UOL Notícias Internacional
 

07/05/2008

Friedman: os americanos não são quem pensam ser

The New York Times
Thomas L. Friedman
Colunista do The New York Times
Estive viajando pelo país durante os últimos cinco meses, enquanto escrevo um livro, e tive a oportunidade de sentir o pulso da situação, longe das multidões da campanha eleitoral. Minha própria pesquisa eleitoral, totalmente não científica, deixou-me com a sensação de que, se existe uma fome gigantesca hoje em nosso país, é uma fome de reconstrução. As pessoas de fato querem isso. E querem que a reconstrução aconteça nos Estados Unidos.

Elas não estão somente cansadas da reconstrução no Iraque e no Afeganistão, da qual nada usufruem. Elas estão percebendo algo mais profundo - que não somos mais tão fortes como antigamente. Estamos emprestando dinheiro de cidades-Estado como Dubai e Cingapura para ancorar os nossos bancos. Nossos generais relatam com freqüência que o Irã está subvertendo nossos esforços no Iraque, mas não fazem nada a respeito porque não temos poder para isso - enquanto nossas forças estiverem estabelecidas em Bagdá e nossa economia baseada no petróleo do Oriente Médio.

A última iniciativa em relação à política energética por parte do nosso presidente foi ir à Arábia Saudita e implorar para o Rei Abdullah para nos dar algum alívio nos preços da gasolina. Creio que houve uma certa justiça nisso. Já que ele, presidente, disse ao país inteiro para ir às compras depois do atentado de 11 de setembro em vez de usar de determinação para romper com o nosso vício em petróleo, é justo que agora ele tenha que sair pelo mundo para pechinchar por um desconto na gasolina.

Não somos mais tão poderosos quanto costumávamos ser porque, durante as últimas três décadas, os valores asiáticos da geração de nossos pais - trabalhe duro, estude, economize, invista, viva de acordo com seus meios - deram lugar a valores "subprime", inferiores: "você pode ter o sonho americano - uma casa - sem dar entrada e sem pagar nada por dois anos."

É por isso que a defesa infame de Donald Rumsfeld sobre por que ele não enviou mais tropas para o Iraque tornou-se o mantra dos nossos tempos: "você vai para a guerra com o exército que tem". Ei, você caminha em direção ao futuro como o país que tem - não com o país que precisa, não com o país que deseja, não com o melhor país que poderia ter.

Algumas semanas atrás, minha mulher e eu saímos do Aeroporto Kennedy em Nova York com destino a Cingapura. Mal conseguimos encontrar um lugar para sentar no salão de espera do JFK. Dezoito horas depois, pousamos no ultramoderno aeroporto de Cingapura, com acesso à Internet gratuito e playgrounds para crianças por toda a parte. Como já havia acontecido antes, sentimos como se estivéssemos voando da terra dos Flinstones para a terra dos Jetsons. Se todos os americanos tivessem a oportunidade de comparar a luxuosa estação central de trens de Berlim hoje com a suja e decrépita Penn Station na cidade de Nova York, eles jurariam que fomos nós que perdemos a Segunda Guerra Mundial.

Como isso é possível? Nós somos uma grande potência. Como é possível que estejamos emprestando dinheiro de Cingapura? Talvez seja porque Cingapura investe bilhões de dólares, de seu próprio tesouro, em infra-estrutura e pesquisa científica para atrair os maiores talentos do mundo - incluindo americanos.

E nós? A presidente de Harvard, Drew Faust, disse recentemente a uma comissão do Senado que os cortes nos fundos de pesquisa do governo estavam resultando em "redução dos laboratórios, suspensão de bolsas de pós-doutorado, queda do moral e na prática de uma ciência conservadora que se esquiva dos grandes temas de pesquisa." Hoje, acrescentou, "a China, a Índia e Cingapura (...) adotaram a pesquisa biomédica e a implementação de cursos acadêmicos de biotecnologia como prioridades nacionais. De repente, os acadêmicos americanos encontram oportunidades mais significativas em outros lugares."

Muito nonsense tem sido dito sobre o fato de Hillary Clinton estar "endurecendo" Barack Obama para que ele seja forte o suficiente para suportar os ataques dos republicanos. Desculpa, mas não precisamos de um presidente que seja forte o suficiente para suportar as mentiras de seus oponentes. Precisamos de um presidente que seja forte o suficiente para dizer a verdade ao povo americano. Qualquer um dos candidatos é capaz de atender o Telefone Vermelho às 3 da manhã em seu quarto na Casa Branca. Mas prefiro votar naquele que é capaz de falar com clareza para o povo americano em rede nacional de TV - às 8 da noite - da Sala Leste da Casa Branca.

Quem vai dizer a verdade às pessoas? Que não somos quem pensamos ser. Que vivemos com tempo emprestado e moedas emprestadas. Ainda temos o potencial para a grandeza, mas somente se nos voltarmos para trabalhar em nosso próprio país.

Não sei se Barack Obama é capaz de liderar o país nesse sentido, mas a noção de que o idealismo que ele inspirou em tantos jovens não tem importância está completamente equivocada. "É claro, a esperança, sozinha, não é o suficiente", diz Tim Shriver, presidente dos Jogos Paraolímpicos, "mas não é banal. Não é banal ser capaz de inspirar as pessoas a se levantarem e fazerem alguma coisa juntas."

Isso não é banal sobretudo agora, porque milhões de americanos estão se voluntariando - para reformar a educação, para pesquisar energias renováveis, para reparar nossa infra-estrutura, para ajudar os outros. Basta olhar para os jovens fazendo fila para trabalhar no programa "Ensine pela América". Eles querem que nosso país seja importante novamente. Eles querem que o país esteja baseado na construção de riqueza e dignidade - em grandes lucros e grandes propósitos. Quando privilegiamos apenas um desses aspectos, somos menos do que a soma das partes. Quando trabalhamos pelos dois, diz Shriver, "nada pode nos afetar". Eloise De Vylder

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