UOL Notícias Internacional
 

08/05/2008

Cerimônia de posse de Medvedev serviu como tributo a Putin

The New York Times
C. J. Chivers

Em Moscou
Dmitri A. Medvedev, o homem do Kremlin e advogado obscuro que nunca teve um cargo eleito, foi empossado presidente da Rússia na quarta-feira no Grande Palácio do Kremlin. A cerimônia, que misturou o esplendor czarista com a renovada confiança russa, marcou a passagem formal de poder do presidente Vladimir Putin para seu jovem e inexperiente protegido.

Mas os eventos também serviram como um tributo à duradoura popularidade de Putin, que Medvedev nomeou primeiro-ministro poucas horas depois de assumir o cargo.

Putin, um ex-líder da KGB que presidiu o renascimento econômico da Rússia enquanto consolidou o poder, fazendo recuar as liberdades civis e liderando um governo acusado de corrupção, chegou à cerimônia sozinho e antes de Medvedev.

Ele desceu de uma limusine preta e parou rapidamente diante do Regimento Presidencial cerimonial, que estava em formação do lado de fora, no frio. "Saudações, camaradas!", ele disse, e foi recebido por uma forte ovação. A respiração dos soldados congelava no ar.

A RÚSSIA EM NÚMEROS
29.fev.2008 - Alexander Zemlianichenko/Reuters
Medvedev (esq.) assume a Presidência no lugar de Putin
População: 142,5 milhões
Expectativa de vida: 65,6 anos
Analfabetismo: 0,6%
PIB per capita: US$ 10.640
Crescimento do PIB: 6,7%
Inflação anual: 9,68%

Fonte: Banco Mundial e CIA - World Factbook 2008
POSSE: PROMESSA DE 'LIBERDADES'
INFOGRÁFICO: QUEM É MEDVEDEV
PODERIO MILITAR EM GRANDE DESFILE
HISTORIADOR ANALISA; OUÇA
CRONOLOGIA DA GESTÃO PUTIN
VEJA FOTOS DA POSSE NO KREMLIN
NYT: TAREFAS DIFÍCEIS À VISTA
CERIMÔNIA DE POSSE POMPOSA
PROBLEMAS ESTRUTURIAIS
ERA PUTIN CHEGA AO FIM
Em um distanciamento de posses anteriores, o líder de saída dirigiu-se então aos mais de 2.400 convidados no interior do Salão Santo André, antes do novo presidente fazer seu juramento. Putin disse que havia cumprido sua promessa, feita oito anos atrás, de servir fielmente ao país e a seus cidadãos. Os comentários pareciam um presságio da continuidade de Putin no poder em Moscou. "É extremamente importante que todos juntos continuem o rumo que já foi tomado e se justificou", ele disse.

Somente então Medvedev, 42 anos, se aproximou do púlpito, pousou a mão sobre uma cópia da Constituição russa e pronunciou o juramento do cargo.

Em um breve discurso depois, ele abordou temas que abraçou desde que Putin o escolheu como seu sucessor, no final do ano passado, e enquanto ele foi conduzido por uma eleição programada.

Ele enfatizou a melhora dos padrões de vida, a educação e o atendimento médico e a modernização da estreita economia da Rússia, que depende do petróleo e do gás, assim como de outras formas de extração de recursos naturais. "Eu gostaria de garantir a todos os cidadãos deste país que vou trabalhar com toda a minha capacidade", ele disse. "Eu percebo totalmente o quanto ainda precisa ser feito."

Medvedev, cuja persona pública é decididamente mais suave que a de Putin, também salientou a importância dos direitos civis, como fez em vários discursos desde que se tornou o presumível presidente-eleito.

Minutos depois, Putin acompanhou o novo presidente para fora e passaram em revista o regimento cerimonial. Quando os dois deixaram o palco, depois da passagem do último pelotão, foi Putin quem indicou o momento para os dois descerem.

