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30/04/2008

Governo russo tenta driblar aumento dos preços dos alimentos

The New York Times
Michael Schwirtz
Em Moscou
Tamara V. Nikolskaya estava carregada de sacolas de compras de plástico, andando apressadamente pelo mercado de rua Enthusiast na sexta-feira atrás dos últimos itens para o banquete da Páscoa ortodoxa no domingo.

"Sim, os preços estão aumentando", disse, enquanto examinava baguetes de pão em uma das muitas lojas que exibiam produtos para a Páscoa.

Fiscais do governo também estavam vigilantes em relação às etiquetas de preços. Apesar de normalmente isolado da crítica pública, o Kremlin têm se mostrado particularmente sensível aos efeitos que a alta nos preços dos alimentos têm sobre os russos à medida que o país continua a sucumbir à tendência global que incitou protestos por parte de cidadãos famintos em alguns países.

Justin Jin/The New York Times 
Vendedora da Georgia trabalha com vegetais no mercado de Rishki, em Moscou

Conforme as taxas de inflação chegaram próximas aos 12% no ano passado, o governo impôs tarifas de exportação e introduziu um congelamento de preços em alguns bens de consumo básico por conta do temor da insatisfação pública logo após as eleições recentes.

Com o partido do presidente Vladimir V. Putin firmemente no controle do Parlamento e seu sucessor escolhido a dedo, Dmitri A. Medvedev, pronto para assumir a presidência no mês que vem, o governo decidiu revogar algumas dessas medidas. Ainda assim, o medo de um novo aumento no preço dos alimentos, que poderia minar a popularidade antes sólida do Kremlin, continua evidente.

Com um aumento de 6% nos preços dos alimentos desde 1º de janeiro e com os alertas por parte de alguns economistas de que a inflação poderia chegar até a 13% ao final do ano, a preocupação entre os oficiais do governo é justificada, dizem os analistas.

O assunto expôs uma divergência rara no governo entre os dois pesos-pesados da economia do país. O Kremlin está tentando implantar uma política econômica que iria prolongar o forte desempenho econômico da Rússia e ao mesmo tempo evitar as armadilhas do alto crescimento que levaram os Estados Unidos à crise das hipotecas subprime.

Aleksei L. Kudrin, o ministro das finanças conhecido por suas políticas fiscais conservadoras, demandou cortes drásticos nos gastos federais para prevenir um superaquecimento econômico. Essa é uma medida potencialmente impopular que a curto prazo poderia prejudicar os produtores domésticos, mas que iria, segundo Kudrin, ajudar a manter a inflação sob controle.

A redução dos gastos também amenizaria o impressionante crescimento econômico russo, algo que Elvira S. Nabiullina, ministra do comércio e desenvolvimento econômico, disse que a Rússia faria bem em evitar. A economia cresceu cerca de 8% no ano passado - o mais rápido durante o governo de Putin.

Nabiullina pediu maiores gastos no transporte, na energia e outros projetos de infra-estrutura como forma de assegurar que a economia continue crescendo, uma política que é apoiada por Putin, que se tornará primeiro-ministro logo após o início do mandato de Medvedev em 7 de maio.

Apesar de muitos analistas questionarem a sustentabilidade desses gastos, poucos consideram que a situação atual da Rússia seja uma grande calamidade neste momento.

"Comparada às outras crises que a Rússia enfrentou nos passado, essa é uma situação bem menor", disse Roland Nash, estrategista-chefe do Renaissance Capital, um banco de investimentos sediado em Moscou.

Os preços mais altos das commodities em média são bons para a Rússia por causa da grande economia baseada na exportação do país, disse Nash, especialmente porque os salários, exceto os dos mais pobres, até agora acompanharam o aumento dos preços.

"Não espero que haja filas por pão nas padarias", disse. "A Rússia aprendeu essa lição há muito tempo."

A renda real dos russos aumentou 25% durante os últimos dois anos, e o número de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza diminuiu em 23%, disse Tatyana Golikova, ministra da saúde russa, durante uma entrevista coletiva na sexta-feira. Todavia, se os rendimentos e o aumento dos custos fixos forem ajustados de acordo com a inflação, cerca de metade desse rendimento é perdido. A renda líquida ajustada pela inflação subiu 10,6% em fevereiro, comparada à do ano anterior, de acordo com a agência de estatísticas do governo.

Ainda assim, nem Nikolskaya nem muitos outros que andavam apressadamente pelo mercado na sexta-feira pareciam muito preocupados com o aumento dos preços, mesmo que alguns veículos noticiosos tivessem anunciado a falta de bens, as restrições de consumo e as filas para pão reminiscentes da época soviética.

"Por enquanto, tudo está bem", disse Nikolskaya, uma moscovita já de idade. "Eu já comprei o kulichi, e os ovos já estão pintados", disse ela, referindo-se aos tradicionais bolos russos de Páscoa, que uma popular padaria de Moscou informou que o preço aumentou entre 10 e 20% neste ano.

A confiança dos consumidores está em alta, e não há uma sensação de pânico no momento. Ainda assim, dois terços da população consideram os aumentos dos preços o principal problema que Medvedev deverá combater ao assumir o governo, de acordo com uma pesquisa recente.

Muitos moscovitas podem esbanjar de vez em quando e comprar um bolo de páscoa especial e talvez um carro novo. Fora da capital, o ânimo parece ser diferente. O salário mensal médio em Moscou atingiu cerca de US$ 1.300 em janeiro, de acordo com a agência de estatísticas do governo. Fora da vista dos novos arranha-céus brilhantes de Moscou, todavia, a renda média pode ser tão baixa quanto US$ 250 por mês, apesar de os preços de bens essenciais em geral tenderem a ser menores do que na capital.

Os aposentados, como sempre, tem as maiores dificuldades.

"Antes, eu conseguia comprar muitas coisas e ia ao mercado com freqüência", disse Tatyana N. Ivanova, uma aposentada de finos cabelos lilás que fazia compras no mercado Enthusiasts. "É difícil para os pensionistas", disse, "porque quase não temos o suficiente para sobreviver."

Apesar de não ter havido notícia de protestos relacionados à falta de alimentos, o Kremlin precisa tomar medidas para conter a inflação rapidamente sob o risco de que Medvedev perca o apoio dos russos acostumados com os aumentos regulares nos salários e o crescimento econômico que tornaram Putin tão popular, disse Maria Lipman, do Centro Carnegie de Moscou.

"Enquanto há pouco, se algum, interesse em protestar por direitos humanos", disse ela, "as pessoas não hesitam em agir quando diz respeito ao seu bem-estar econômico." Eloise De Vylder

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