UOL Notícias Internacional
 

06/05/2008

Las Vegas, afinal, não é à prova de recessão

The New York Times
Clifford Krauss

Em Las Vegas
Por décadas, este centro de jogo parecia quase imune às oscilações econômicas do resto do país. Mas atualmente, a cidade construída com base no excesso está vendo um sinal problemático: moderação.

A receita do jogo e a ocupação dos hotéis estão em baixa. Os resorts estão reduzindo diárias e oferecendo cupons para noites gratuitas. Os operadores de cassinos estão demitindo centenas de funcionários e suas ações estão em queda desde outubro. O crédito está secando para projetos de hotéis e condomínios planejados antes da desaceleração atingir a cidade.

Mesmo as pessoas que ainda vêm a Las Vegas estão gastando menos. Julia Lee, 27 anos, de Los Angeles, disse que normalmente traz US$ 10 mil em suas viagens para cá para jogar blackjack (vinte e um). Enquanto Lee comprava ingressos para um show em uma outra noite, ela disse que trouxe menos da metade nesta viagem. "Meus pais trabalham com imóveis e estamos preocupados", ela disse.

Damon Winter/The New York Times 
Trabalhadores da construção civil atravessam a Las Vegas Boulevard, em Las Vegas, Nevada

Assim como os donos de hotéis, varejistas, operadores de capelas de casamento e qualquer um nesta cidade que depende da extravagância dos jogadores e turistas. A queda nos gastos é relativamente modesta, de alguns poucos pontos percentuais aqui e acolá. Mas Las Vegas possui um número imenso de novos cassinos e hotéis prestes a ser concluídos nos próximos anos, e uma longa recessão nacional poderia fazer a cidade cambalear.

A situação de Las Vegas poderia ser pior se não fosse pelos turistas estrangeiros. Eles estão aproveitando o dólar desvalorizado para saborear pratos de chefs célebres como Alex Stratta e para comprar bens que poderiam custar quase o dobro na Europa.

Para administrar a desaceleração, Las Vegas está aumentando sua campanha de marketing no exterior, e nos Estados Unidos está incentivando escapadas espontâneas à cidade. "Faça sem pensar!", diz uma propaganda de televisão.

Mas representando apenas 13% dos turistas, os estrangeiros só podem compensar um percentual limitado da desaceleração. O Deutsche Bank recentemente deu início à execução de um empréstimo para construção, no valor de US$ 760 milhões, do Cosmopolitan Resort and Casino, um projeto parcialmente construído no coração da Las Vegas Strip.

O Crown Las Vegas, um hotel resort em forma de bala e cassino que supostamente seria o prédio mais alto da cidade, foi engavetado há poucas semanas por falta de financiamento.

Uma das operadoras de cassino mais proeminentes em Las Vegas, a Tropicana Entertainment, disse na segunda-feira que pedirá proteção contra falência. A empresa, que passa por dificuldades financeiras, fez demissões e cortes de despesa em um cassino em Atlantic City que levaram os reguladores de Nova Jersey a cassar sua licença lá; isto provocou um efeito dominó de novos problemas financeiros.

Outros projetos multibilionários de Las Vegas estão enfrentando atrasos ou foram colocados à venda por causa do arrocho no crédito e mudança na forma como Wall Street vê a cidade. Os resorts da cidade já contam com 130 mil quartos, e Wall Street -que financiou grande parte do boom recente- está preocupada que Las Vegas seja incapaz de absorver os 40 mil adicionais que estão nas pranchetas ou em construção.

"Neste mercado, não é bom negócio ser confiante", disse Jan L. Jones, uma vice-presidente sênior da Harrah's Entertainment e ex-prefeita de Las Vegas. "Eu nunca vi uma economia deste jeito nacionalmente. Ninguém sabe quão profunda será esta coisa que ninguém quer chamar de recessão."

Historicamente, Las Vegas se mostrava resistente a recessões, entrando nelas tardiamente e saindo mais cedo do que o restante do país. Os jogadores, particularmente os altos apostadores, tendem a jogar independente de como soprem os ventos econômicos.

Mas os executivos daqui temem que esta recessão poderá ser diferente das duas últimas -em 1990-1991 e em 2001- quando os gastos dos consumidores eram estimulados pelo crédito fácil. Agora o crédito está secando. E os altos preços da gasolina e alimentos, a desvalorização dos imóveis e o aumento do desemprego estão mantendo muitos americanos mais próximos de casa.

