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12/05/2008

Para onde for a Gazprom, vai a Rússia

The New York Times
Andrew E.Kramer
Em Moscou
Em uma gelada tarde de fevereiro, o lugar mais quente para se estar aqui era o Palácio de Convenções do Kremlin. A atração dentro do gigantesco salão não era Tina Turner ou o Deep Purple— ícones do rock bem distantes de seu auge— mas a Gazprom, a gigantesca corporação mais poderosa da Rússia, que celebrava seu 15º aniversário.

A Gazprom certamente tinha razões para festejar: seu presidente, Dmitri A. Medvedev era o favorito na campanha russa, como o sucessor escolhido a dedo pelo presidente Vladimir V.Putin. Embora a Gazprom tenha pago uma bela soma para contratar Turner e o Deep Purple, a banda favorita de Medvedev, a oportunidade de a empresa, a maior produtora de gás natural do mundo, ter seu próprio homem empossado como o próximo líder da Rússia, não tinha preço.

"A apresentação no Kremlin foi divertida, mas não foi louca," escreveu Ian Gillan, líder do Deep Purple, em um artigo para o The Times de Londres depois do show. "Os jovens e os funcionários de escalões inferiores estavam bem animados, embora olhassem nervosamente em direção aos chefes para ver se eles se descontraíam. Era como se eles pedissem, 'Até onde a gente pode se divertir'"?

Medvedev prestou juramento para a presidência na quarta-feira, depois de vencer a eleição no início de março, e sua ascensão confirma que na Rússia de hoje, a linha que separa as grandes empresas do Estado está se tornando tão estreita que é quase inexistente.

A Gazprom e o governo há muito tempo mantêm um relacionamento próximo, mas a porta giratória entre eles está rodando de forma especialmente rápida este ano: Medvedev, de 42 anos, substitui Putin como presidente; Putin torna-se primeiro-ministro, substituindo Viktor A. Zubkov; e Zubkov deve assumir o lugar de Medvedev como presidente da Gazprom na assembléia geral dos acionistas em junho.

Medvedev e Putin "são o mais próximo de um dream team que a Gazprom poderia esperar," disse Jonathan P. Stern, analista britânico do setor de energia e autor de "The Future of Russian Gas and Gazprom" (O Futuro do Gás Russo e a Gazprom).

É difícil superestimar o papel da Gazprom na economia russa. É uma vasta empresa que acumulou US$ 91 bilhões no ano passado; emprega 432.000 pessoas, paga impostos que correspondem a 20% do orçamento russo e tem subsidiárias em setores tão disparatados como produção agrícola e aviação.

A empresa é uma importante fornecedora de gás natural para a Europa e está se tornando uma importante fonte de gás para os mercados asiáticos de crescimento acelerado, tais como China e Coréia do Sul. Em 2005, por pressão do Kremlin, comprou a quinta maior empresa petrolífera da Rússia, do magnata Roman A. Abramovich. Se petróleo bruto e gás natural forem considerados juntos, a produção diária combinada de energia da Gazprom é maior que a da Arábia Saudita.

Com os preços da energia continuando a atingir níveis recorde, a Gazprom é mais influente que nunca, tanto em casa como no exterior. A Gazprom diz que, antes de 2014, vai superar a Exxon Móbil como a maior empresa de capital aberto— uma meta que o próprio Medvedev endossou antes de se tornar presidente.

Quando Putin ainda era presidente, usou a riqueza e poderio econômico da Gazprom para reafirmar a influência sobre as antigas repúblicas soviéticas, para conquistar alavancagem sobre os países do Leste da Europa ao aumentar sua dependência do gás russo e arrebatar de volta os ativos de energia russos em poder de empresas estrangeiras.

Agora que a Rússia tenta reaver a influência geopolítica que teve nos dias da União Soviética, está brandindo seus vastos recursos energéticos, em vez de mísseis, para se reafirmar. Sua artilharia mais potente é a própria Gazprom.

