UOL Notícias Internacional
 

10/05/2008

Hizbollah captura parte de Beirute controlada pelo governo libanês

The New York Times
Robert F. Worth e Nada Bakri
Em Beirute
Combatentes do Hizbollah fortemente armados assumiram o controle sobre grande parte da zona oeste de Beirute na sexta-feira (09/05), e patrulhavam as ruas em uma exibição ostensiva de força que demonstrava à recusa da milícia xiita em recuar da sua escalada de confronto com o governo apoiado pelos norte-americanos.

Aliados do Hizbollah também obrigaram uma estação de televisão por satélite simpática ao governo a sair do ar, e incendiaram os escritórios do jornal afiliado à instituição, enquanto combatentes sunitas leais ao governo em sua maioria se dispersavam após três dias dos piores confrontos sectários no Líbano desde a guerra civil que durou 15 anos.

Esses golpes humilhantes evidenciaram mais do que nunca a determinação do Hizbollah, apoiado pelo Irã e pela Síria, e dos seus aliados. Na tarde da sexta-feira, uma longa coluna de combatentes xiitas armados desfilava radiantemente pela zona ocidental de Beirute em caminhões, carros e motocicletas, gritando e disparando tiros para cima, em uma estridente comemoração de vitória.

Bryan Denton/The New York Times 
Homem sentado sobre barricada em chamas que bloqueia acesso ao aeroporto de Beirute

A maioria governista lançou um apelo urgente por ajuda a outras nações na noite de sexta-feira, rotulando as ações do Hizbollah de um "golpe armado" contra o Líbano e o sistema democrático do país com o uso de "armas enviadas por Teerã".

Alguns parlamentares governistas, incluindo o líder druso Walid Jumblatt e Saad Hariri, filho do ex-primeiro-ministro Rafiq Hariri, passaram o dia entrincheirados em suas casas, protegidos por contingentes da polícia e do exército libanês.

Em Washington, a secretária de Estado, Condoleezza Rice, afirmou que os Estados Unidos estão "extremamente preocupados" com a atual violência, e condenou o Hizbollah por "minar a autoridade legítima do governo libanês".

Rice e outras autoridades do governo Bush conversaram na sexta-feira com seus congêneres na Arábia Saudita, no Egito e no Líbano. Um funcionário graduado do governo disse que os Estados Unidos, que mal conversam com a Síria, o Irã ou o Hizbollah - um grupo que o governo Bush considera uma organização terrorista -, estão tentando usar os seus aliados árabes para enviar uma mensagem ao Irã e à Síria para que parem de interferir no Líbano.

Autoridades israelenses disseram que estão acompanhando os acontecimentos ocorridos do outro lado da sua fronteira norte, mas não se manifestaram, mostrando claramente que não desejam lançar mais combustível à fogueira.

Os combates dos últimos três dias lançaram muçulmanos sunitas contra xiitas, sendo que os divididos cristãos do Líbano - incluindo Michel Aoun, o ex-general que está aliado ao Hizbollah - colocaram-se à margem do conflito. Os embates parecem estar exacerbando bastante as tensões sectárias entre os muçulmanos de Beirute, em um eco sinistro do conflito civil no Iraque.

Na noite de sexta-feira, o conflito disseminou-se pela pequena, mas influente, comunidade drusa, quando irrompeu uma batalha entre aliados do governo e da oposição nas montanhas Chouf, o reduto dos drusos. Segundo testemunhas, duas pessoas morreram.

Na sexta-feira não estava claro o que esses combates representarão para o futuro político do Líbano, e tampouco como a exibição de força do Hizbollah poderia se traduzir em uma vantagem política correspondente. Por ora, o enfrentamento parece apenas aprofundar o impasse político libanês. Há 17 meses o Líbano está dividido entre a oposição liderada pelo Hizbollah e o governo do primeiro-ministro Fouad Siniora, que é apoiado pelo Ocidente e pela Arábia Saudita. O impasse deixou o país sem um presidente desde o final de novembro do ano passado.

O exército do Líbano - a única instituição tida como neutra no áspero confronto político do país - não se envolveu no confronto bélico, e não se mostrou disposto a tomar nenhum partido. Na sexta-feira o Hizbollah e os seus aliados transferiram ao exército o controle sobre algumas instituições do governo conquistadas durante a luta, com o intuito de ressaltar o caráter nacionalista do grupo xiita.

Três dias de batalhas de rua deixaram 11 pessoas mortas e 20 feridas. A maior parte das lutas ocorreu em Beirute, mas irromperam também tiroteios esporádicos entre forças pró-governamentais e oposicionistas em outras áreas, incluindo o Vale Bekaa, o norte do Líbano e as montanhas Chouf.