Mais importante, nas últimas duas décadas Las Vegas mudou de um destino dominado por jogadores para um com mais apelo a compradores, freqüentadores de restaurantes, golfistas e outros de classe média que podem arcar com gastanças breves. Apesar do jogo representar 58% da receita dos resorts de Las Vegas em 1990, ele representou apenas 41% da receita em 2007, segundo um relatório do Deutsche Bank.

À medida que o jogo passou a ser legalizado em mais partes do país nos últimos anos, Las Vegas foi forçada a expandir suas próprias opções para continuar crescendo. Funcionou, mas deixou a cidade mais suscetível a declínios causados por recessão na renda disponível.

"Las Vegas agora está tão vulnerável quanto outras comunidades", disse J. Terrence Lanni, presidente do conselho do MGM Mirage.

Mas Lanni disse que vê um aspecto positivo na desaceleração. Ele prevê que um grande percentual dos 40 mil novos quartos planejados até 2012 serão adiados, dando a Las Vegas tempo para desenvolver o aeroporto e outras obras de infra-estrutura que permitirão uma expansão mais suave.

É claro que Las Vegas atualmente parece uma zona de pobreza tanto quanto um acampamento religioso. O Caesars Palace está preparando uma reforma bilionária, incluindo uma torre de 23 andares e três novas piscinas. De fato, grande parte da Strip parece um gigantesco canteiro de obras, com as luzes dos guindastes competindo com o néon dos cassinos. O projeto CityCenter de US$ 8 bilhões do MGM Mirage sozinho ocupa 30 hectares.

Mas outros números contam uma história sombria. A ocupação dos hotéis apresentou queda em janeiro e fevereiro, os números mais recentes disponíveis, de 1,5%, apesar da diária média estar 3,8% mais barata do que no ano anterior. A receita do jogo na área metropolitana de Las Vegas caiu 4% no mesmo período.

E as desvalorizações de dois dígitos nas ações de resorts em Wall Street sugerem que os investidores vêem maiores problemas à frente.

"Está acelerando no lado negativo", disse Bill Lerner, um analista sênior de jogo do Deutsche Bank, que mora em Las Vegas. "A economia de Las Vegas está refletindo mais a economia geral do que antes." Os turistas em Las Vegas disseram em entrevistas recentes que estão gastando menos do que no passado.

Rita Keene, uma gerente de risco de seguradora aposentada de Collinsville, Illinois, disse que vem várias vezes a Las Vegas por ano desde 1978 e nunca estabeleceu limites aos seus gastos em jogo. Neste ano ela não está apostando mais do que US$ 300 por dia nos caça-níqueis e não assistirá shows.

"Nós temos investimentos e você sabe como o mercado de ações está se saindo", ela disse enquanto colocava moedas em um caça-níqueis no cassino Orleans. "Meu marido e eu até mesmo conversamos sobre esta talvez ser nossa última vez."

Enquanto os americanos cortam gastos, os estrangeiros estão ajudando a escorar a economia de Las Vegas. A Autoridade de Convenções e Turismo de Las Vegas relata que o turista estrangeiro gastou em média US$ 1.200 para fins fora jogo em 2007, um aumento em relação aos US$ 1.159 em 2006. Isto em comparação ao gasto médio de US$ 701 para todos os turistas em 2007, uma queda em comparação a US$ 750 no ano anterior.

Gil Colon, gerente de vendas da loja de antiguidades e decoração Villa Reale, disse que seus negócios caíram um pouco, mas que seria pior se não fosse pelos turistas estrangeiros, que representavam 30% de seus negócios há dois anos e agora representam 50%.

Recém-chegado com sua família a Las Vegas, Murat Sahsuvar, um hoteleiro turco, entrou na loja à procura de 24 candelabros de cristal para um hotel que está construindo em Istambul. Sahsuvar disse que planeja comprar relógios Vacheron Constantin e Patek Philippe para si mesmo e sua esposa, jantar no melhor restaurante italiano da cidade e se divertir um pouco na mesa de pôquer no Bellagio.

"Nós economizaremos muito dinheiro nos relógios, pelo menos 5 mil euros", ele disse. Esta soma, equivalente a quase US$ 8 mil por causa da desvalorização do dólar frente ao euro, "pagará meu hotel, minha viagem e minha alimentação enquanto estiver em Las Vegas". George El Khouri Andolfato

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