Em uma entrevista coletiva no ano passado, Putin negou que a Rússia use seu poderio econômico para alcançar suas metas em política externa. Mas há quem discorde. "A energia não deveria ser usada como instrumento político, mas é," disse Vladimir Milov, presidente do Instituto de Política Energética, uma organização independente de pesquisa em Moscou, e ex-vice-ministro de Energia. A Gazprom, ele disse, tem sido às vezes uma "ferramenta para a punição de países vizinhos."

Nas instalações da Gazprom no campo Yuzhno-Russkoye na Sibéria, um dia do inverno passado, estava tão frio que parecia que duas dezenas de motores movidos a diesel tinham sido deixados funcionando noite e dia, com temor de que eles congelassem até a primavera. Todos os invernos, alguns trabalhadores russos têm sérios problemas por causa de congelamento.

"Sua pele descasca um pouco," disse Sergei G. Koshei, supervisor de perfuração, minimizando os perigos. Outro homem bastante musculoso, em uma parada de descanso em um poço, mostrou a situação de forma mais gráfica, pegando sua orelha no alto, imitando sua retirada e jogando-a fora como uma bituca de cigarro.

Sozinho, o campo Yuzhno-Russkoye tem reservas comprovadas de 800 bilhões de metros cúbicos de gás natural, ou o suficiente para atender à demanda de gás nos Estados Unidos por mais de um ano, e é apenas o primeiro em meia dúzia de imensos empreendimentos planejados no Norte.

Nos próximos dois anos, a Gazprom planeja triplicar seus gastos no núcleo de seus negócios, de exploração, extração e transporte de gás - apenas para manter os níveis de produção. O investimento vai aumentar para 969 bilhões de rublos, ou US$ 45 bilhões, em 2010, dos 330 bilhões de rublos, ou US$ 14 bilhões, no ano passado.

Para ajudar a financiar uma impetuosa expansão no Ártico, a Gazprom está elaborando formas de elevar os preços do gás natural na Rússia e no mercado de exportação.

No ano passado, vendeu a idéia de criar um cartel para o gás natural, semelhante à Opep, o cartel do petróleo. O Irã apóia a idéia, mas a Argélia, o Qatar e outros não se comprometeram. Um cartel do gás pode permitir que a Rússia aumente sua influência nos mercados globais de energia, mas nesse ponto ainda não está claro o quanto o país pressionará para impor o conceito.

Os laços da Gazprom com o governo já estão pagando dividendos no mercado interno. Sob a política defendida por Medvedev quando foi vice-primeiro-ministro, os consumidores russos terão de pagar preços simplesmente mais elevados pelo gás natural. Os preços deverão aumentar cerca de 25% ao ano, a partir deste ano, com o objetivo de alcançar a paridade com os preços mundiais de energia até 2011.

Políticas como essas mostram que o russo médio não vai continuar a desfrutar de seu acesso tradicional à energia barata, e oferecem um perfeito exemplo da disposição do governo de ajudar a Gazprom a crescer - independente das conseqüências sociais.

Da mesma forma que a riqueza da Gazprom a torna uma representante do novo poderio e prestígio russo em todo mundo, a empresa também é um exemplo dos riscos do capitalismo de Estado: desperdício e ineficiência.

Na década de 1990, a Gazprom era o arquétipo de empresa soviética não reformada. Enquanto as companhias petrolíferas estavam sendo privatizadas e vendidas a investidores russos e até estrangeiros, a Gazprom permanecia intacta e sob o controle do governo. Ela financiou muitos dos projetos preferidos do Kremlin e o estilo de vida de alto nível de uma geração de executivos da companhia.

A Gazprom diz que muitos dos investimentos que os críticos chegaram a rotular de políticos, tais como a compra de estações de televisão e jornais, na realidade acabaram tornando-se altamente lucrativos.

Agora os líderes russos consideram a Gazprom o modelo para uma nova política industrial. Em um mundo globalizado, acreditam eles, as companhias estratégicas russas devem ser controladas pelo governo, e mesmo assim, abertas ao capital e capacitação de investidores ocidentais - exatamente como é a Gazprom. É uma reversão ao modelo econômico soviético, com ênfase no gigantismo e nas economias de escala e fá no poder de estabelecimento de preços dos monopólios.

