UOL Notícias Internacional
 

11/05/2008

Friedman: até os colunistas têm mães

The New York Times
Thomas L. Friedman
Colunista do The New York Times
O anúncio apareceu no meu e-mail como sempre apareceu: "Ligue 1-800-Flores: Loucura do Dia das Mães - 30 tulipas mais um vaso grátis por apenas US$ 39,99!"

Eu quase cliquei nele, esquecendo por um momento que esse tipo de serviço não seria necessário este ano. Minha mãe, Margaret Friedman, morreu no mês passado aos 89 anos, portanto esse foi meu primeiro Dia das Mães sem minha mãe.

Como colunistas, aparecemos diante de vocês duas vezes por semana nestas páginas como simples créditos, mas, sim, até os colunistas têm mães. E no meu caso grande parte da visão geral que permeia meus textos foi incutida em mim por minha mãe. Assim, pela primeira vez em 13 anos, eu gostaria de falar um pouco sobre ela.

Minha mãe foi presa da demência durante a maior parte da última década, mas nunca perdeu o comportamento generoso e a "gentileza da Minnesota" que a caracterizou em seus melhores dias. Como me disse meu amigo de infância Brad Lehrman em seu funeral: "Ela colocou 'mensch' na demência". ["Mensch" - palavra iídiche que indica caráter, humanidade.]

A vida de minha mãe ocupou um período incrível. Ela nasceu em 1918, logo depois do final da Primeira Guerra Mundial. Cresceu na Depressão, alistou-se na marinha depois de Pearl Harbor, serviu a seu país na Segunda Guerra Mundial, comprou nossa primeira casa com um empréstimo militar e viveu o suficiente para jogar bridge pela Internet com alguém da Sibéria.

Na maior parte da minha infância, minha mãe parecia uma típica dona de casa suburbana de sua geração, mas eu sabia que era qualquer coisa, menos típica. Ela costurou muitas das roupas de minhas irmãs, incluindo seus dois vestidos de noiva, e ternos de menino para mim. Além disso, ganhou vários torneios nacionais de bridge.

Minha mãe deixou em mim duas marcas indeléveis. A primeira foi nunca aceitar as cartas que são distribuídas. Meu pai morreu subitamente quando eu tinha 19 anos. Minha mãe trabalhou durante alguns anos. Mas em 1975 eu consegui uma bolsa de estudos para a faculdade na Grã-Bretanha e minha mãe surpreendeu a todos um dia, anunciando que ela também iria. Eu chamei isso de "Programa Universitário Júnior no Exterior para Mãe Judia".

A maioria de suas amigas ficou chocada porque ela não ia ficar bancando a viúva. Em vez disso, vendeu nossa casa na pequena St. Louis Park, Minnesota e mudou-se para Londres. Mas o mais incrível foi ver como ela usou suas técnicas de nível internacional no bridge para formar novas amizades, incluindo um casal que a levou de avião para Paris para uma partida de bridge. Sim, nossa pequena Margie foi a Paris jogar bridge. Ela foi até me ver uma vez em Beirute durante a guerra civil, aos 62 anos.

A foto dela em Beirute me faz pensar com incredulidade no que minha mãe poderia ter feito se tivesse dinheiro para terminar a faculdade e seguir seus sonhos -assim como ela me encorajou a seguir os meus, mesmo quando eles significavam estar distante em algum lugar maluco e que nossa única comunicação seria pelas minhas reportagens. É tão fácil esquecer -sua mãe também sonhava.

A outra grande influência de minha mãe sobre mim você pode ler nas entrelinhas de quase todas as colunas -é o senso de otimismo. Ela era a pessoa menos cínica do mundo. Não me lembro que jamais tenha murmurado uma palavra de cinismo. Ela não era ingênua. Havia tomado seus golpes. Mas toda vez que a vida a derrubava ela se levantava, sacudia a poeira e continuava avançando, motivada pelo ditado de que os pessimistas geralmente estão certos, os otimistas geralmente estão errados, mas a maioria das grandes mudanças foi feita por otimistas.

Seis anos atrás eu estava em Israel em um jantar com o editor do jornal "Haaretz", que publica minha coluna em hebraico. Eu perguntei ao editor por que o jornal publicava minha coluna, e ele brincou: "Tom, você é o único otimista que temos". Um general israelense, Uzi Dayan, estava sentado ao meu lado e quando caminhamos para a mesa ele disse: "Tom, eu sei por que você é otimista. É porque você é baixo e só consegue ver a metade do copo que está cheia".

Bem, a verdade é que não sou tão baixo. Minha mãe era. E ela, de fato, só podia ver a metade do copo que estava cheia. Leia-me, e lerá minha mãe.

Sempre que eu tenho a honra de fazer um discurso de formatura em faculdade, tento terminá-lo com esta história sobre o lendário treinador de futebol americano da Universidade do Alabama, Bear Bryant. No final de sua carreira, depois que sua mãe havia morrido, a companhia telefônica South Central Bell pediu a Bryant para fazer um comercial de TV. Segundo me lembro, o comercial deveria ser muito simples -apenas uma musiquinha e o treinador dizendo com sua voz rude: "Você já ligou para sua mãe hoje?"

No dia da gravação, porém, parece que ele decidiu improvisar um pouco. Teria olhado para câmera e dito: "Você já ligou para sua mãe hoje? Bem que eu gostaria de poder ligar para a minha". Assim ficou o comercial, e teve uma enorme resposta do público.

Por isso, neste Dia das Mães, se você levar alguma coisa desta coluna, leve isto: ligue para sua mãe. Eu certamente gostaria de poder ligar para a minha. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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