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07/05/2008

60 anos de Estado de Israel: os árabes israelenses ainda se sentem indesejados

The New York Times
Ethan Bronner
Em Jerusalém
Quando o Estado de Israel comemorar o seu 60° aniversário nas próximas semanas, com muita alegria devido ao renascimento nacional judaico e aos valores democráticos, os árabes, que são 20% do total de cidadãos do país, não estarão celebrando. Em melhor situação, mais bem integrados e mais livres do que a vasta maioria dos outros árabes, os 1,3 milhão de árabes de cidadania israelense ainda estão em uma situação bem pior do que a dos judeus israelenses e sentem-se cada vez mais indesejados.

Na próxima quinta-feira, que é o Dia da Independência, milhares de árabes irão se concentrar nas aldeias em que antigamente moravam para protestar contra aquilo que chamam de "nakba", ou catástrofe, termo que usam para referirem-se à criação de Israel. Para a maioria dos israelenses a identidade judaica é uma questão fundamental para a nação, a razão pela qual eles se orgulham de viver aqui e o vínculo com a História. Mas os árabes israelenses, incluindo aqueles que se integraram com mais sucesso, afirmam que uma nova identidade precisa ser encontrada para garantir a sobrevivência do país no longo prazo.

"Eu não sou judeu", protesta Eman Kassem-Sliman, um radiojornalista árabe que fala um hebraico impecável, e cujos filhos estudam em uma escola predominantemente judaica em Jerusalém. "Como posso pertencer a um Estado judeu? Se eles definirem isto como um Estado judeu, estarão negando a minha presença aqui".

Rina Castelnuovo/The New York Times 
Árabes israelenses rezam em uma mesquita de Nazaré, em Israel

O choque entre a estimada herança cultural da maioria e as esperanças da minoria é mais do que um atrito. E hoje em dia, até mais do que durante as grandes comemorações de meio século de criação do Estado judeu, uma década atrás, a esquerda e a direita enxergam cada vez mais os árabes israelenses como um dos desafios centrais para o futuro de Israel - um obstáculo intransponível para um acordo amplo entre judeus e árabes. O que os judeus mais temem é perder a batalha demográfica para os árabes, tanto dentro de Israel como no maior território controlado pela nação.

Muitos dizem que da mesma forma que um fim da identidade judaica do país significaria um fim do Estado, um fracasso da tarefa de instilar nos cidadãos árabes uma sensação de que pertencem a Israel seria perigoso, já que os árabes promovem a idéia de que, com 60 anos ou não, Israel é um fenômeno passageiro.

"Quero convencer o povo judeu de que ter um Estado judeu é algo de ruim para eles", afirma Abir Kopty, que defende os direitos dos árabes israelenses.

A questão da terra é especialmente delicada. Por todo o Estado de Israel, e especialmente no norte, há ruínas de dezenas de vilas palestinas desabitadas, cicatrizes na paisagem resultantes do conflito que deu a luz ao país em 1948.

Mas alguns habitantes originais e os seus descendentes, todos árabes israelenses, moram em vilas e aldeias super populosas, muitas vezes perto das suas antigas aldeias, e estão proibidos de reocupá-las enquanto as comunidades judaicas em torno deles são estimuladas a se expandir.

Em uma tarde morna recente, Jamal Abdulhadi Mahameed dirigiu por uma estrada de terra que corta campos de trigo e melancias em um kibbutz, ladeada de pinheiros e cactus. Ele galgou as ruínas de uma escada e declarou ao vento: "Esta é a minha casa. Foi aqui que eu nasci".

Ele diz que o que mais deseja hoje em dia, aos 69 anos de idade, é sair da cidade lotada ao lado, voltar ao seu terreno abandonado, no qual restaram romãzeiras plantadas pelo seu pai, e cultivar a terra, conforme fizeram várias gerações que viveram antes dele. Ele foi à justiça para reaver a terra.

Mahameed não é nenhum revolucionário e, sob quase todos os aspectos, é um cidadão pacato e bem-sucedido. Uma das suas filhas é médica. Dois filhos são advogados e um é engenheiro. Mas, por ser árabe, o seu pedido para retornar à sua terra vai de encontro a uma antiga política israelense.

