UOL Notícias Internacional
 

04/05/2008

Fãs zombam das desventuras de astro do futebol

The New York Times
Alexei Barrionuevo
Joshua Schneyer
No Rio de Janeiro
Numa cidade famosa por sua tolerância sexual, os homens que brilham nos campos de futebol são submetidos a uma ética diferente, mais machista.

Os fãs ficaram envergonhados na última segunda-feira quando o jogador de futebol brasileiro Ronaldo Luis Nazario de Lima -conhecido apenas como Ronaldo no mundo do futebol- foi interrogado pela polícia por ter chamado três travestis para um motel.

Remy de la Mauviniere/AP
"Muitos irão questionar a masculinidade de Ronaldo" (aqui em foto de fevereiro de 2008), afirma antropólogo
Ronaldo, atacante do clube italiano Milan AC, disse à polícia que tentou mandar os travestis embora, oferecendo dinheiro, depois de descobrir que eles eram homens. Mas um deles argumentou que não recebeu a quantia combinada, e a polícia interveio, tornando público este episódio privado que está revelando quão a sério os brasileiros levam a cultura masculina do futebol.

A prostituição é legalizada no Brasil, e Ronaldo não enfrenta nenhuma acusação criminal. Seu comportamento foi, "no máximo, imoral", disse Carlos Augusto Nogueira, o investigador da polícia, em declarações à televisão.

Mas nem todos os fãs de futebol brasileiros parecem estar dispostos a esquecer e perdoar. As reportagens sobre a noite selvagem de Ronaldo, que terminou por volta das 8 da manhã, ganharam as primeiras páginas dos jornais.

Sinceramente, as críticas que ele está enfrentando não são nada comparadas ao escândalo que a mídia teria feito em outros países onde a prostituição é ilegal -e a moral sexual mais rígida. Ainda assim, o fato de que a desventura de Ronaldo tenha se tornado notícia de primeira página aqui por vários dias -e de que alguns cartunistas e blogs fizeram piadas sobre o jogador- é uma evidência de que os astros de futebol estão submetidos a um padrão diferente.

Vanderlei Almeida/AFP 
Diversos jornais estamparam o caso -que terminou na delegacia- na primeira página

Para os fãs, a essência do chamado "futebol arte" é profundamente masculina, e espera-se que os grandes nomes do esporte sejam exemplos de heterossexualidade.

"Os fãs não ficam chocados com os jogadores que saem com prostitutas", diz o antropólogo brasileiro Roberto da Matta. "Mas muitos irão questionar a masculinidade de Ronaldo."

Fernando Santos é um deles. "Acho que entre quatro paredes aconteceu muita coisa entre Ronaldo e os três travestis", disse Santos, 45, bebendo uma cerveja na quinta-feira depois jogar uma pelada. "Se ele voltar a jogar na seleção, haverá xingamentos da torcida."

Ewerton Correa, sentado ali perto, ofereceu uma previsão. "Disseram que Ronaldo está trazendo três novos jogadores para a seleção, e que está pagando seus salários", disse Correa, 36, provocando risos entre os outros homens que estavam no campo.

Ronaldo, de 31 anos, nunca teve problemas em provar sua masculinidade. Desde que se juntou à seleção brasileira com 17 anos, ele já esteve associado a uma procissão de mulheres bonitas, de modelos a celebridades.

Duas ex-namoradas que posaram para a Playboy em 1998 foram apelidadas de "Ronaldinhas" pela revista. Um ano depois, Ronaldo se casou e teve um filho, divorciando-se depois de quatro anos. Mais tarde ele teve um breve noivado com a modelo brasileira e VJ da MTV Daniela Cicarelli, e mais tarde teve um relacionamento com a modelo brasileira Raica Oliveira.

Agora, sua imagem de mulherengo notório foi encoberta por sua aparente confusão, ainda que momentânea, em distinguir se os travestis eram ou não mulheres.

