer coisa para se tornar presidente. Eloise De Vylder

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