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01/05/2008

Diferenças entre o norte e o sul da zona do euro provocam tensões

The New York Times
Mark Landler
Em Frankfurt, Alemanha
Em janeiro do próximo ano o euro fará dez anos, um aniversário que será marcado por discursos comemorativos, tratados acadêmicos volumosos e uma moeda de comemoração de dois euros, desenhada por um escultor grego. Ela foi escolhida entre cinco concorrentes em uma pesquisa online feita com cidadãos de países europeus.

Para a Grécia, o fato de ganhar o concurso da moeda poderá ser o ponto culminante das festividades. Sete anos após trocar a sua dracma pelo euro, a economia grega está cambaleante, a inflação cresce e os exportadores têm sido castigados pela valorização do euro em relação ao dólar.

"A Grécia é um acidente esperando para acontecer", diz Thomas Mayer, economista do Deutsche Bank.

Levando-se em conta a maioria dos parâmetros, a moeda comum da Europa tem sido um sucesso, emergindo como uma alternativa para o decadente dólar para corretores de títulos, bancos centrais, exportadores chineses e até mesmo Jay-Z, o rapper norte-americano, que injetou um espírito pop-cultural na imagem da moeda européia ao exibir um maço de notas de 500 euros em um videoclipe.

Mas na união monetária européia formam-se fissuras que ameaçam ampliar-se nos próximos meses.

Grécia, Portugal, Itália e Espanha - a fraternidade banhada pelo sol, às vezes apelidada de Club Med - estão enfrentando perda de competitividade, inflação e aumento das dívidas. Enquanto isto, a Alemanha, que durante grande parte da era do euro foi o "indivíduo doente" da Europa, tornou-se novamente vigorosa. Economicamente em forma após anos de reformas e fortificada pela grande demanda global pelas suas máquinas e outros produtos, a Alemanha defende contra a China o seu status de maior exportadora mundial.

De maneira geral, os vizinhos ao norte da Alemanha também estão bem, o que fez ressurgirem rumores sobre uma divisão norte-sul: um norte que está crescendo decentemente, mas que anda preocupado com a inflação, e, portanto, prefere altas taxas de juros e deseja viver com uma moeda forte; um sul preocupado com a estagnação, e que prefere taxas de juros mais baixas e uma moeda mais fraca.

Quando líderes e retardatários usam a mesma moeda mas têm problemas opostos, é inevitável que tensões venham à tona.

Basta olhar para a Itália, que talvez seja a economia mais abalada da Europa. Enfrentando elevados custos de mão-de-obra, queda das exportações e uma dívida pública em expansão, o velho remédio do país para tempos difíceis seria desvalorizar a lira. Atualmente, acorrentado ao poderoso euro, o país não pode fazer tal coisa. Em vez disso, os italianos provavelmente terão que amargar uma recessão e um desemprego crescente, algo que nenhum político - e especialmente um político recém-eleito, como Silvio Berlusconi - deseja enfrentar.

Berlusconi já declarou que deseja que o Banco Central Europeu leve em conta outros fatores, além da inflação, ao estabelecer a sua política fiscal. Em outras palavras, o banco deveria reduzir as taxas de juros, o que provavelmente desvalorizaria um pouco o euro e tornaria mais fácil para a Itália vender os seus vinhos e calçados no exterior.

Berlusconi encontrou um aliado no presidente da França, Nicolas Sarkozy, que tem se desentendido repetidamente com o banco central pelo mesmo motivo. Sarkozy assumirá a presidência rotativa da União Européia em julho, o que fornecerá a ele uma plataforma pronta para expor os seus pontos de vista.

Os fundadores do euro anteciparam tensões desse tipo. Alguns tinham medo de estrangular a nova moeda ainda no berço. Mas no final da década de 1990, quando a união monetária estava sendo criada, os líderes europeus deixaram as preocupações nacionais de lado e concentraram-se na meta de uma moeda comum.

