UOL Notícias Internacional
 

09/05/2008

Governo recluso de Mianmar aceita ajuda com relutância

The New York Times
Seth Mydans
Em Bancoc
Ao abrir as suas portas ao auxílio internacional para desastres, o governo militar de Mianmar está rompendo uma muralha de isolamento que construiu em torno de si no decorrer de quase meio século.

A devastação provocada pelo ciclone do último sábado, que matou mais de 22 mil pessoas, obrigou a junta a suavizar a sua postura de auto-suficiência e pedir ajuda a um mundo que ela vê com medo e ressentimento.

O pedido de ajuda ocorre menos de nove meses após a junta que governa o país ter rejeitado a condenação quase universal que recebeu internacionalmente após ter reprimido com violência as manifestações pela democracia lideradas por monges budistas.

JaKhin Maung Win/AFP - 8.mai.2008 
Crianças pedem comida através de janela de carro em Bogalay, Mianmar

Mas o governo agora está revelando a sua relutância, ao aceitar vagarosamente a ajuda solicitada, ao complicar as operações de concessão de vistos para os doadores internacionais e ao procurar limitar o acesso dos trabalhadores internacionais de ajuda humanitária às áreas atingidas.

Em Genebra, funcionários da Organização das Nações Unidas (ONU) relataram que obstáculos às viagens e à concessão de vistos estão prejudicando a remessa de auxílio humanitário a cerca de um milhão de pessoas que provavelmente estão sem moradia.

Funcionários de auxílio humanitário disseram que alguma ajuda está chegando à principal cidade de Mianmar, Yangun, bem como a outras regiões, mas eles informaram também que as inundações e a destruição de estradas isolaram muitas das áreas costeiras que foram mais duramente atingidas.

As agências de auxílio alertaram que a fome, a sede e a ameaça de doenças são problemas que precisam ser resolvidos urgentemente.

Desde um golpe militar em 1962, Mianmar, que antes chamava-se Birmânia, isolou-se do mundo exterior através do processo conhecido como a Via Birmanesa para o Socialismo. Nos últimos anos essa barreira aumentou por causa da imposição pelo Ocidente de sanções econômicas devido às violações dos direitos humanos.

MIANMAR APÓS O CICLONE
Reuters
Sobreviventes diante de casa destruída pelo ciclone Nargis
ABERTURA DEPOIS DE 50 ANOS
PARALISIA EM YANGUN
JUNTA ATRASA ENVIO DE AJUDA
"Normalmente eles estariam dizendo, 'Nós seguraremos a barra, não precisamos da ajuda de ninguém'", disse Zarni, um pesquisador da Universidade de Oxford que está no país, e que só quis se identificar pelo primeiro nome. "Essa barreira foi rompida. Eles precisam saber que o pedido de ajuda implica em algum tipo de envolvimento internacional nos assuntos internos do país, seja a redução da pobreza ou a redemocratização".

Essa ajuda, se o governo de fato aceitá-la, exigirá um novo grau de cooperação com governos estrangeiros e agências de auxílio humanitário cujas operações em Mianmar estão sendo cada vez mais restringidas.

O governo corre o risco de que os grupos de auxílio e países estrangeiros sejam vistos como os salvadores de um povo que a junta foi incapaz de ajudar por conta própria.

"Não creio que nenhum país seria capaz de lidar com uma catástrofe de tal magnitude", afirmou Shari Villarosa, a mais importante integrante do corpo diplomático norte-americano em Mianmar, falando por telefone de Yangun. "Eles necessitam de assistência externa. A comunidade internacional está pronta e disposta, e conta com a capacidade de chegar a tempo e ajudar. Porém, é importante repetir que o que está impedindo as operações de auxílio humanitário é a desconfiança do governo em relação aos estrangeiros. Eles são muito desconfiados, e acham que os estrangeiros farão algo de errado".

As autoridades birmanesas também correm o risco de que a população faminta e desabrigada, que acha que foi abandonada por seus líderes, possa explodir em fúria contra o governo. Já é comum ouvir em Mianmar queixas de que as forças armadas, que esmagaram manifestações pacíficas em setembro do ano passado, não eram vistas em lugar algum no fim de semana passado.

Um aumento drástico do preço dos combustíveis foi a causa inicial das manifestações em agosto, que se transformaram em enormes protestos contra o governo. A disparada do preço do arroz foi um dos motivos para manifestações ainda maiores em 1988, durante as quais centenas de pessoas morreram devido à repressão violenta pelas tropas do governo.

"Segundo nos demonstra a experiência, quando o povo não obtém alimentos e água em quantidade suficiente, ele parte para ações desesperadas", disse Villarosa.

Por ora, segundo a maioria dos analistas, as pessoas estão demasiadamente preocupadas com a sobrevivência para manifestar a sua ira de forma aberta.

A rota mais provável para mudanças no longo prazo reside no seio das forças armadas, que, segundo os analistas, controlam quase todos os aspectos da vida em Mianmar. O humor das forças armadas preocupa mais os líderes birmaneses do que o bem-estar do povo, diz U Win Min, um exilado birmanês e analista militar.

"Para eles a única coisa que importa é isso. A opinião pública não tem importância para o governo", explica Min. "A junta não se sustenta no apoio popular, mas sim no medo do povo, que só pode fomentado pelos militares. A preocupação do governo é com a manutenção do apoio das forças armadas".

O governo deu clara indicação de quais são as suas prioridades quando anunciou que prosseguiria com os planos para submeter a plebiscito uma nova constituição, apesar da dimensão do cataclismo que se abateu sobre o país. A constituição, que legitimaria o poder da junta, é o produto de mais de uma década de trabalho, constituindo-se na peça central das políticas do governo para o futuro.

O governo anunciou que a eleição, marcada para o próximo sábado, será adiada por duas semanas nas áreas mais duramente atingidas pelo ciclone, mas que transcorrerá normalmente, na data originalmente marcada, na maior parte do país.

"Eles não priorizam o auxílio, que é uma necessidade urgente para o povo. O que eles priorizam são os seus próprios planos para a legitimação de seu governo através da constituição", disse Win Min. UOL

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