UOL Notícias Internacional
 

03/05/2008

Krugman: partido da negação

The New York Times
Paul Krugman

Colunista do The New York Times
Durante a participação de Barack Obama na "Fox News" no último domingo (26 de abril) , o entrevistador lhe perguntou por um exemplo de um "assunto quente no qual estaria disposto a romper com a linha do Partido Democrata" e dizer que os republicanos têm uma idéia melhor.

A resposta de Obama foi surpreendente porque ele deu um crédito indevido -e conseqüentemente minou aquela que poderia ser uma linha de argumento democrata muito eficaz.

Em particular, Obama atribui aos republicanos a idéia de que a regulação pode ser flexível em vez de uma questão de "comando e controle de cima para baixo", e em particular pela idéia de controlar a poluição com um sistema de permissões de emissão negociáveis em vez de regulações rígidas.

Bem, isto não é o que de fato aconteceu -e a história do que realmente aconteceu tem muita relevância para os eventos atuais.

É verdade que o primeiro presidente Bush estabeleceu um sistema baseado no mercado para o controle das emissões de dióxido de enxofre, que foi altamente bem-sucedido no controle da chuva ácida. Mas naquela época a idéia de mercados de permissões de emissão há muito era aceita por economistas de todas as posições políticas.

E também era aceita pelos principais democratas. A Agência de Proteção Ambiental começou a permitir que as cidades buscassem atender os padrões de qualidade do ar usando os sistemas de comércio de emissões durante o governo Carter -que também abriu caminho na desregulação das companhias aéreas e transporte em caminhões.

Além disso, o esquema do dióxido de enxofre de fato marcou uma profunda mudança em relação à política do governo Reagan, que -fiel à crença de que o governo é sempre o problema, nunca a solução- passou oito anos se opondo a qualquer esforço para controlar a chuva ácida.

Em vez de admitir que a poluição é um problema que o governo tem que resolver -mesmo enquanto as conseqüências da chuva ácida se tornavam cada vez mais alarmantes, sem contar o fracasso dos Estados Unidos em agir terem provocado uma quase crise nas relações com o Canadá, que estava sofrendo com os efeitos do dióxido de enxofre gerado nos Estados Unidos- os reaganistas insistiam que não havia problema nenhum.

Eles negavam a evidência, questionavam a ciência, pediam por mais pesquisa e não faziam nada. Soa familiar?

E esta, certamente, é a linha que os democratas deveriam estar pressionando nesta eleição: os republicanos se tornaram o partido da negação. Se um problema não pode ser resolvido com desregulação e cortes de impostos, eles fingem que não existe.

A mudança climática é o paralelo contemporâneo óbvio à chuva ácida. Mas se os democratas realmente quiserem fixar o rótulo de negador a John McCain, o atendimento de saúde é o lugar onde se concentrar.

A situação da saúde, caso você não tenha notado, vai de mau a pior. Muitas empresas menores deixaram de fornecer benefícios entre 2000 e 2005. No passado, a cobertura de saúde tendia a melhorar quando a economia se recuperava de uma recessão -mas o "boom de Bush" provocou, quanto muito, uma estabilização temporária.

E agora que a economia está enfraquecendo de novo, outro mergulho está em progresso: na semana passada, a UnitedHealth alertou os investidores que seus negócios estão sofrendo porque menos empregadores estão oferecendo cobertura para seus funcionários.

Os democratas estão oferecendo planos reais em resposta; eles não são perfeitos, mas são sérios.

Os republicanos, por sua vez -e isto vale tanto para McCain quanto para o governo Bush- nem mesmo tentaram tratar das preocupações com a cobertura. Em vez disso, eles só falam dos custos, que os republicanos insistem (de forma errada) que podem ser drasticamente reduzidos por uma política de, você já adivinhou, desregulação e corte de impostos.

Até poucos dias atrás, a única resposta que a campanha de McCain oferecia para aqueles preocupados com a falta de cobertura era a afirmação vaga e implausível de que a mágica do mercado tornaria o atendimento de saúde novamente barato o suficiente para todos.

Agora, McCain reconheceu que talvez um programa do governo seja necessário para aqueles que não podem adquirir um seguro privado. Isto parece ser uma resposta à crítica de Elizabeth Edwards, que está apontando que a desregulamentação dos planos de saúde provocaria a negação de cobertura a qualquer um que, digamos, possua um histórico de câncer -uma categoria que inclui tanto ela quanto o próprio McCain. Mas a forma como Edwards sacudiu a campanha de McCain é evidência de quão vulnerável ele é na questão.

O ponto é que a questão da saúde poderia ser a Prova A para uma campanha democrata baseada no argumento de que são o partido das soluções pragmáticas, enquanto os republicanos modernos nem mesmo reconhecem os problemas que não se encaixam em sua estrutura ideológica rígida.

Mas os democratas estão prontos para apresentar este argumento?

Para deixar claro, ambos os candidatos democratas estão dizendo coisas que não deviam; Hillary Clinton não devia ter endossado a idéia ruim de isenção tributária à gasolina.

Mas acho que Obama está fazendo muito mais mal à causa democrata ao repetir as linhas de ataque republicanas em questões como seguro obrigatório e Seguro Social. E agora ele está demonstrando seu pós-partidarismo ao dar aos republicanos crédito por boas idéias que nunca tiveram. George El Khouri Andolfato

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