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09/05/2008

Preços de alimentos básicos caem, mas a volatilidade dos mercados persiste

The New York Times
Keith Bradsher
Em Hong Kong
Depois de meses de aumentos incessantes, os preços do arroz, do milho, da soja e de vários outros grãos caíram recentemente, um fato que poderá acalmar parte do pânico que tomou conta dos mercados globais de alimentos.

Os preços permanecem voláteis e notavelmente elevados segundo os padrões históricos, e poucos especialistas em agricultura esperam que os dias da comida barata retornem tão cedo. Não há nenhum sinal de uma queda de dimensão suficiente para fazer com que os alimentos tornem-se novamente acessíveis para as centenas de milhões de pessoas nos países pobres que lutam para manter dietas adequadas.

Mesmo assim, qualquer redução de preços é uma boa notícia para muitos países, especialmente aqueles altamente dependentes de arroz importado. O preço do arroz da Tailândia caiu quase 20% nas últimas duas semanas, após ter quase triplicado nos primeiros quatro meses deste ano. Os preços do arroz nos mercados norte-americanos acusaram alta nesta semana, incluindo um aumento acentuado na quinta-feira (08/05), mas ainda estão 10% inferiores ao recorde registrado em 23 de abril último.

Da mesma forma, apesar dos saltos dos preços registrados nos últimos dias, os contratos para futuras remessas de trigo e soja norte-americanos caíram notavelmente em relação aos recordes de março - no caso do trigo a queda foi de 34%. Os preços dos óleos de canola e de coco, duas alternativas para o óleo de soja na preparação e processamento de alimentos, também caíram.

"As águas da inundação pararam de subir, mas o problema ainda não acabou, e os preços poderão se manter neste patamar por anos", adverte Nicholas W. Minot, pesquisador do Instituto Internacional de Pesquisas de Políticas de Alimentos, em Washington.

Os mercados agropecuários continuam profundamente instáveis. Durante vários anos, agricultores e fazendeiros vêem-se incapazes de acompanhar o aumento rápido dos preços dos alimentos e das rações para animais, e os estoques mundiais de grãos vêm diminuindo. A situação atingiu um ápice nos últimos meses, quando os preços subiram descontroladamente, gerando pânico em vários países e rebeliões populares em pelo menos 19 nações.

O preço do milho dos Estados Unidos bateu mais um recorde na quinta-feira, ficando um pouco acima de US$ 6,30 o bushel (35,2 litros), em meio a temores de que o tempo chuvoso no meio-oeste americano possa prejudicar as colheitas de verão. A maior parte do milho não é usado para alimentação humana e sim para a fabricação de rações de animais e, cada vez mais, para a produção de etanol. Os elevados preços do milho nos últimos anos estimularam os fazendeiros a plantar uma maior quantidade do produto, o que provocou uma redução da área destinada a culturas como o trigo e contribuiu para a inflação dos preços dos alimentos.

Os especialistas dizem que os consumidores podem não ser muito beneficiados com as recentes quedas de preços. Muitos vendedores em todo o mundo ainda não repassaram os aumentos dos preços desta primavera (no hemisfério norte) para os consumidores.

O preço de uma boa variedade de arroz, altamente comercializada, da Tailândia, chegou ao recorde de US$ 1.100 a tonelada no final de abril, e algumas vendas foram efetuadas a preços até maiores por compradores que desejavam grandes quantidades do produto. Mas na quinta-feira os comerciantes disseram que o arroz estava custando de US$ 880 a US$ 920 a tonelada, embora os compradores de grandes quantidades provavelmente tenham que desembolsar mais do que isto.

"Não acredito que haverá uma queda acentuada dos preços, mas creio que está havendo uma correção", diz Ben Savage, diretor da Jackson Son & Co., em Londres, uma das maiores firmas de comércio de arroz do mundo.

O arroz talvez seja a cultura mais frágil do mundo sob o ponto de vista político. Quase a metade da população mundial depende dele como alimento básico. E uma proporção ainda maior da população pobre do planeta depende dele, já que o arroz importado substituiu as culturas locais em diversas cidades da África e do Caribe na última década, ainda que esse grão tenha mantido a sua supremacia na Ásia.

Os preços mais recentes do arroz ainda estão bem acima dos US$ 385 por tonelada registrados em meados de janeiro deste ano, e superam ainda mais o preço médio de 2003, que foi de US$ 200 a tonelada. Mesmo com a ligeira queda, o preço do arroz continua elevado a ponto de colocar em dificuldades as famílias pobres de países como as Filipinas e a Nigéria, os dois maiores importadores de arroz do mundo.

"Este tem sido um mercado favorável ao consumidor há 40 anos, e recentemente ele passou a favorecer o vendedor, especialmente nos últimos meses", diz Vichai Sriprasert, presidente da firma Riceland International Co., em Bancoc. "Embora o preço do arroz tenha caído nos últimos dias, o consumo global do produto continua maior do que a produção. Este continuará sendo um mercado bom para o comerciante nos próximos anos".

O recente ciclone em Mianmar, outrora conhecido como Birmânia, danificou bastante os campos de arroz birmaneses e fez com que os preços do grão disparassem naquele país. Mas os comerciantes de arroz dizem que isto não pressionou os preços mundiais para cima porque as exportações de Mianmar são pequenas e nem o governo birmanês nem agências de auxílio contam com dinheiro para comprar grandes quantidades do grão nos mercados mundiais.

"Não creio que o ciclone birmanês esteja provocando um efeito significativo", diz Korbsook Iamsuri, secretário-geral da Associação de Exportadores de Arroz, na Tailândia.

Os especialistas citam uma série de motivos para as quedas dos preços das commodities. Os comerciantes dizem que algum dinheiro de natureza especulativa pode ter saído do circuito das commodities agrícolas, empurrando os preços para baixo. Além disso, é evidente que a disparada dos preços nos últimos meses suprimiu parte da demanda. E tais aumentos encorajaram os fazendeiros a plantar mais em terras não muito férteis, que não valem a pena cultivar quando os preços são menores.

"Além do mais, os exportadores de arroz, após segurarem os estoques à medida que os preços subiam rapidamente, começaram a vender. Muitos exportadores de arroz tailandês apostaram na continuidade da tendência de alta, e fizeram grandes estoques com dinheiro emprestado, e agora estão procurando honrar o pagamento dos juros dos empréstimos", explica Vichai, o presidente da Associação dos Exportadores de Arroz na Tailândia. "Agora que todos fizeram estoques, quando há um sinal de que os preços pararam de subir, ocorre uma agitação generalizada, e os comerciantes ficam mais dispostos a vender".

O governo das Filipinas, o maior importador de arroz do mundo, contribuiu para a mudança do clima no mercado. Tendo recebido apenas uma proposta para venda de arroz na segunda-feira, o governo decidiu que tinha uma quantidade suficiente do grão estocado, e que poderia aguardar a queda dos preços antes de comprar mais.

"Atualmente contamos com uma reserva suficiente de arroz, e só estamos buscando mais arroz importado para fortalecer ainda mais os nossos estoques", disse em uma entrevista Arthur Ya, o secretário da Agricultura das Filipinas. "Tendo em vista esta flexibilidade, nós só compraremos arroz no mercado internacional quando o preço e outras condições forem favoráveis, e, sendo assim, decidimos postergar o processo e esperar por um preço melhor". UOL

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