"Havia uma grande vontade política de ingressar na união", diz Alexandre Lamfalussy, que foi presidente do Instituto Monetário Europeu, o precursor do banco central. "Havia também por parte dos países vontade política para colocar a própria casa em ordem. Lembro-me de ter ficado bastante surpreso àquela época. Hoje, porém, a velha tentação dos governos de achar um bode expiatório para os seus problemas retornou. É um problema amplo, que não se restringe a um ou dois líderes políticos".

De certa maneira, a lua-de-mel política para o euro encerrou-se em maio de 2005, quando os eleitores da França e da Holanda rejeitaram a constituição proposta para a União Européia. Embora aquele documento tivesse pouca influência sobre a moeda, ele simbolizava a constante marcha européia da integração econômica para a política, um processo que, pelo menos por hora, empacou.

Assim como ocorreu em grande parte da história européia, o debate em torno do euro é, no fundo, um debate sobre o papel da Alemanha. Quando a união monetária estava sendo forjada, Estados mais fracos como a Itália temiam, com razão, ter os seus destinos atrelados a uma locomotiva teutônica.

Porém, inesperadamente, a Alemanha mergulhou em uma profunda crise após o euro ter começado a circular em 2002, três anos após a sua adoção como a moeda européia. Devido ao fato de responder por um terço da produção econômica da união monetária, a Alemanha, com os seus problemas, concedeu à Europa uma política de dinheiro fácil - o oposto daquilo que a Itália e os seus vizinhos temiam.

"Em vez de lutarem para acompanhar o ritmo da Alemanha, esses países obtiveram taxas de juros tremendamente reduzidas", afirma Mayer, do Deutsche Bank. "Em vez de vestirem cilícios, eles caíram na farra como doidos".

Na Alemanha, naquela época, as companhias passaram por um processo doloroso de redução dos custos e otimização das operações. Gerhard Schröder, o ex-chanceler alemão, exerceu pressões por uma reforma do mercado trabalhista, o que provavelmente lhe custou o cargo, mas ajudou a fazer da Alemanha um país novamente competitivo.

Agora a festa deslocou-se para Berlim, e as camisas de mortificação estão sendo distribuídas em Roma, Madri e Atenas. Na Espanha e na Irlanda, as baixas taxas de juros do Banco Central Europeu alimentaram bolhas imobiliárias no estilo norte-americano. Essas bolhas estouraram com conseqüências previsíveis.

Tendo em vista a inquietação cada vez maior nesses países, os especialistas afirmam estar surpresos com o fato de ainda não ter havido mais reclamações. Em 2005, quando a divisão era menos drástica do que hoje, o ministro do Trabalho italiano, Roberto Maroni, pediu à Itália que abandonasse o euro e retornasse à lira. Ele foi ferozmente criticado, até mesmo pelos membros do governo Berlusconi anterior.

Parte do motivo para esta calma pode ser o fato de a Europa ter se mantido equilibrada, apesar das recentes crises financeiras nos Estados Unidos. Ao que parece, poucos países podem cogitar trocar o desconforto de um euro robusto pelas incertezas das suas velhas moedas. Segundo os economistas, suportar as taxas de juros da Alemanha é um preço justo a se pagar para que se evitem as desvalorizações monetárias no estilo italiano.

"Haverá muito boato a respeito da Espanha e a Itália abandonarem o euro, mas os fracos não têm como sair do sistema", diz o alemão Daniel Gros, diretor do Centro de Estudos Políticos Europeus, em Bruxelas.

Mesmo assim, os rigores da vida com o euro podem impedir que este clube cresça. Antes, a Polônia, a Hungria, a República Tcheca e outros países europeus orientais desejavam adotar o euro logo após ingressarem na União Européia. Agora, com uma consciência maior dos custos, muitos aguardarão até depois de 2012.

A união monetária européia pode estar durando, mas ela não conta com simpatia generalizada. UOL

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