UOL Notícias Internacional
 

08/05/2008

Partido governista do Zimbábue ataca professores e trabalhadores de ajuda humanitária

The New York Times
Celia W. Dugger*
Em Johannesburgo, África do Sul
O partido governista do Zimbábue, inclinado a preservar o controle sobre a nação após 28 anos no poder, ampliou a sua campanha de intimidação e violência, que agora inclui como alvos professores e até trabalhadores de ajuda humanitária, prejudicando a educação e a assistência básica a dezenas de milhares de crianças em todo o país, segundo grupos humanitários, sindicalistas e os próprios professores.

Os professores têm sido advertidos pelo partido governista por terem supostamente se alinhado à oposição durante as disputadas eleições de março. Segundo o sindicato da categoria, mais de 2.700 professores fugiram ou foram expulsos das salas de aula. Dezenas de escolas fecharam as portas, e outras 121 estão sendo usadas como bases das milícias jovens do partido governista que assediam e espancam os oponentes no interior do país.

Além disso, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) afirma que mais da metade dos 55 grupos sem fins lucrativos ouvidos recentemente pela organização suspendeu de forma parcial ou total a ajuda aos órfãos no Zimbábue, país no qual uma em cada quatro crianças perdeu pelo menos um dos genitores.


Robin Hammond/The New York Times 
David Kabasa, um professor do ensino básico, com uma das vítimas da violência politica em Harare, no Zimbábue

Após um atraso de mais de um mês, na última sexta-feira as autoridades eleitorais do Zimbábue finalmente anunciaram o resultado da eleição presidencial. O líder oposicionista Morgan Tsvangirai, 56, obteve uma vantagem significativa sobre o presidente Robert Mugabe, o líder octogenário do partido governista, ZANU-PF. Mesmo assim, as autoridades eleitorais disseram que Tsvangirai não obteve a maioria absoluta dos votos e, portanto, haverá um segundo turno.

Diplomatas e grupos de direitos humanos alegam que, apesar dos pronunciamentos em contrário, o partido governista está tentando ganhar o segundo turno na base da intimidação, e na quarta-feira (07/05) havia indicações de que ele pretendia manter o poder a qualquer custo. Um membro do comitê central do ZANU-PF, falando anonimamente a respeito das deliberações secretas do partido, afirmou em uma entrevista que a agremiação não pretende ceder o poder por meio das urnas.

"Estamos dando ao povo do Zimbábue uma outra oportunidade de consertar o que fizeram, de votar de maneira apropriada", disse o membro do comitê. "Esta é a última chance deles".

Ele disse ainda ao repórter zimbabuano contratado pelo "The New York Times": "Caso os eleitores não reconduzam Mugabe à presidência, prepare-se para ser correspondente de guerra".

Parece que o impasse político do país provavelmente persistirá durante meses. O ZANU-PF e o partido de oposição, o Movimento pela Mudança Democrática, contestaram os resultados em mais de 50 distritos eleitorais, segundo noticiou na quarta-feira o jornal estatal "The Herald". Essas contestações, que teoricamente são resolvidas em seis meses, poderiam reverter o controle recém-obtido da oposição na casa baixa do parlamento.

Há semanas o partido do governo, as forças armadas e as suas forças irregulares - milícias jovens e veteranos da luta de libertação contra o regime branco - vêm ameaçando, prendendo e espancando aqueles que são tidos como ameaças, incluindo jornalistas, fiscais eleitorais e até mesmo eleitores comuns que simplesmente votaram na oposição.

Mas a rede de intimidação cada vez maior parece agora estar prejudicando também as crianças, debilitando ainda mais uma sociedade que amarga um enorme colapso econômico.

Serviços que normalmente auxiliam dezenas de milhares de órfãos por mês - incluindo atendimento médico, fornecimento de água potável, esportes e clubes sociais - estão sendo atualmente cortados devido à violência política em diversas áreas do país.

"As crianças zimbabuanas já estão sofrendo em diversos setores", diz James Elder, porta-voz da Unicef. "É inaceitável ver a situação delas se deteriorar ainda mais pelo fato de a violência e a intimidação impedirem as pessoas de ajudá-las".

Outros trabalhadores de auxílio humanitário dizem que foram advertidos por funcionários do governo a suspender as suas operações, caso não queiram ser vistos como estrangeiros que se intrometem nas questões internas do país. Os professores, que atuaram como fiscais não partidários nos locais de votação por todo o país, foram sistematicamente identificados e perseguidos, sendo que 496 foram interrogados pela polícia, 133 sofreram agressões por parte de milícias e 123 estão sendo acusados de fraude eleitoral, segundo o Sindicato Progressista dos Professores do Zimbábue. Os professores que trabalharam para a oposição também declararam em entrevistas que foram atacados.

Um editorial da edição do último sábado do jornal "The Herald" acusou os professores de fazerem parte de um elaborado complô financiado por britânicos e norte-americanos para fraudar a eleição e derrubar Mugabe.

O editorial descreveu os professores como agentes treinados na África do Sul pelo Instituto Democrático Nacional, um grupo sem fins lucrativos com sede em Washington, cuja diretora é Madeleine K. Albright, a ex-secretária de Estado dos Estados Unidos. Segundo o texto, "os professores fugiram do país para evitar o braço longo da lei".

O "Herald" informou na quarta-feira que cinco professores foram condenados devido a acusações de fraude eleitoral. Quatro deles não foram capazes de justificar uma diferença de 11 a 16 votos nos seus locais de votação. Eles foram multados ou receberam uma pena de dois a três meses de prisão. Um quinto professor não conseguiu explicar uma discrepância de 163 votos e será multado ou ficará preso por seis meses.

