UOL Notícias Internacional
 

07/05/2008

Cena cultural vibrante da Hungria esbarra no anti-semitismo

The New York Times
Michael Kimmelman
Em Budapeste, Hungria
A causa aparentemente foi um show de rock, provando que a cultura não é província exclusiva de liberais, certamente não aqui na Europa. Uma jovem (que deve saber se estava querendo criar problemas) entrou há várias semanas em uma bilheteria do 13º distrito desta capital húngara, um bairro tradicionalmente judeu, e perguntou sobre a Hungarica, uma banda obscura de extrema direita.

A mulher disse que os agentes da bilheteria a chamaram de fascista e a expulsaram. Os agentes disseram que ela fez um discurso anti-semita quando lhe disseram que não vendiam ingressos para o evento. Um pouco mais tarde, alguém jogou um coquetel molotov na frente da bilheteria. Depois, um blogueiro, Tamas Polgar, com o nome virtual de Tomcat, incitou os neonazistas a se reunirem diante da bilheteria. No dia 7 de abril, apareceram cerca de 30 neonazistas, junto com 300 contra-manifestantes. Tomcat convocou um segundo comício para quatro dias depois, que reuniu cerca de 1.000 extremistas. Do outro lado das barricadas da polícia, havia 3.000 antifascistas, inclusive o primeiro-ministro em dificuldades, Ferenc Gyurcsany, e o ex-chanceler alemão Gerhard Schroeder.

É difícil saber se devemos nos desanimar com a grande aparição de neonazistas ou nos animar com a maior oposição a eles. Acontece que, além do crescimento bem documentado da extrema direita, a cultura judaica também vem crescendo claramente aqui.

O anti-semitismo, contudo, pode prosperar mesmo na ausência de um único judeu. A história provou isso repetidamente. A Hungarica serviu seu propósito sem ter que tocar uma única nota.

Noutro dia, Gyorgy Kerenyi, produtor da rádio pública húngara que fundou uma estação dirigida por ciganos, observou que a contracultura de hoje entre os alunos da universidade onde leciona muitas vezes parece nacionalista e de direita, nascida de uma velha tradição de vanguarda européia. Será pela ausência de engajamento político do outro lado do espectro?

Primeiro, indaguei em uma galeria de arte e teatro da prefeitura chamada Trafo. A galeria recentemente organizou uma mostra de um artista polonês, Artur Zmijewski. (Entre outras coisas, Zmijewski fez um vídeo no qual ele retoca a tatuagem de um sobrevivente polonês de Auschwitz, talvez judeu, talvez não.) O teatro apresentou uma trupe holandesa, Hotel Modern, que fez uma peça sobre o holocausto. Os dois eventos foram sensíveis, de formas complexas, a questões de anti-semitismo.

Contudo, como observou o diretor do Trafo, Gyorgy Szabo, os artistas envolvidos eram estrangeiros, não húngaros. "Na comunidade artística húngara, não temos a tradição de confronto", disse ele. Obviamente, não estava pensando na Hungarica.

Depois ele voltou à era comunista: "Antes, havia um tratado social que dizia que você podia ter sua privacidade enquanto artista se não tocasse em questões políticas."

Peter Gyorgy, professor de teoria da mídia e crítico de arte (que escreveu com admiração sobre a mostra de Zmijewski no principal jornal húngaro) concordou com Szabo quando soube o que tinha dito. Como todos, admitiu que o anti-semitismo hoje é mais declarado.

"A Hungria é uma sociedade profundamente traumatizada desde a primeira grande guerra e o Holocausto, é claro", disse Gyorgy. "No comunismo húngaro, ser judeu era uma questão privada. Então, depois do comunismo, no início dos anos 90, quando começou o sistema de vários partidos, perdemos nossa chance de adotar um discurso público sobre a situação. Agora, há uma confluência: a instabilidade do governo, o ódio ao primeiro-ministro e o fato de a cultura judaica ter se tornado mais declarada. Uma nova geração de judeus emergiu que se comporta como judia."

Ele está falando especialmente dos jovens judeus, não necessariamente religiosos, mas que tampouco se envergonham em se identificar culturalmente como judeus. "Ser judeu hoje é uma questão de cultura pública da pessoa", prosseguiu Gyorgy. Durante a era comunista, muitos judeus cresceram quase sem saber que eram judeus; como foi o caso dele. "Antes, eu era definido de uma forma que eu podia influenciar", disse Gyory. "Agora, como aconteceu na Alemanha e na Áustria, isso acabou. No ambiente político de hoje, há menos espaço para a auto-definição autônoma. Você é forçado a assumir seu próprio judaísmo, a vê-lo como um problema."

