UOL Notícias Internacional
 

01/05/2008

Robert Mugabe: o homem oco

The New York Times
John Darnton*
Alexander Joe/AFP - 23.mar.2008 

Atualmente, ao observar Robert Mugabe fortalecer seus 28 anos de controle do Zimbábue enquanto as forças de oposição tentam abrir a força os seus dedos, eu não consigo parar de pensar em uma conversa que ele e eu tivemos certa vez sobre T.S. Eliot, poesia e o mês de abril.

Permita-me explicar. Na época, há quase 30 anos, Mugabe era um líder desconhecido de um movimento guerrilheiro que tentava derrubar o governo branco daquela que então se chamava Rodésia. Eu era um correspondente internacional do "The New York Times" que cobria a África. E a própria Rodésia era um posto avançado ilusório de vida colonial na qual muitos dos 270 mil brancos pareciam ignorar alegremente a guerra que transcorria em prol dos 7 milhões de negros. Eles passavam filtros solares à beira de piscinas, jogavam boliche na grama aparada do Parque Salisbury e escutavam diariamente o rádio para ouvir coisas como "Bote o lixo para fora" na língua shona.

Eu ouvi pela primeira vez sobre Mugabe em maio de 1976, no Quill Club do Ambassador Hotel, um bar onde a polícia do primeiro-ministro Ian Smith, simpatizantes da guerrilha, repórteres e agentes de várias facções suspendiam sua antipatia habitual para fofocar. Nós correspondentes estrangeiros costumávamos mencionar nomes do potencial líder supremo do novo país emergente como mineiros testando pepitas de ouro: seria Joshua Nkomo? Ndabaningi Sithole? Jason Moyo? Um correspondente do "Guardian" chamado James McManus, que parecia particularmente vistoso nos trajes de safári que todos nós usávamos, me puxou de lado e disse que estava apostando seu dinheiro em um novo sujeito chamado Robert Mugabe.

Ninguém sabia muito a respeito dele, ele disse, mas ele era um shona, o que significava que pertencia ao maior grupo tribal. Ele estaria operando a partir de Moçambique, na época notória como a vizinha comunista linha-dura da Rodésia. E, mais intrigante, ele era um intelectual, um professor que adorava a poesia de T.S. Eliot. Compreensivelmente, esta última informação me fisgou.

Um pouco depois eu me vi em Maputo, a adorável capital litorânea de Moçambique. Eu fiz algumas perguntas, me encontrei com algumas pessoas e paguei um jantar de camarões por um número de telefone valioso: o do escritório de Mugabe. Eu tentava marcar um encontro, mas o telefone não estava funcionando.

Eu procurei novamente meu contato em busca de um endereço, e logo me vi subindo as escadas de um prédio sombrio na periferia da cidade. Eu bati à porta e fui admitido em uma sala na qual uma jovem mulher, mascando chiclete, estava sentada à uma mesa que estava praticamente vazia, exceto pelo telefone que não estava funcionando. Eu expliquei minha missão e me foi apontado um sofá, onde aguardei por algum tempo antes de ser conduzido à presença de Mugabe.

Ele estava em outro cômodo do apartamento. Ele também era praticamente vazio, apesar dos cartazes guerrilheiros colocados com fita adesiva nas paredes e dispor, como me lembro, de uma minúscula sacada dando vista para um pátio sinistro. Mugabe estava sentado atrás de uma mesa de madeira organizada. Ele não se levantou para me cumprimentar, mas também não hesitou em apertar minha mão. Ele parecia surpreso em me ver, apesar de eu já saber que ele tinha tomado conhecimento do meu desejo de me encontrar com ele. Ele não tinha aversão a conceder uma entrevista à imprensa ocidental e fiquei com a impressão de que aquela era uma das primeiras que ele dava.

Eu o examinei. Era magro, vestia uma camisa simples de manga curta e calças -nenhum uniforme de camuflagem em evidência. Ele era decepcionantemente comum em aparência, com olhos pequenos escondidos atrás de óculos grandes. Ele não sorria, mas era educado. Ele me ofereceu uma xícara de chá e tomou uma. As xícaras foram trazidas pela recepcionista/secretária. Ele tomava goles pequenos, cautelosos. Ele respondeu todas minhas perguntas lenta e seriamente. Ele disse que seria um erro os Estados Unidos e o Reino Unido suspenderem as sanções econômicas contra o regime rodesiano, como corriam rumores que estava sendo considerado. Ele disse tranqüilamente que a oferta do governo para os guerrilheiros baixarem suas armas era "ridícula".

Falando de armas, ele mencionou que sua facção em particular estava obtendo as suas dos chineses, mas tinha esperança de trocá-los por Moscou.

"Nós só podemos pedir, como temos pedido o tempo todo", ele disse de forma franca, com as palmas das mãos voltadas para cima. "Eles não disseram não, mas também não disseram sim."

À medida que a entrevista parecia estar chegando ao fim -ele olhava com freqüência para seu relógio- eu não conseguia evitar o sensação insatisfatória de que tinha obtido uma manchete, mas realmente não tinha conseguido aprender nada sobre o homem. Ele não tinha expressão. Sua voz não se alterava. Seus olhos pequenos não romperam a máscara de segurança plácida e mesmo, ao que parecia, de remota indiferença.

Certamente devia existir uma chave para destrancar este enigma. "Então", eu disse, "o que exatamente o atrai em T.S. Eliot?"

Ele me deu um olhar vazio e se levantou. "Você sabe", eu acrescentei, "'The Waste Land'".

A princípio, incompreensão passou pelo seu rosto, talvez até mesmo uma breve irritação. Eu persisti.

"'Abril é o mês mais cruel'", eu disse. "Eliot. O poeta. Você sabe." Enquanto ele me conduzia até a porta, seu espanto parecia se transformar em raiva. "Eu não tenho a menor idéia do que você está falando", ele disse, fechando a porta firmemente atrás de mim.

*John Darnton, um ex-correspondente internacional do "The New York Times", é autor do romance que será lançado em breve, "Black and White and Dead All Over". George El Khouri Andolfato

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