"O meio do futebol aqui no Brasil de fato mantém distância de qualquer sinal de homossexualidade, apesar de ela ser aceita pela sociedade em geral", disse Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, ex-jogador astro da seleção que é médico e colunista de futebol.

Ronaldo recebeu um tratamento reverente por parte da imprensa brasileira ao longo do tempo, graças a seus feitos memoráveis nos campos. Depois de crescer em Bento Ribeiro, um bairro humilde do Rio, ele jogou no exterior durante quase toda sua carreira e tornou-se um dos jogadores mais bem pagos do mundo. Com freqüência voltava para jogar para a seleção brasileira, e tornou-se o jogador que mais fez gols em Copas do Mundo, com 15 gols.

Mas um problema persistente no joelho esfriou sua carreira, e a última contusão, sofrida em fevereiro, terminou com sua temporada e alimentou os rumores de que o jogador eleito três vezes Melhor Jogador do Mundo finalmente seria forçado a se aposentar, o que ele negou. Alguns comentaristas esportivos apostam que Ronaldo talvez volte para jogar em um clube brasileiro.

"O plano dele é voltar logo para o Milan", disse Bruno, assessor de Ronaldo.

Na noite do episódio, Ronaldo saiu pela cidade depois de assistir seu amado Flamengo, time para o qual ele torcia quando menino, jogar no estádio do Maracanã. Mais tarde, por volta das 4h, ele pegou "Andréia Albertini", um travesti de 21 anos de idade cujo nome verdadeiro é André Luis Ribeiro Albertino. Já no motel, Albertino sugeriu que chamassem outros dois colegas, de acordo com as notícias publicadas e entrevistas que Albertino deu à televisão.

A polícia não respondeu às perguntas sobre o incidente da sexta-feira.

Dois dos travestis aceitaram o pagamento de cerca de R$ 1.000 para cada, disse Albertino à televisão. Mas o investigador Nogueira, em depoimentos que foram ao ar, disse que Albertino pediu um pagamento R$ 50 mil em troca de não revelar o caso à imprensa.

Nogueira disse também que Ronaldo ameaçou agredi-lo. O assessor Bruno negou que Ronaldo houvesse feito a ameaça.

Em uma declaração à imprensa, Bruno disse que "os eventos recentes envolvendo o atleta Ronaldo são de natureza pessoal." Ele negou as notícias de que o jogador iria enfrentar mais interrogatório por parte da polícia, assim como as alegações de Albertino de que Ronaldo havia usado drogas na noite em questão. "Ronaldo não usa drogas de jeito nenhum", disse.

O agente de Ronaldo, Fabiano Farah, disse numa declaração por e-mail na sexta-feira: "ele não cometeu nenhum crime, não infringiu nenhuma lei. Pelo contrário, ele foi uma vítima nesse caso."

O incidente de Ronaldo não é o primeiro em que as expectativas sobre a sexualidade de um jogador de futebol geram controvérsias. Em São Paulo, onde acontece uma das maiores paradas gays do mundo, o diretor de um famoso clube de futebol acusou um meia de ser gay. O jogador registrou queixa por calúnia.

O juiz Manoel Maximiano Junqueira Filho retirou a queixa, afirmando que o futebol era um "jogo viril" e "não homossexual". Ele sugeriu que um jogador homossexual deveria sair do time ou então montar um time ou uma liga própria. Depois de receber críticas, o juiz retirou o que disse.

Já existe uma equipe de travestis, criada há alguns anos. O time Roza FC, que joga próximo de Bento Ribeiro, onde Ronaldo cresceu. A equipe, que está determinada a se encaixar na cultura fanática por futebol, é provavelmente a única do mundo composta apenas por travestis, disse Alex Bellos, autor do livro "Futebol: O Brasil em Campo".

"Eles dizem, 'também podemos jogar futebol'", conta Bellos. "Foi uma forma que eles encontraram de serem aceitos..." Ronaldo foi pego na companhia de três travestis e os fãs não parecem dispostos a esquecer a história. Para eles, a essência do "futebol arte" é profundamente masculina Eloise De Vylder

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