UOL Notícias Internacional
 

01/05/2008

Um instrumento lendário, suprimido no Iraque, prospera no exílio

The New York Times
Erica Goode*

Em Bagdá
Dhia Jabbar esconde seu oud em uma sacola quando caminha pela rua em seu bairro em Bagdá.

Ele costumava ensinar estudantes em um quarto dos fundos de uma loja de fotos, onde o som não podia ser ouvido. Mas na semana passada, milicianos armados invadiram sua loja, destruíram seu instrumento e ordenaram que ele parasse de ensinar. Ele sonhava com uma carreira de músico, mas agora ele perdeu a esperança.

"O Iraque está morto", ele disse.

A 11 mil quilômetros de distância, Rahim Alhaj, que fugiu do Iraque em 1991, carrega seu oud sem se preocupar pelas ruas de Albuquerque, Novo México, onde vive atualmente. Em Nova York, Washington e outras cidades, ele toca para platéias de centenas. Um álbum que ele gravou foi recentemente indicado ao Prêmio Grammy.

João Silva/The New York Times 
Um fabricante de oud trabalha na produção do instrumento em um ateliê de Bagdá

Os dois músicos estão ligados por sua paixão pelo oud, um instrumento em forma de pêra cujas raízes são profundas na história do Iraque. Alguns dizem que em sua música se encontra a alma do país.

Ambos estudaram no mesmo conservatório de prestígio de Bagdá. Ambos têm um amor profundo pelas melodias tradicionais iraquianas.

Mas Jabbar, 29 anos, e Alhaj, 40 anos, também estão ligados por terem assistido -um de perto, o outro de longe- o mergulho de seu país na violência sectária.

Alhaj teme constantemente por sua mãe e irmão, que ainda moram no perigoso bairro de Sadr City de Bagdá, em uma casa sem eletricidade ou água corrente. Quando há luta entre os milicianos do Exército Mahdi e as forças americanas ou iraquianas ali, como tem ocorrido virtualmente todos os dias nas últimas semanas, ele telefona freneticamente para sua família.

"É difícil, porque estou muito longe deles e muito longe das dificuldades deles, de forma que me sinto impotente", ele disse.

A violência sobre a qual ele lê no jornal provoca sonhos ruins: imagens de ser torturado, como ocorreu nos anos 80 sob o governo de Saddam Hussein, ou de pessoas sendo executadas.

Em 2004, ele voltou para Bagdá para dar um concerto na casa de sua família. Os amigos com os quais cresceu, ele disse, estavam barbados e se sentiam desconfortáveis escutando ele tocar; música secular é considerada "haram", proibida. Um fabricante de oud que ele conhecia foi forçado a produzir seus instrumentos secretamente em uma minúscula oficina em seu telhado.

Certa manhã, Alhaj acordou na casa de sua família ouvindo sua sobrinha cantando uma famosa canção de amor iraquiana. Mas a letra tinha mudado; ela agora não mais falava de amor romântico, mas apenas de Deus, do céu e de danação.

"O que aconteceu?", perguntou Alhaj. "O que aconteceu?"

Jabbar assistiu à transformação de Bagdá em tempo real. Ele viu o fervor religioso envolver a rua em que fica a casa de sua família, no bairro de Shaab, onde costumava sentar do lado de fora para tocar para os transeuntes. Salões e concertos casuais -antes comuns- se tornaram raros e clandestinos. Os empregos para tocar e ensinar que costumam aguardar pelos músicos talentosos, quando concluíam seus estudos, desapareceram.

"Eu perdi 10 anos da minha vida", ele disse, "os anos em que estudei para ser capaz de tocar para as pessoas".

O Iraque já foi famoso pelos seus tocadores de oud. O instrumento era uma vista comum nos lares iraquianos, assim como uma guitarra ou violão nos Estados Unidos. Segundo uma lenda descrita no Grove Music Online, uma referência padrão, o oud foi inventado por Lamak, um descendente do Caim bíblico. Quando seu filho morreu, Lamak teria pendurado seus restos mortais em uma árvore e visto no esqueleto o corpo arredondado e o braço elegante.

Um jurista do século 9 em Bagdá exaltou as propriedades curativas do oud, assim como Muhammad Shihab Al Din, um escritor do século 19. "Ele coloca o temperamento em equilíbrio", ele escreveu. "Ele acalma e revive corações."