Sob Putin, as empresas petrolíferas foram trazidas de volta ao controle do Kremlin, e dezenas de corporações controladas pelo Estado, mas de capital aberto brotaram em setores como energia, metais, aviação, e manufatura de autos. Não vai parar por aqui. Um ex-vice-primeiro-ministro, Sergei Ivanov, que também é presidente da estatal Unified Aircraft Corp, propôs a formação de corporações estatais para empreendimentos de eletrônicos de rádio, óptica e espaço.

Rica como é, a Gazprom tem à sua frente muitos desafios na era Medvedev.

Os preços em alta para o aço, equipamentos e mão-de-obra pegaram a companhia no início de seu maior programa de capital em duas décadas. Como outras empresas russas, ela investiu pouco dinheiro na manutenção e atualização de seus equipamentos na década de 1990. Mas os dias de obsolescência da infra-estrutura da era soviética acabaram, com o declínio da produção e, campos perfurados pela primeira vez na década de 1970.

Para atender aos compromissos de exportação com a Europa assim como à crescente demanda interna, a Gazprom terá de gastar pelo menos US$ 75 bilhões para colocar em produção seus dois maiores campos no Ártico dentro da próxima década, segundo a Cambridge Energy Research Associates.

Embora a exploração e extração de gás em uma região onde as temperaturas chegam a 50 graus abaixo de zero sejam um desafio técnico, assim como caro, a Gazprom ainda precisa construir gasodutos, usinas de processamento de gás, fábricas de gás natural liquefeito e uma grande variedade de infra-estrutura de apoio que inclui estradas, ferrovias e portos. Para se alcançar tal meta, será preciso transportar milhares de toneladas de aço e equipamentos pesados para o meio de um vasto e congelado charco.

"A complexidade e o tamanho disso é o que se constitui no imenso desafio para a Rússia e para a Gazprom," disse Vitaly V. Yermakov, diretor de pesquisa para a região da Rússia e do Mar Cáspio na Cambridge Energy Research Associates.

Críticos dizem que a Gazprom forçou sua entrada nos escalões das gigantes da energia do mundo com táticas espalhafatosas e em geral desajeitadas, particularmente durante os anos de Putin no poder. O campo Yuzhno-Russkoye, que a Gazprom aponta como um exemplo de seu renascimento é um desses casos.

Richard W. Moncrief, um homem de petróleo de Fort Worth, diz que é o proprietário de direito de 40% do campo, que declara ter comprado em uma série de acordos com a Gazprom há cerca de dez anos. Mas ele diz que a Gazprom não reconhece o contrato, concedendo em vez disso à Basf, uma empresa alemã, uma participação de 35% no campo. Moncrief está processando a Gazprom em Berlim, alegando que sua participação agora vale US$ 12 bilhões.

A Gazprom sustenta que os acordos não são válidos: "A empresa nega quaisquer obrigações para com a Moncrief Oil em relação ao campo Yuzhno-Russkoye," disse a empresa em um comunicado.

Moncrief discorda, mas está pessimista quanto à sua posição legal.

"Ninguém jamais levou uma companhia russa a um tribunal que possa garantir o cumprimento de um contrato," ele disse em uma entrevista por telefone. "No fim, os russos farão exatamente o que querem, e vão usar o comércio ocidental para financiar seu país."

Executivos ocidentais dizem que o Kremlin está sempre de prontidão, cada vez que a Gazprom precisa de um incentivo.

No ano passado, a TNK-BP, uma joint venture russa envolvendo a BP e o Alfa Group, a Access Industries e o Renova Group, concordaram em vender à Gazprom um grande campo de gás na Sibéria depois que autoridades russas ameaçaram cancelar a licença do empreendimento para operar lá.