Agoston Mraz, um jovem analista político do centro de estudos húngaro Nezopont, escreveu de forma ligeiramente diferente: "Há um novo pluralismo judeu, e a cultura judaica está florescendo em Budapeste. Um resultado é que, há hoje uma oportunidade de ser mais explícito sobre o anti-semitismo, apesar de eu não achar que haja um aumento claro" nesse movimento.

Isso, contudo, é apenas parte da história. Alguns meses atrás, um burocrata do governo francês chamado Jean Pierre Frommer, quando soube de um movimento para proteger o Gueto judeu de Budapeste, pediu assinaturas em apoio ao esforço com uma carta aberta na mídia húngara. Ele disse a um jornal literário húngaro que ficou chocado quando seu gesto provocou reações anti-semitas, apesar da maior parte dos judeus ter trocado o bairro pelo 13º distrito ou outros lugares.

"Está em jogo o destino de algo que é importante para todos nós", disse Frommer ao jornal Elet es Irodalom. "O que os húngaros devem entender é que esta não é apenas uma questão para os judeus, mas para Budapeste, para o país", referindo-se a preservação do bairro.

Acontece que os húngaros do lobby para preservar o Gueto insistem que o anti-semitismo não foi um problema para seu esforço. Pelo contrário, eles disseram que o verdadeiro problema veio dos construtores imobiliários, muitos dos quais são israelenses que fecharam acordos com os políticos. Eles disseram que foi por coincidência que todos os principais membros de seu grupo de preservação são judeus.

Um deles é Janos Ladanyi, sociólogo especializado em ciganos. Encontramo-nos certa manhã em um café perto do Castelo Buda. Ele descreveu duas correntes de anti-semitismo húngaro, uma cultural e outra política. Culturalmente, "há uma crença geral que o anti-semitismo, o racismo, é a negação do direito de ser diferente", disse ele. "Na Hungria de hoje, não há problema se a pessoa se comportar como judia religiosa. O Gueto é bom por esta razão. É uma entidade histórica distinta. Mas o que está sendo negado agora é que os judeus são iguais aos não judeus. O problema vem quando dizemos que somos como eles."

Talvez. Noutro dia, na sinagoga ortodoxa no Gueto, que é uma obra de art nouveau de 1912, um guia de 60 anos, Gabor Zoltan, ofereceu-se para mostrar o local. Ele disse que pela primeira vez podia se lembrar que era ridicularizado abertamente nas ruas, há não muito tempo, por usar um solidéu.

Um professor que freqüentemente aparece na televisão e nunca falou da questão de ser judeu, disse que recentemente um motorista parou para ele atravessar a rua. Depois, desceu o vidro da janela para anunciar que, em geral, atropelaria um judeu, mas mudou de idéia ao reconhecer o professor.

O professor preferiu não ser identificado, assim como um húngaro de cerca de 40 anos que passou anos investigando a discriminação no país. Ele ficou chocado com seus pais, de quem nunca tinha ouvido uma palavra contra os judeus durante o comunismo, enquanto crescia. Subitamente, eles começaram a fazer pequenas observações anti-semitas.

Os húngaros temem que se exagere o problema. Eles dizem que, apesar de permear a cultura, não é nada como a discriminação contra os ciganos (como se isso fosse consolo). Eles sugeriram que o anti-semitismo talvez não seja pior aqui do que em outros países do leste e do centro da Europa. Tibor Frank, historiador húngaro, descreveu a situação no contexto de preconceitos antigos que associam os judeus a desastres nacionais como a revolta bolchevique de 1919 e os anos de governo comunista, quando muitos líderes eram judeus. Hoje, essas associações foram transmitidas aos socialistas problemáticos. "A questão judaica", disse ele, "é parte de uma reavaliação maior de nossa história".

De qualquer modo, ele e outros acrescentaram que o anti-semitismo se tornou uma questão política explorada pelos dois principais partidos, agora que a coalizão governante dividiu-se e a economia está em queda livre. O partido socialista acusa o Fidesz, partido de oposição de centro-direita, de não se distanciar firmemente dos extremistas de direita. E o Fidesz diz que quando estava no poder não havia problema extremista.

Enquanto isso, os grupos de extrema direita se beneficiam, ocupando o espaço público deixado pelos liberais culturais relutantes, entre outros. Como disse Szabo do Trafo: "Precisamos aprender novamente a nos envolver."

Isso seria um começo. Deborah Weinberg

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