UOL Notícias Internacional
 

01/05/2008

Friedman: tão burros quanto queremos ser

The New York Times
Thomas L. Friedman
Colunista do The New York Times
É fantástico ver que nós finalmente temos uma unanimidade nacional em relação à política energética. Infelizmente, a idéia unificadora é tão ridícula, tão indigna das pessoas que aspiram a liderar nossa nação, que nos deixa atônitos. Hillary Clinton decidiu se alinhar com John McCain ao pressionar pela suspensão do imposto federal sobre a gasolina, de 18,4 centavos por galão, durante a temporada de verão, quando muitos viajam. Isso não é uma política energética. Isso é lavagem de dinheiro: emprestamos dinheiro da China e enviamos para a Arábia Saudita e pegamos uma pequena porcentagem para nós à medida que ele corre por nossos tanques de combustível. Que forma de construir um país!

Quando o verão terminar, teremos aumentado nossas dívidas para com a China, aumentado a transferência de nossas riquezas para a Arábia Saudita e aumentado nossa contribuição com o aquecimento global para a herança de nossos filhos.

Não, não, não... vamos conseguir o dinheiro de volta somente com as taxas sobre as Big Oil (companhias de combustíveis), diz Hillary. Mesmo que isso fosse feito, que jeito horrível de gastar o precioso dinheiro arrecadado com os impostos - queimando-os a caminho do litoral em vez de usá-lo na inovação energética?

A proposta do feriado dos combustíveis de McCain e Hillary é um exemplo perfeito do que o especialista em energia Peter Schwartz da Global Business Network descreve como a verdadeira política energética americana dos nossos dias: "maximizar a demanda, minimizar a oferta e comprar o resto das pessoas que mais nos odeiam."

Bom para Barack Obama, ao resistir a essa vergonhosa sedução.

Mas eis o que mais mete medo: nosso problema é muito pior do que se imagina. Não temos nenhuma estratégia energética. Se formos usar a política tributária para moldar uma política energética seria necessário então aumentar os impostos sobre as coisas que queremos desencorajar - o consumo de gasolina e os carros que bebem demais - e baixar as taxas sobre as coisas que queremos encorajar - as novas tecnologias de energia renovável. Estamos fazendo exatamente o oposto.

Você está sentado?

Poucos americanos sabem, mas há quase um ano, o Congresso tem discutido sem consenso se deve (e como deve fazer para) renovar as taxas sobre o crédito de investimentos destinadas à pesquisa de energia solar e as taxas sobre o crédito de produção que encorajam a pesquisa da energia eólica. A briga foi tão feia que quando o Congresso aprovou a lei de energia de 2007 em dezembro passado, não previu nenhum estímulo para a produção de energia solar e eólica. A verba para o petróleo e a gasolina foi mantida, mas os gastos com energia solar e eólica foram relegados à expiração agora em dezembro. Não estou inventando nada disso. Num momento em que deveríamos apostar tudo na inovação das energias limpas, estamos brigando por centavos.

Essas verbas são essenciais porque asseguram que, se os preços do petróleo caíssem novamente - o que acontece com freqüência - os investimentos em energia eólica e solar continuariam lucrativos. É assim que se lança uma nova tecnologia energética e faz com que ela ganhe escala, para que ela possa concorrer sem subsídios.

Os democratas queriam que as verbas para a energia eólica e solar fossem pagas pelos impostos sobre a indústria petrolífera. O presidente Bush disse que vetaria a proposta. Nenhum dos lados deu o braço a torcer, e Bush - sem mostrar um pingo de liderança - recusou-se a reunir os adultos numa sala para trabalhar por um consenso. Houve um empate. Enquanto isso, a Alemanha tem um programa de incentivo à energia solar há 20 anos, e o Japão há 12. O nosso, na melhor das hipóteses, tem dois anos.

"É um desastre", diz Michael Polsky, fundador da Invenergy, um dos maiores desenvolvedores de energia eólica nos EUA. "A energia eólica é uma indústria de capital muito intensivo, e as instituições financeiras não estão prontas para enfrentar o 'risco congressista'. Elas dizem que se não conseguirmos ((o crédito das taxas sobre produção)), não emprestariam o dinheiro para comprar mais turbinas e fazer novos projetos."

Também é alarmante, diz Rhone Resch, presidente da Associação das Indústrias de Energia Solar, o fato de que os EUA atingiram um ponto em que "as prioridades do Congresso se tornaram tão distorcidas pela política" que o país está virando as costas para a próxima grande indústria global - a indústria de energia limpa - "mas é exatamente isso que está acontecendo." Se as verbas para a energia solar e eólica expirarem, diz Resch, o impacto apenas em 2009 será de mais de 100 mil empregos perdidos ou não criados nessas indústrias, e de US$ 200 bilhões em investimentos que não serão feitos.

Enquanto todos os candidatos à presidência falavam sobre os empregos perdidos na indústria em Ohio, ninguém percebeu que a primeira companhia de energia solar americana, First Solar, de Toledo, Ohio, inaugurava sua mais nova fábrica na ex-Alemanha Oriental - com 540 empregos bem pagos para engenheiros - porque a Alemanha criou um excelente mercado para a energia solar e os Estados Unidos não.

Em 1997, disse Resch, os Estados Unidos eram o líder em tecnologia de energia solar, com 40% da produção mundial. "No ano passado, produzimos menos de 8%, e mesmo assim a maior parte foi de equipamentos para os mercados estrangeiros."

A proposta de McCain e Hillary para mim serve como um lembrete de que a maior crise energética que temos no país hoje é a da energia para levar as coisas com seriedade - a energia para fazer grandes coisas de uma forma sustentável, focada e inteligente. Estamos no meio de um blecaute político nacional. Eloise De Vylder

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