Raymond Majongwe, o diretor do sindicato dos professores, diz acreditar que o partido governista quer garantir que os professores não fiscalizem as urnas no segundo turno, de maneira que possam ser substituídos por indivíduos leais ao partido.

Os professores relataram os seus padecimentos, e a maioria deles suplicou que os seus nomes não fossem revelados na reportagem: "Se meu nome aparecer, serei caçado e morto", disse um professor de matemática do segundo grau do distrito rural de Guruve, na Província Central de Mashonaland.

Ele e cinco outros professores foram arrancados de suas casas na noite de 26 de abril por cerca de 30 membros da milícia jovem do partido governista, que os espancaram com barras de ferro, correntes de bicicleta e grossos ramos de árvores. Todos agora estão escondidos.

O professor de matemática contou que procurou explicar que os professores não são ativos na política, mas os jovens insistiram que eles eram membros da oposição que conspiravam para fraudar a eleição e prejudicar Mugabe.

Uma professora da primeira série disse que escapou por uma janela da sua casa, levando consigo a filha de 11 meses, mas os jovens foram atrás dela e a espancaram nas costas e na cabeça, enquanto ela tentava proteger com o corpo o bebê que chorava. Eles gritaram palavrões, usando uma expressão referente a "uma parte feminina do corpo" que ela se recusou a repetir na entrevista. "Estamos com medo", disse um professor de estudos sociais da sexta série, que agora vive escondido. A sua voz estava trêmula e ele exibia a cabeça com dez pontos. "Eles podem vir atrás de nós novamente. Por favor, nos ajude".

Lideranças civis e advogados também estão sendo perseguidos.

Fambai Ngirande, um crítico declarado do partido governista que trabalha para a Associação Nacional de Organizações Não Governamentais, contou que um agente de segurança à paisana o seqüestrou na semana passada em frente ao seu escritório em Harare, colocou-o dentro de um carro e rodou pela capital, advertindo que ele está sendo observado.

Na quarta-feira a polícia prendeu Harrison Nkomo, um advogado de direitos humanos que representou jornalistas presos nas últimas semanas, incluindo um correspondente do "The New York Times" que foi inocentado das acusações de ter violado as restritivas leis de imprensa do país.

A advogada Beatrice Mtetwa disse que Nkomo foi acusado de sabotar a autoridade de Mugabe ao fazer comentários críticos a respeito do presidente a um oficial de justiça, durante uma audiência na sexta-feira relativa a um jornalista zimbabuano que ele representava.

O oficial de justiça, que aparentemente era parente de Mugabe, tendo o mesmo sobrenome, contou que Nkomo lhe pediu que dissesse a Mugabe para renunciar à presidência porque o povo do Zimbábue está sofrendo. "Harrison afirmou que não falou nada disso", disse Mtetwa.

Com o Zimbábue paralisado em um limbo destrutivo, diplomatas da Comunidade para o Desenvolvimento do Sul da África, um bloco regional de 14 nações, reuniram-se com Mugabe em Harare e com Levy Mwanawasa, o presidente de Zâmbia que lidera o bloco, em Lusaka. Nesta quinta-feira eles deverão se reunir com o presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, cujo papel como mediador foi rejeitado pela oposição do Zimbábue, que diz ter perdido a fé na imparcialidade do sul-africano.

Tomaz A. Salomão, secretário executivo da organização, disse que nesta semana também enviou cinco especialistas para averiguarem as alegações de violência no Zimbábue.

O partido oposicionista enviou a sua própria equipe para investigar o assassinato de apoiadores da sigla na noite de segunda-feira na área rural de Chiweshe, no Distrito de Bindura, que fica na Província Central Mashonaland. Funcionários do Hospital Howard informaram que os policiais trouxeram cinco pessoas que chegaram mortas na manhã da terça-feira, e uma sexta que morreu naquela tarde. A maioria das vítimas sofreu ferimentos na cabeça e no tórax durante espancamentos perpetrados por veteranos de guerra e milícias jovens do ZANU-PF. Um funcionário do necrotério confirmou que seis corpos encontram-se no hospital aguardando identificação.

Shepherd Mushonga, um membro do partido de oposição que perdeu a eleição para o parlamento, disse que entre os mortos do Hospital Howard estão dois professores primários. Esta alegação não pôde ser confirmada por outras fontes.

Em uma visita na quarta-feira a três escolas de ensino fundamental no distrito de Murewa, na Província de Mashonaland Oriental, as autoridades disseram que os professores fugiram aterrorizados quando veteranos de guerra os capturaram e os exibiram em público como troféus.

"Fui maltratado na frente de todo mundo e obrigado a denunciar a oposição", conta um diretor de escola cujo único crime, segundo ele, foi fiscalizar um local de votação onde Tsvangirai venceu Mugabe. "Também fui acusado de fraudar a eleição para beneficiar a oposição".

Enquanto crianças descalças usando uniformes azul-marinho brincam de pique no playground, um pai reclama, dizendo que o professor do seu filho, que está na quinta série, foi um dos que fugiram, deixando a criança sem aulas. Ele também lamentou o declínio daquele que já foi um dos melhores sistemas de ensino da África.

"Nós estamos destruindo não só o sistema educacional, mas também o futuro dos nossos filhos. O presidente Mugabe precisa acabar com esta violência".

*Dois jornalistas do Zimbábue, cujos nomes não podem ser identificados por questão de segurança, contribuíram para esta matéria.

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