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29/04/2008

O que algumas fotos revelam do poder nuclear do Irã?

The New York Times
William J. Broad
Arame-farpado e armas antiaéreas circundam um labirinto de prédios no deserto iraniano e que está no coração do empate de cinco anos do Ocidente com Teerã em relação ao programa de urânio enriquecido do país.

É um lugar cheio de segredos do qual o Irã adora se vangloriar, encobrindo a situação real dos esforços e fazendo com que os especialistas ocidentais cada vez mais ansiosos por detalhes concretos e pistas. Teerã insiste que seus planos são pacíficos. Mas Washington e seus aliados consideram uma visível ameaça.

O local esparramado, conhecido como Natanz, ganhou as manchetes recentemente porque o Irã está testando uma nova geração de centrífugas que giram mais rápido e, em tese, podem transformar o urânio mais rapidamente em combustível para reatores ou armas nucleares. As novas máquinas também foram feitas para serem mais confiáveis do que suas predecessoras, que freqüentemente falhavam de forma catastrófica.

Escritório de Imprensa da Presidência do Irã 
O presidente iraniano Ahmadinejad (centro, à esq.) visita a usina nuclear de Natanz

Em 8 de abril, o presidente Mahmoud Ahmadinejad visitou o lugar no deserto, e o Irã divulgou 48 fotos da visita, possibilitando um primeiro olhar sobre o que há dentro do quebra-cabeça atômico.

"Elas são impressionantes", disse Jeffrey G. Lewis, especialista em controle de armas da Fundação New America, um grupo de pesquisa sem fins lucrativos em Washington, sobre as fotografias. "Estamos aprendendo muitas coisas."

Mais importante, as fotos permitiram o primeiro vislumbre público da nova centrífuga, conhecida como IR-2, abreviação de Irã segunda geração. Não havia nenhuma explicação juntamente com as fotos, portanto os especialistas nucleares ao redor do mundo estão analisando as evidências visuais para avaliar a nova máquina, sua provável eficiência e seu preparo para o trabalho pesado do enriquecimento do urânio. Eles vêem as fotos como uma bênção para os serviços de inteligência.

"Alguns morreriam por essa informação", disse Andreas Persbo, analista do Centro de Verificação, Pesquisa, Treinamento e Informação em Londres, um grupo privado que promove o controle de armas, em um comentário no blog Arms Control Wonk ("Bitolados" no Controle de Armas, numa tradução livre).

Uma surpresa durante a visita foi a presença do ministro da defesa iraniano, Mostafa Mohammad Najjar. Sua presença foi vista como estranha por alguns especialistas dada a alegação do Irã de que os trabalhos no deserto têm uma natureza totalmente pacífica. Em uma das fotos, Najjar, com um sorriso largo, parece liderar a comitiva presidencial.

Os especialistas nucleares dizem que a visita abriu uma janela em um mundo secreto antes conhecido apenas pelos iranianos e por poucos inspetores internacionais.

"Não vejo nada que sugira que isso seja propaganda", disse Houston G. Wood III, um especialista em centrífugas na Universidade de Virgínia, em uma entrevista. "Parece que eles estão trabalhando em uma máquina avançada."

Esses julgamentos são baseados não somente nas pistas oferecidas pelas fotos, mas também no histórico bem sucedido, apesar de limitado, de enriquecimento de urânio do Irã, assim como em relatórios de inspetores internacionais, que acompanharam o esforço iraniano em desenvolver as novas centrífugas.

Os engenheiros usam as centrífugas para muitas aplicações além de enriquecer o urânio. Em geral, as máquinas giram rápido para separar todos os tipos de objetos de diferentes massas e densidades - por exemplo, o leite do creme e as impurezas do vinho. Nesse aspecto, as centrífugas exploram simples leis da física, fazendo isso de maneiras que imitam a experiência comum.

Um carro que vira uma esquina joga os seus passageiros para um dos lados. Assim, também, uma centrífuga lança o seu conteúdo para fora do que seria um movimento retilíneo para frente. Mas ela faz isso sem parar.