Até mesmo Saddam Hussein não era imune aos encantos do instrumento. Foi relatado que ele recebeu um oud, feito de madeiras raras e incrustado de marfim, de um fabricante famoso, Mohammed Fadhel. Saddam ordenou que um tocador renomado de oud o ensinasse a tocar, mas ao ficar na presença do ditador, o homem ficou tão assustado que não conseguia falar. Outro tocador de oud foi convocado para substituí-lo e deu a Saddam duas aulas, prossegue a história.

Na infância, Jabbar dormia ouvindo música no gravador de seu pai. Posteriormente, ele passou a cantar canções nacionais no coro do colégio. Aos 18 anos, tardiamente para um músico profissional, ele passou a tocar o oud, estudando os mistérios do maqam iraquiano, o sistema complexo de seqüências tonais e improvisos passados de mestre a estudante.

"Eu nasci para aprendê-lo", ele disse.

Quando tanques americanos entraram em Bagdá em 2003, Jabbar ficou empolgado.

"Eu costumava me sentar com meus amigos e conversar sobre nossos sonhos, sobre como seria Bagdá após a invasão", ele disse. "Eu esperava que Bagdá seria como Hollywood. Nós podíamos circular livremente. Às vezes voltávamos para casa às 2 horas da manhã."

Mas a nova liberdade não durou. Ele ouviu histórias sussurradas de músicos que eram ameaçados pelos extremistas religiosos. Um de seus professores foi atacado enquanto dirigia da Síria para Bagdá. Homens armados destruíram o oud do homem e disseram que o matariam se continuasse a tocar. Um mês depois, o professor fugiu do Iraque.

"Eu passei a ser mais cuidadoso e a não falar sobre meus estudos", disse Jabbar. "Eu costumava dizer que estava estudando pintura ou história ou que me tornaria professor de inglês."

Em alguns bairros, ele podia carregar seu oud sem muito medo. Em outros, ele dizia, "seria suicídio carregá-lo comigo".

Ele toca onde pode, em festivais ocasionais, em encontros secretos com amigos. De vez em quando ele pára na oficina de um fabricante de oud, Ahmad Al Abdalli, na rua sinuosa de um bairro comercial no centro de Bagdá.

"Antes, muitos músicos vinha aqui, se reuniam, tocavam e cantavam, e quando iam para casa, estavam aliviados e felizes", disse Abdalli. "Mas agora eles não vêm, ou quando vêm, há apenas um ou dois e eles tocam apenas por poucos minutos, para não chamar atenção dos fanáticos."

Jabbar é dono de um oud valioso, feito, como o de Saddam, por Mohammed Fadhel, um instrumento tão precioso que nem mesmo sua esposa pode tocá-lo. Mas ele pensa em vender o instrumento.

Alhaj também foi dono de um Mohammed Fadhel, que ganhou de seu professor décadas atrás em Bagdá. Ele costumava dormir com o instrumento ao seu lado. Ele até mesmo conversava com ele, o que chegava a preocupar seus pais.

Mas em 1991, quando partiu do Iraque, fugindo para a Jordânia, um guarda de fronteira confiscou o oud. Ao vê-lo desaparecer, lembrou Alhaj, ele começou a tremer e adoeceu. "Foi o momento mais triste de toda minha vida", ele disse.

Ele chegou aos Estados Unidos em 2000, após anos na Síria, e um funcionário que cuidava de refugiados encontrou um emprego para ele no McDonald's. "Que tipo de instituição é esta?", Alhaj disse ter perguntado. "Ela ensina música clássica árabe?"

No final ele voltou a tocar. Ele faz o que pode para manter a música de oud iraquiana viva, dando concertos em prol das crianças iraquianas e conversando com a platéia sobre o oud e sua história.

Ele sabe que tem sorte por poder tocar livremente, por poder falar sem medo. "Eu tive minha chance de erguer minha voz aqui", ele disse.

Ele vibrou quando o regime de Saddam caiu, ele disse, mas foi contrário à invasão americana. Às vezes passa pela sua mente a idéia de que "há um soldado lá, e não sei se ele está matando meu irmão".

Jabbar, por sua vez, brinca que nutre uma fantasia secreta.

"Eu vou dar um golpe de Estado e fazer com que todos em todos os bairros toquem o oud", ele disse. "Será uma revolução."

*Qais Mizher, Anwar J. Ali e Ali Hameed contribuíram com reportagem. George El Khouri Andolfato

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