A Gazprom ofereceu de US$ 700 milhões a US$ 900 milhões pela participação da TNK-BP no campo e uma empresa local de distribuição de gás. É um acordo complexo que ainda precisa ser fechado. Sejam quais forem os termos, dizem analistas, dificilmente compensarão a BP pelo campo, Kovykta, que se acredita ter imensos suprimentos de gás— e pelos milhões de dólares que o empreendimento já investiu lá.

O porta-voz da Gazprom, Sergei V. Kupriyanov, disse que a Gazprom não é responsável pelos problemas com a regulamentação encontrados pela TNK-BP e que os termos refletem as condições de mercado.

Outros acordos envolvendo a Gazprom seguiram padrões semelhantes. Em transações envolvendo tanto a Shell quanto a BP, Putin reuniu-se diretamente com executivos das corporações. Durante algum tempo, os especialistas em Kremlin acharam que ele poderia ter continuado com o cargo de presidente da Gazprom; executivos dizem que Putin, um antigo espião, mostra um forte interesse nos negócios de gás e petróleo.

"O presidente certamente sabe tanto a respeito dos negócios da BP na Rússia quanto eu," disse Anthony B. Hayward, principal executivo da BP, após uma reunião na primavera passada, durante negociações para a venda do campo de gás Kovykta à Gazprom. "Deixei de me surpreender com sua atenção aos detalhes há algum tempo."

Um porta-voz do Kremlin, Dmitri S. Peskov, disse na ocasião que o papel do governo naquelas conversações era limitado por questões de regulamentação.

No primeiro ano de sua presidência, Putin recorreu à Gazprom para comprar uma estação de televisão da oposição, a NTV. Desde então, o setor de mídia da empresa, com cores políticas, se inflou com um balão, mas suas finanças em geral são obscuras devido a complexos acordos de parceria.

Quando a Gazprom eleva preços dos países no entorno da Rússia com democracias jovens, como a Ucrânia, a política externa do Kremlin e os interesses da Gazprom têm uma relação de simbiose: punir os opositores do Kremlin também traz receita à empresa.

Com a Gazprom contratualmente comprometida em exportar para clientes europeus bem longe no futuro, os problemas de qualquer lapso na produção serão sustentados pelo russo médio na forma de uma escassez de gás, dizem analistas.

Kupriyanov negou que a Gazprom tenha à sua frente uma limitação de produção. A empresa, ele diz, está explorando campos especificamente para atender às necessidades de clientes na Europa que possuem contratos de longo prazo.

Ele acrescentou que a empresa está se desfazendo de muitas das subsidiárias que foram alvo de críticas de analistas financeiros, para concentrar-se no seu programa de investimento de capital. Apenas em 2007, por exemplo, a empresa vendeu ativos que não faziam parte do núcleo de negócios no valor de 38 bilhões de rublos, ou US$ 1,6 bilhão.

Tais garantias, porém, não tranqüilizaram os críticos de Aleksei B. Miller, indicado por Putin e que deve continuar no cargo sob Medvedev, como principal executivo da Gazprom.

Mikhail D. Delyagin, ex-consultor econômico do presidente Boris N. Yeltsin, está céptico quanto à capacidade da Gazprom de entregar o novo gás a tempo ou no orçamento. Os recursos da Gazprom foram drenados para tantos empreendimentos políticos e paralelos que ela se tornou mais uma financeira que uma companhia energética - ameaçando sua capacidade de continuar bombeando gás, disse Delyagin.

"Miller transformou a Gazprom em carteira do Kremlin," ele disse. "Não se pode perfurar um buraco com uma carteira."

E mesmo assim, com o petróleo a mais de US$ 125 o barril, a carteira da Gazprom está cada dia mais recheada.

Depois da posse de Medvedev na semana passada, o valor da Gazprom superou o da General Electric e o da China Mobile, tornando a Gazprom a terceira maior empresa do mundo em valor de mercado.

"Se eles puderem forçar a situação e elevar os preços no mercado interno, essa empresa tem grandes chances de se tornar a maior do mundo," disse James R. Fenkert, sócio gerente da Red Star Management, um fundo de hedge que possui ações da Gazprom. "Não está longe disso." Cláudia Dall'Antonia

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