UOL Notícias Internacional
 

07/05/2008

Tarefas difíceis aguardam o novo presidente da Rússia

The New York Times
C.J. Chivers*

Em Moscou
Quando Dmitri A. Medvedev, o presidente eleito da Rússia, prestar o juramento de posse na quarta-feira no Kremlin, as cerimônias misturarão nostalgia soviética, símbolos czaristas e um pavoneamento russo refletindo um orgulho nacional renovado, creditado aos oito anos de governo do presidente Vladimir V. Putin.

O Kremlin então planeja coroar a ocasião, na sexta-feira, com uma parada militar triunfante na Praça Vermelha, de um tipo não visto desde os anos da Guerra Fria, completa com sobrevôos de bombardeiros estratégicos e colunas trovejantes de tanques.

Medvedev, 42 anos, será o terceiro presidente da Rússia pós-soviética e a mais nova fonte de especulação. Ele apresentou um auto-retrato enigmático, às vezes sugerindo que grandes mudanças são necessárias -incluindo ataques à corrupção manifesta do país e redução do inchaço de sua burocracia- e em outras insistindo que ele seguirá amplamente o caminho escolhido por Putin, seu mentor.

James Hill/The New York Times 
Dmitri Medvedev diante de soldados russos se prepara para depositar flores em memorial

Mas não há dúvida de que ele assumirá um portfólio e uma posição mais difíceis do que as celebrações sugerem.

Os desafios políticos não são invejáveis, apesar da Rússia ter se recuperado de seu estado severamente enfraquecido. Medvedev enfrenta uma inflação em alta acentuada, uma burocracia de tamanho exagerado, corrupção generalizada, um fraco Judiciário e um declínio da população alimentado por uma baixa taxa de natalidade, atendimento de saúde abaixo do padrão e saúde pública ruim.

A economia do país é estreita e excessivamente dependente da riqueza dos recursos naturais, enquanto muitos setores -incluindo a agricultura e a alta tecnologia- são subdesenvolvidos. Os círculos de burocratas, empresários e ex-oficiais do serviço de segurança que governam o país, cuja lealdade a Medvedev não é testada, estão divididos por lutas internas.

Medvedev também enfrenta tensões no Cáucaso, ao longo da fronteira montanhosa do sudoeste da Rússia, onde a Geórgia, um ex-satélite do Kremlin, tem acusado a Rússia de começar a anexar o enclave separatista da Abkhazia, e incitar uma guerra.

Além disso, Medvedev, que nomeará Putin como primeiro-ministro já na quinta-feira, governará segundo um novo modelo de governo e com uma base de poder incerta. Sua posição foi minada antes mesmo de sua posse pelos relatos de que Putin pretende continuar controlando o poder do seu gabinete de primeiro-ministro.

Um jornal russo noticiou nesta semana que Putin planeja quase dobrar o número de vice-primeiro-ministros, fornecendo empregos para seu séquito e institucionalizando a noção de um premiê forte, que controla grande parte dos assuntos do Estado.

Stephen Sestanovich, um alto membro do Conselho de Relações Exteriores, disse que sejam quais forem as escolhas políticas que Medvedev venha a fazer, o grau com que será capaz de buscar sua própria visão para o futuro da Rússia, em vez de ficar limitado à de Putin, ainda não está claro.

"Ele tem algum poder?", disse Sestanovich. "Ele é uma figura decorativa?"

Ele acrescentou: "É claro, nós ainda não sabemos muito a respeito disso".

Segundo muitas medidas, e apesar de alguns reveses espetaculares e passos em falso, os anos de Putin no governo foram acompanhados por uma série de feitos, todos imprevistos quando ele saiu da obscuridade do mundo da espionagem há oito anos.

A renda pessoal de muitos russos cresceu acentuadamente, soldados russos e seus substitutos derrotaram e marginalizaram grande parte das forças separatistas na Tchetchênia e o Kremlin pagou as dívidas externas antes do prazo.

O valor do mercado de ações russo foi às alturas. As principais cidades do país passam por booms de construção e as lojas urbanas estão repletas de bens. Estilos de vida de consumo e férias no exterior se tornaram disponíveis para um grande segmento da população pela primeira vez.

Putin simultaneamente fez o papel de contraste aos Estados Unidos, recebendo e se encontrando com líderes nacionais antagonistas de Washington, como Aleksandr G. Lukashenko, de Belarus; Hugo Chávez, da Venezuela; Islam A. Karimov, do Uzbequistão; e Mahmoud Ahmadinejad, do Irã, entre outros. Ele lembrou suas platéias de que foi consistentemente contrário à invasão ao Iraque e ao que chamou de interferência americana nos assuntos domésticos das ex-repúblicas soviéticas.