Por que os conteúdos se separam? Conforme Newton explicou em sua segunda lei do movimento, quando mais massivo o objeto, maior a força. No carro fazendo a curva, um adulto sente a força mais do que uma criança. Na centrífuga, os objetos pesados sofrem essa força mais do que os mais leves e, se possível, movem-se mais vigorosamente em direção às paredes externas.

Centrífugas nucleares aplicam o mesmo princípio ao urânio retirado dos recônditos da terra pela mineração, fazendo-o girar e separar-se em diferentes partes componentes.

O Irã está separando o U-235 do U-238. Raro na natureza, o U-235 facilmente se divide em dois produzindo explosões de energia atômica. Ele também tem três nêutrons a menos que seu primo, tornando-o um pouco mais leve e assim um candidato para a separação pela centrífuga.

Primeiro, os engenheiros transformam a mistura natural de urânio (0,7% e 99,3%, respectivamente) em um gás. Então, a centrífuga joga os átomos mais pesados de U-238 em direção às suas paredes, deixando o raro U-235 se acumular próximo ao centro. O resultado é recolhido continuamente. Fileiras de centrífugas repetem o processo para lentamente aumentar a concentração do raro isótopo.

Parece fácil. Mas as centrífugas giram próximas da velocidade do som, precisam trabalhar dia e noite por meses ou anos a fio e podem facilmente perder seu equilíbrio, despedaçando-se.

"Nossas máquinas quebravam com freqüência" no início do programa, lembra-se Gholamreza Aghazadeh, chefe da Organização Iraniana de Energia Atômica, durante uma entrevista à TV estatal em 2006. Ele disse que um estudo identificou que algumas falhas na montagem das centrífugas ocorriam porque os técnicos, de mãos nuas, deixavam para trás colônias de micróbios.

"Essa pequena quantidade de germes", disse Aghazadeh, era suficiente para tirar as máquinas girantes do equilíbrio, deixando-as em ruínas. "Quando dizemos que uma máquina foi destruída", acrescentou, "isso significa que ela virou pó".

Em grande segredo, o Irã começou o seu programa de centrífugas em 1985, de acordo com os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica. Ele copiou um desenho paquistanês, conhecido como P-1.

Hoje a versão iraniana tem mais de 1,80m de altura, com um rotor oco de alumínio que faz girar o gás de urânio a velocidades estonteantes. O Irã instalou 3 mil dessas máquinas temperamentais em Natanz, e recentemente começou a expandir o conjunto para 9 mil.

Nos últimos anos, o Irã tentou avançar na sofisticação com uma nova centrífuga projetada baseada no modelo de segunda geração do Paquistão, conhecido como P-2. Seu rotor é feito de aço super duro que pode girar mais rápido, aumentando a velocidade do enriquecimento do urânio enquanto diminui os riscos de quebra.

Mas o Irã teve muitas dificuldades para construir as máquinas e obter o aço especial. Quase sempre em segredo, ele desenvolveu sua própria versão, a IR-2. Ela é parte nativa, assinalando que os iranianos atingiram novos níveis de habilidade técnica. Se perfeita, a IR-2 pode acelerar a produção do combustível para os reatores e bombas do Irã.

Especialistas ocidentais dizem que os modelos de demonstração da IR-2 chegam a quase um metro de altura - e têm metade do peso de uma P-1. Mas gira duas vezes mais rápido.

"Isso é muito", diz David Albright, presidente do Instituto de Ciência e Segurança Internacional, um grupo privado de Washington que rastreia a proliferação nuclear. "Ela produziria cerca de quatro vezes mais."

O segredo da máquina são as fibras de carbono, dizem os inspetores internacionais. O rotor da IR-2 não é feito de aço ou alumínio mas de carbono negro que forma um tubo extremamente forte para o seu peso. Os especialistas dizem que a fabricação desse tubo também é mais barata do que a dos tubos de aço.

Das 48 fotos que o Irã divulgou, os especialistas ocidentais deram especial atenção a uma que mostrava Ahmadinejad e sua comitiva olhando para uma IR-2 desmontada, com suas entranhas dispostas numa mesa. Seu invólucro, rotor interno, motor e outras partes importantes estão claramente visíveis.

O blog Arms Control Wonk, administrado por Lewis da Fundação New America, traz uma discussão da foto. A maior parte dos comentários diz respeito às partes. Mas Geoffrey E. Forden, especialista em armas do MIT, notou que a mesa também tinha uma bandeira iraniana.