A cerimônia foi breve. Mas os comentários semelhantes dos líderes, e o domínio físico de Putin em cada etapa cerimonial, claramente indicavam as questões centrais sobre o que a posse significa para a política e a direção da Rússia.

Putin continuará o político proeminente da nação e o definidor de políticas? Ou Medvedev, cuja carreira se passou à sombra de seu patrono, terá a habilidade e a latitude para escolher os rumos do país?

Medvedev não tem um histórico como membro dos serviços de segurança russos, cujos oficiais subiram nas fileiras do governo e dos negócios sob Putin para tornar-se uma força nacional abrangente e dominante.

Putin, 55, conseguiu manter-se acima desses clãs no governo, muitas vezes em guerra, mediar suas disputas e garantir sua lealdade suficiente para dar a impressão de um país estável, mesmo que não totalmente previsível. Se Medvedev conseguirá navegar sozinho pelas disputas burocráticas e empresariais do país, não está claro.

Medvedev também se apresentou de maneiras paradoxais. Ele muitas vezes elogiou o estilo e as conquistas de Putin, com quem parece ter amizade e apoio em público. Mas em algumas vezes Medvedev desafiou publicamente o regime da lei e a importância dos direitos humanos -temas que enfrentaram pressão intensa durante os dois mandatos de Putin.

Seus críticos disseram que ele é pouco mais que um fantoche de Putin, e que suas promessas de liberalizar o país e seus compromissos com os direitos humanos são minados pelos próprios meios de sua vitória eleitoral, contra fracos candidatos pró-Kremlin. O governo russo não permitiu que verdadeiros candidatos de oposição disputassem a eleição.

Putin, que lidera a Rússia Unida, o partido político dominante, deverá ser confirmado como primeiro-ministro em uma sessão especial do Parlamento nesta quinta-feira. Ele não perdeu tempo para se aproximar do cargo. O Kremlin anunciou que ele pretendia se reunir com líderes parlamentares na tarde de quarta-feira.

Enquanto Putin se deslocava para seu novo papel, os comentários de Medvedev e seu primeiro decreto presidencial -garantindo moradia pública até 2010 para os veteranos da Segunda Guerra Mundial- enfatizavam os assuntos internos.

Uma difícil pasta de política exterior o esperava, incluindo um Ocidente temeroso da Rússia depois do estilo assertivo de Putin, e alegações da Geórgia, um satélite do Kremlin na época soviética que se aproximou do Ocidente nos últimos anos, de que a Rússia tem ameaçado a região separatista da Abkhazia.

Um lembrete dos desafios de política externa chegou quase imediatamente após o fim das cerimônias, quando Marina Litvinenko, a viúva do ex-oficial da KGB Alexander Litvinenko, emitiu um comunicado pedindo que o novo presidente investigue o assassinato de seu marido.

Litvinenko morreu em Londres em 2006 depois de ingerir um isótopo radiativo tóxico, o polônio 210. Ele foi um duro crítico do Kremlin. De seu leito de morte acusou Putin de ordenar seu assassinato.

O crime e seus desdobramentos ajudaram a azedar as relações entre a Grã-Bretanha e a Rússia e levantaram questões sobre como o Kremlin conduz sua política externa. Litvinenko disse que se Medvedev quiser cumprir sua promessa de ser um reformador deve acertar as pendências.

"Você tem a oportunidade de revelar o segredo deste crime ao mundo, de dar nome aos instigadores e perpetradores e fechar esta página escura da história russa", ela disse. "Isto lhe permitiria se distanciar do legado do regime anterior." "Se não o fizer", ela acrescentou, "todas as previsões sobre sua falta de independência serão, infelizmente, confirmadas."

Não houve um anúncio imediato sobre a composição do governo de Medvedev, ou sobre como os poderes serão divididos entre os dois líderes russos. Ambos deverão comparecer juntos na sexta-feira a um desfile militar na Praça Vermelha. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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