UOL Notícias Internacional
 

05/05/2008

Aumento dos preços dos alimentos ameaça merenda escolar no Camboja

The New York Times
Thomas Fuller
Em Pray Viev, Camboja
A escola primária Sun Sun, formada por dois prédios térreos compridos pintados de ocre amarelado e um barracão de madeira, é cercada por acres de plantações de arroz que recentemente garantiram aos fazendeiros locais o que eles chamaram de a melhor colheita da história. Mas isso não evitou que as crianças da escola sofressem os efeitos da crise global de alimentos.

Os administradores da escola estão numa contagem regressiva assim como outras 1.343 escolas por todo o Camboja: em 30 dias ou menos o estoque de arroz das escolas vai acabar e um popular programa de café da manhã gratuito será suspenso indefinidamente por causa do aumento dos preços dos alimentos.

Com pouco dinheiro, o Programa Mundial de Alimentos, uma agência das Nações Unidas que alimenta as populações mais pobres do mundo, não é mais capaz de fornecer às crianças do Camboja o desjejum diário composto de arroz plantado no próprio país e complementado com ervilhas secas dos Estados Unidos e atum tailandês.

Thomas Fuller/The International Herald Tribune 
Chouan Chan (esq.), 13, come a merenda da escola primária Sun Sun em Pray Viev

Num país em que a escassez de alimentos ensinou os cambojanos a sobreviverem com o mínimo nutricional, é provável que as crianças do vilarejo passem fome. E algumas podem perder a chance de estudar.

"A maioria dos alunos vêm para a escola por causa do café da manhã", diz Taoch Champa, professor de 31 anos.

A suspensão do programa de merenda escolar ilustra um dos muitos aspectos de como a crise global de alimentos, que fez com que os preços dos grãos subissem vertiginosamente nos últimos meses, está afetando as populações mais pobres e vulneráveis do globo. Somente as escolas mais carentes foram selecionadas para continuar no programa. Pray Viev é um dos vilarejos mais pobres da província mais pobre do Camboja, Kampong Speu.

Quando a merenda gratuita foi introduzida aqui há oito anos pelo Programa Mundial de Alimentos, foi um sucesso instantâneo.

"Os alunos traziam seus irmãos e irmãs, com 2, 3 ou 4 anos de idade", diz Yim Soeurn, diretor da Sun Sun. "Foi muito difícil de controlar."

O café da manhã passou a ser um ímã para atrair alunos desde então, tornando-se o melhor amigo dos professores. Os alunos melhor alimentados prestavam mais atenção, os atrasos deixaram de ser um problema (o café da manhã é servido às 6h30, antes que as aulas comecem) e a freqüência das meninas, que antes eram mantidas em casa pelos pais, aumentou bastante.

Yim disse que sabia o que iria acontecer quando os alimentos gratuitos desaparecessem. "Os alunos pobres não viriam mais à escola."

Quando o programa de merenda foi interrompido em janeiro de 2007 por causa de problemas orçamentários, a freqüência dos alunos caiu em 10%, disse Yim.

Menh Veasal, com 14 anos e melhor aluno de sua classe, matou aula para coletar rãs e caranguejos de um rio próximo para contribuir com as refeições de seus pais e sete irmãos. A mãe de Sim Sreywat, 12, mandou que ele percorresse as montanhas próximas onde ela costumava colher tamarindos e brotos de bambu.

A falta iminente do suprimento de arroz é particularmente paradoxal para as crianças que diariamente passam com suas bicicletas por quilômetros de terraços de arroz perfeitamente delineados no caminho para a escola.

O arroz é abundante no Camboja, que tem sido um exportador lucrativo do produto durante a última década. Mas o arroz está se tornando cada vez mais caro para o consumo das pessoas que o plantam. Uma pesquisa de 2006, bem antes do aumento do preço dos alimentos, revelou que 22% dos cambojanos da zona rural não conseguiam suprir suas necessidades alimentares mínimas.

As terras agrícolas mais produtivas do Camboja ficam próximas das fronteiras com a Tailândia e o Vietnã, e a maior parte do que é colhido nessas regiões é exportado a preços de mercado internacional.

O solo na província Kampong Speu, entretanto, é arenoso e seco, produzindo menos de uma tonelada por hectare, ou 2,5 acres, metade da média nacional. As terras dos fazendeiros locais normalmente são tão pequenas que eles não conseguem nem alimentar as próprias famílias.

Thomas Keusters, diretor do Programa Mundial de Alimentos no Camboja, diz que não sabe se o programa de merenda da escola vai ser retomado. "Com certeza não antes do próximo ano letivo, em outubro de 2008, na melhor das hipóteses", disse.

No mundo todo, a agência começou um apelo por US$ 500 milhões adicionais para cobrir o aumento dos preços dos alimentos. No Camboja, o preço do arroz está cotado em mais de US$ 700 por tonelada no momento, mais do que o dobro dos US$ 295 por tonelada que a agência havia orçado para este ano. Eloise De Vylder

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