"Estamos proibidos de usar a nossa própria terra", queixa-se Mahameed, de pé naquela que já foi a vila de Lajoun, e que hoje é uma mistura de mato e pinheiros rodeada pelos campos do kibbutz Megiddo. "Eles querem manter a minha terra disponível para os judeus. A minha filha não faz distinção entre pacientes judeus e árabes. Por que o Estado me trata de forma diferente?"

A resposta tem a ver com a própria essência do sionismo - o movimento para o renascimento judaico e o controle da terra na qual um Estado judeu prosperou pela primeira vez há mais de 2.000 anos.

"Terra é presença", opina Clinton Bailey, um acadêmico israelense que pesquisa a cultura beduína. "Se quisermos estar presentes aqui, precisamos ter terra. O país não é tão grande assim. Aquilo que é cedido aos árabes não pode mais ser usado para acomodar os judeus que ainda podem querer vir para cá".

Um Estado palestino é visto por muita gente como uma potencial solução para as tensões com os palestinos da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, mas qualquer conflito profundo com os próprios cidadãos árabes de Israel poderá ser algo muito mais complexo.

O antagonismo existe dos dois lados. Muitos árabes israelenses expressam solidariedade aos palestinos que vivem sob a ocupação, enquanto outros elogiam o Hezbollah, o grupo anti-Israel no Líbano. E alguns parlamentares árabes acusam freqüentemente Israel de praticar nazismo.

Por outro lado, vários rabinos de direita emitiram ordens proibindo os judeus de alugarem apartamentos a árabes ou de empregá-los. E, segundo as pesquisas, a maioria dos judeus é favorável à proposta da retirada dos árabes de Israel como parte de uma solução baseada em dois Estados, uma idéia que era considerada muito radical uma década atrás.

Os árabes daqui rejeitam a idéia, em parte porque preferem a certeza de uma democracia israelense imperfeita do que se sabe lá que sistema possa ser criado em um frágil Estado palestino. Isto é parte do paradoxo dos árabes israelenses. A fúria deles aumentou, mas também a sensação de que pertencem ao país.

Na verdade, a retórica ansiosa e recriminatória de ambos os lados transmite uma falsa impressão de que há uma tensão constante. Em muitos lugares existe um nível real de coexistência árabe-judaica, e recentemente o governo comprometeu-se com ações afirmativas para os árabes nos setores de educação, infra-estrutura e empregos públicos.

"Sabemos que eles necessitam de mais terra, que os filhos deles precisam de um lugar para morar", diz Raanan Dinur, diretor-geral do gabinete do primeiro-ministro. "Estamos trabalhando no sentido de construir uma nova cidade árabe no norte. O nosso principal objetivo é pegar aquilo que atualmente são duas economias e integrá-las em uma economia única".

Porém, há o temor de que o tempo seja curto.

Mahameed e os seus amigos da vila chegarão ao supremo tribunal do país em julho com o objetivo de recuperar 20 hectares da terra que pertencia às suas famílias e que atualmente não é cultivada, a não ser pelos pinheiros plantados pelo Fundo Nacional Judeu.

A história deles é parte de uma história maior: depois que a Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) votou no final de 1947 a favor da criação de dois Estados na Palestina, um árabe e um judeu, milícias árabes locais e os seus apoiadores regionais atacaram os assentamentos judaicos, furiosos com o apoio da ONU a um Estado judeu. As forças sionistas contra-atacaram. Centenas de vilas palestinas, incluindo Lajoun, foram evacuadas e quase completamente destruídas.

Os árabes palestinos tornaram-se refugiados na Jordânia, no Líbano e na Faixa de Gaza, que à época era controlada pelo Egito. Mas alguns, como Mahameed, permaneceram em Israel. Eles receberam cidadania israelense e a promessa de igualdade, mas jamais a obtiveram.