"A fabricação nacional de componentes sofisticados é algo para se orgulhar bastante", escreveu. "E mostrá-los com uma bandeira iraniana é uma boa forma de proclamar isso."

Várias fotos dão um vislumbre do que os especialistas ocidentais consideram como a parte de uma centrífuga nuclear que normalmente é mantida em maior segredo - a base de sua estrutura. Essa parte é importantíssima para evitar o principal dano causado pela rotação sem cessar: a fricção, que pode desacelerar, avariar ou destruir máquinas que deveriam funcionar sem nenhuma falha durante anos.

As centrífugas do Irã, como é usual, não têm nenhum suporte no topo. Numa tentativa de eliminar a fricção, elas têm uma base magnética que mantém a extremidade superior do rotor estável através de campos invisíveis.

Todo o peso do rotor fica sobre a estrutura, que consiste em uma única projeção fina em forma de agulha, com uma cabeça arredondada e ranhuras em espiral que promovem o rápido escorrer do fluido lubrificante.

Uma foto mostra uma jovem com um xale preto islâmico mostrando a estrutura da base para Ahmadinejad, que usava um jaleco e tinha uma expressão que parecia satisfeita. Pode-se ver outra base na mesa entre eles.

Lewis disse que a presença da pequena estrutura chama a atenção, uma vez que o Irã já chegou a abandonar suas iniciativas de construir novas centrífugas por causa dos problemas ao construir a base.

Outras fotos mostram fileiras de centrífugas P-1 assim como do novo modelo IR-2, aparentemente prontas para teste.

Um especialista europeu em centrífugas que acompanha de perto o programa iraniano, incluindo as avaliações dos inspetores internacionais, disse que ainda resta muito trabalho difícil na IR-2. "Com certeza eles ainda terão meses, senão um ano, de trabalho de testes para fazer antes de considerar a produção em massa", diz o especialista, que não quis se identificar por ser um tema delicado.

Em termos mais gerais, dizem os especialistas, o Irã está lenta mas constantemente ganhando a experiência industrial necessária para fazer o combustível de reator, ou, com o mesmo equipamento e um pouco de esforço, combustível para bomba - a parte mais difícil da equação das armas nucleares.

O urânio enriquecido com cerca de 4% de urânio 235 pode alimentar a maior parte dos reatores; e com 90%, bombas atômicas.

Albright, do Instituto de Ciência e Segurança Internacional, disse que em um ano, 3 mil centrífugas P-1 perfeitas poderiam produzir urânio enriquecido suficiente para uma arma nuclear. Ou, acrescentou, o mesmo poderia ser atingido com 1.200 máquinas IR-2.

As agências de inteligência americanas dizem que o Irã só seria capaz de fazer uma arma nuclear em 2009, mas consideram 2010 a 2015 uma expectativa mais provável. O Irã insiste que quer fazer apenas combustível para reatores para produzir eletricidade.

Levando em consideração as cercas altas e a tensão internacional, por que o Irã divulgou as fotos? Os especialistas respondem de tudo, desde que o país fez isso por espírito de cooperação até arroubos de superioridade.

"Talvez seja um convite para um acordo, ou talvez seja apenas para mostrar o feito", diz R. Scott Kemp, especialista em centrífugas de Princeton.

Wood da Universidade de Virgínia diz que o episódio cheira a arrogância. "Foi surpreendente para mim que eles mostrassem essas fotos", disse. "É uma atitude um tanto convencida. Eu imaginaria que eles teriam mais a ganhar escondendo suas cartas."

Por essa análise, o movimento anuncia o desafio do Irã em relação ao Ocidente e ao Conselho de Segurança da ONU, que impôs três rodadas de sanções sobre o país por causa de sua recusa em parar com o enriquecimento de urânio.

Alguns especialistas vêem as centrífugas, apesar da divulgação do tour presidencial, como um enigma que continua.

Por fim, Teerã pode usar as máquinas para o bem ou para o mal, para iluminar cidades ou as destruir. Apenas o tempo, dizem, provavelmente irá revelar as verdadeiras intenções do país. Eloise De Vylder

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