Após o colapso econômico e os embaraços públicos que acompanharam o governo do presidente Boris N. Yeltsin, o orgulho nacional foi significativamente restaurado. Muitos russos agora planejam seus futuros de forma que não podiam há uma década.

Mas novos problemas surgiram e continuam os problemas que até agora não conseguiram ser resolvidos pelo Kremlin. Medvedev, que prefere ioga em vez do judô de Putin, enfrenta vários problemas que continuam a obscurecer as projeções sobre o futuro da Rússia.

Os principais entre eles, disse Anders Aslund, um alto membro do Instituto Peterson para a Economia Internacional, em Washington, são a inflação, o mal estado da infra-estrutura pública e a corrupção endêmica.

Durante o primeiro ano de Putin no governo, os preços do petróleo eram de US$ 20 a US$ 30 o barril. Hoje, os preços pairam em torno de US$ 120. A Rússia é maior exportadora mundial de energia, e a alta do petróleo foi responsável por grande parte da recuperação econômica do país.

Mas a economia aquecida criou novas pressões. O custo de vida aumentou, pressionado pela bolha imobiliária e pela escalada dos preços dos serviços de utilidade pública, gasolina e alimentos.

A inflação chegou a 13%, espalhando insatisfação e preocupação entre muitos russos, especialmente os aposentados, que lembram da inflação dos anos 90. A classe média também está pressionada. Neste mês, os preços da gasolina chegaram a quase US$ 1 o litro, uma despesa considerável para um país com uma renda familiar que ainda é uma fração da renda no Ocidente.

Várias autoridades russas indicaram que a Rússia em breve permitirá uma valorização do rublo como meio de esfriar a economia. "A maior preocupação é derrubar a inflação, e o único modo de fazer isso é permitir que o rublo flutue para cima", disse Aslund. "Eu acho que Medvedev vai adotar a política do rublo forte."

Soluções a longo prazo são mais desafiadoras. A produção de petróleo começou a cair, e a infra-estrutura da Rússia data em grande parte dos tempos soviéticos. Os imensos investimentos necessários para reanimar ambos criariam mais pressões inflacionárias.

Aslund disse que os esforços em investimento de capital correm o risco de ser arruinados pela corrupção, que é tão predominante que as propinas em obras públicas e projetos de energia podem chegar a 50%.

"Não dá para construir infra-estrutura se metade do dinheiro investido vai para propinas", ele disse.

Medvedev, que fez das questões sociais e da estabilidade social os temas centrais de seus comentários públicos, também assume a presidência de um país em risco de declínio populacional acentuado.

A saúde pública russa é ruim o bastante, e a taxa de natalidade baixa o bastante, a ponto de apesar da transformação da Rússia, sua população encolheu. Putin introduziu incentivos há dois anos para encorajar as mulheres a terem mais filhos. Em 2007 houve um aumento na taxa de natalidade e uma pequena diminuição na taxa de mortalidade.

Mas o dr. Murray Feshbach, um demógrafo que estuda saúde pública russa, disse que o aspecto da demografia ainda é desanimador, em parte porque o número de mulheres entre 20 e 29 anos -aquelas que na Rússia são responsáveis pela maior parte dos nascimentos- começará a encolher em 2012.

A população também sofre com tuberculose em uma taxa mais do que o dobro da considerada como sendo epidêmica pela Organização Mundial de Saúde. As mortes por Aids estão aumentando. Um surto de hepatite C, que tem um longo período de incubação, é previsto para até cinco anos.

Sem programas abrangentes para conter estas doenças e reduzir a taxa de mortalidade, disse Feshbach, a Rússia corre o risco de ver um encolhimento do pool de trabalho e maior declínio no tamanho de suas forças armadas nas próximas décadas.

"É preciso atacar todos estes problemas simultaneamente", disse Feshbach. Caso contrário, ele acrescentou, "o impulso básico será cada vez mais para baixo".

Sestanovich disse que há sinais nos discursos de Medvedev de que ele vê o mundo de forma diferente de seu antecessor. Ele pediu por especialistas estrangeiros que contestem o pensamento do governo; enfatizou a necessidade de reduzir o tamanho e poderes do governo; e contestou a suposição, integral para os planejadores centralizados, de que o Estado deve produzir prosperidade.

"Ele não está apenas concorrendo contra os anos 90, como Putin", disse Sestanovich. "Há um tipo de consciência em Medvedev de que ele precisa lidar com as coisas que saíram um pouco errado sob Putin."

Ele acrescentou que parte das tarefas que Medvedev estabeleceu para si mesmo podem estar fora de seu alcance imediato, e que forneceriam meios de medir seu poder com o tempo. "Reduzir o poder da burocracia do Estado?", ele disse. "Esta é uma tarefa bem difícil."

*Michael Schwirtz contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

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