Aqueles que partiram ou que foram expulsos das suas vilas não tiveram permissão para voltar, e, em muitos casos, passaram os últimos 60 anos a alguns quilômetros das suas antigas moradias, vendo as suas terras serem cultivadas por judeus recém-chegados, ou servirem de canteiros de obras para a construção de moradias para esses novos habitantes, muitos deles refugiados da opressão nazista ou do anti-semitismo soviético.

Em 1953, o parlamento israelense declarou que cerca de 121 mil hectares de terras das vilas capturadas passaram a ser propriedade do governo com o objetivo de abrigarem assentamentos ou por questões de segurança.

Mahameed e os outros 200 árabes israelenses que entraram com uma ação na justiça vivem aglomerados na aldeia de Um el-Fahm, perto das suas antigas terras.

"A nossa alegação é que, como a terra não foi usada durante todos esses anos, não havia necessidade de confiscá-la", diz Suhad Bishara, um advogado do Adalah, um grupo com sede em Haifa dedicado à defesa dos direitos dos árabes israelenses.

O argumento de Bishara foi rejeitado no fórum local, que concordou com a opinião do governo de que os pinheiros e uma estação de tratamento de água em Lajoun caracterizam um assentamento. Para Bishara, a determinação faz parte de uma longa tradição de trapaças dos sistemas legal e político de Israel, que quase sempre impedem o aumento do uso das terras pelos árabes.

Não é difícil perceber a lacuna entre árabes e judeus em quase todas as áreas - saúde, educação e emprego, bem como em investimentos do governo. O número de famílias árabes que vive abaixo da linha da pobreza é três vezes maior do que o de famílias judaicas, e um estudo governamental feito há cinco anos mencionou a necessidade de se remover "a nódoa da discriminação".

Dinur, do gabinete do primeiro-ministro, interessou-se pela questão e reuniu-se várias vezes com lideranças árabes. Ele diz que pode ser possível que um dia os árabes retornem às suas aldeias nativas, mas isso só aconteceria como parte de um processo maior de integração e reconciliação regional. Caso contrário, diz ele, os judeus israelenses teriam medo de que o objetivo dos árabes fosse recuperar todo o território perdido na guerra de 1948.

Para muitos israelenses, o desafio representado pelos árabes não pode ser separado daquilo que eles vêem como os riscos na região - a influência ascendente do Irã, o crescimento do radicalismo islâmico e o temor de que uma nova guerra no Líbano ou na Faixa de Gaza possa não estar muito distante.

Michael Oren, do Instituto Shalem, um grupo de pesquisas em Jerusalém, diz que quando o exército prepara-se para a guerra, ele inclui nos seus planos a forma de lidar com a possibilidade de os árabes israelenses insurgirem-se contra o Estado.

Muitos também acreditam - e nisto judeus e árabes parecem concordar - que sem uma solução para a questão palestina na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, as tensões internas não diminuirão. E, tendo em vista o pessimismo quanto às negociações de paz com os palestinos, as previsões não são boas.

Para muitos judeus israelenses que há muito resistiam à idéia de um Estado palestino, foi a percepção de que estavam perdendo a batalha demográfica para os palestinos que os fez mudar de opinião. Mas é claro que o desafio populacional também diz respeito aos árabes de Israel.

Os árabes israelenses têm plena consciência desta disputa. E alguns acreditam que o tempo está do lado deles.

"Israel está vivendo dentro do círculo árabe-islâmico", afirmou em uma entrevista Raed Salah, diretor do Movimento Islâmico de Israel. "É importante enxergar a porcentagem judaica nesse contexto mais amplo no longo prazo".

Abdulwahab Darawshe, um ex-membro do parlamento israelense e atual presidente do Partido Democrático Árabe, disse recentemente, sentado no seu escritório em Nazaré: "Não importa o que aconteça, não sairemos daqui novamente. Isso foi um grande erro cometido em 1948. Mas a nossa identidade está tornando-se cada vez mais palestina. É impossível nos podar da árvore árabe".

Ao ser indagado a respeito dos seus planos para o Dia da Independência de Israel, ele afirmou: "Pegarei uma pá e vou trabalhar na terra em volta das minhas oliveiras". UOL

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