A violência pareceu diminuir na sexta-feira, embora algumas estradas importantes permanecessem bloqueadas, incluindo aquela que liga Beirute ao aeroporto.

As recentes batalhas tiveram início depois que o governo tomou medidas na sexta-feira contra a rede privada de telecomunicações do Hizbollah, alegando que ela constituía-se em uma violação à soberania do Líbano.

A maioria parlamentar parece ter acreditado que poderia pressionar o Hizbollah, que no passado mostrou-se relutante em utilizar domesticamente a sua força militar, afirmou Sarkis Naoum, colunista do jornal "Al Nahar".

Mas, segundo Naoum, na verdade, o Hizbollah - impaciente com o longo impasse - estava aguardando por uma oportunidade como esta para demonstrar o seu poder.

Membros do Hizbollah bloquearam estradas na capital com pneus incendiados, incluindo a principal artéria que liga a cidade ao aeroporto. Na quinta-feira, o líder do Hizbollah, xeque Hassan Nasrallah, disse que o governo declarou guerra ao ameaçar fechar a rede privada de telefonia do grupo. "Nós já afirmamos antes que deceparemos a mão que tem como alvo as armas da resistência", disse ele em uma entrevista feita por uma conexão de vídeo. "E hoje é o dia de cumprir esta promessa".

O grupo só ordenará aos seus combatentes que se desmobilizem depois que o governo recuar totalmente da sua ação contra a rede telefônica, avisou Nasrallah.

Mas segundo Amal Saad-Ghorayeb, especialista no grupo, é provável que os objetivos do Hizbollah se estendam para além disso.

"Não consigo visualizar o Hizbollah se aliando a este governo, de forma que as demandas atuais serão maiores do que as anteriores", disse a especialista. "Eles querem que o governo renuncie. Isto é efetivamente um golpe".

O governo vêm pedindo a eleição do comandante do exército, general Michel Suleiman, para a presidência do país, e na quinta-feira, Saad Hariri, o líder da aliança política governista, reiterou a proposta. Mas o Hizbollah e os seus aliados cristãos rejeitaram as propostas para a eleição de um presidente até que haja um acordo mais amplo, incluindo um novo governo e uma nova lei eleitoral.

Nos embates da sexta-feira, o Hizbollah e os seus aliados pareciam ter visado Hariri, o líder da aliança política pró-governista de 14 de março. Combatentes da milícia dispararam granadas lançadas por foguetes (RPG) contra o escritório do jornal de Hariri, o "Future", na zona oeste de Beirute, na manhã da sexta-feira, danificando bastante com um incêndio diversos andares do edifício. A estação de televisão Future Movement foi obrigada a sair do ar, e o exército libanês ocupou um outro escritório do "Future" depois que membros do Hizbollah dirigiram ameaças contra ele.

Algo que desapareceu durante os recentes confrontos foi a crença generalizada de que milícias sunitas capazes de conter o Hizbollah eram treinadas no Líbano, disse Naoum, o colunista.

Conforme se constatou, os jovens combatentes sunitas leais ao Movimento Futuro - o partido de Hariri que faz parte do governo majoritário - não foi páreo para os rivais xiitas mais bem armados. Hariri aparentemente reconheceu este fato, e ordenou um recuo em vez de provocar um massacre.

Na sexta-feira, vários homens no bairro sunita de Tarik Jadideh reclamavam por terem sido ordenados a não lutar, e agora se sentem humilhados.

"Saad Hariri nos deixou na mão", reclamou um dos jovens de Tarik Jadideh, onde na sexta-feira as ruas estavam cheias de vidros quebrados, e as fachadas enegrecidas dos prédios eram um testemunho das batalhas ferozes travadas na noite anterior com lança-granadas-foguetes e armas leves. "Agora queremos distância do Movimento Futuro e de todos os membros da família Hariri". O homem recusou-se a fornecer o seu nome por temer retaliações, já que Hariri é uma figura importante na área.

Um outro jovem acrescentou: "O que ocorreu na noite passada por volta da meia-noite foi que recebemos ordens para abandonar as nossas posições e ir para casa. Eles nos colocaram na linha de frente do confronto e, 15 minutos depois, nos abandonaram".

Até agora, os jovens - alguns ainda adolescentes - que compõem a maior parte das milícias sunitas obedeceram aos comandos dos seus líderes e pararam de lutar. Mas muita gente por aqui se pergunta se eles continuarão procedendo desta forma.

*Hweida Saad, em Beirute; Isabel Kershner, em Jerusalém; e Helene Cooper, em Washington contribuíram para esta matéria. UOL

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