UOL Notícias Internacional
 

13/05/2008

Conformadas, mulheres seguem tradição de segregação radical na Arábia Saudita

The New York Times
De Katherine Zoepf
Em Riad, Arábia Saudita
A festa com dança na sala de estar de Atheer Jassem al-Othman seguia animada. As convidadas -cerca de 24 moças com pouco menos de 20 anos- tinham chegado, e Othman e a sua mãe serviam xícaras de chá adocicado e pratos de tâmaras.

De repente, a música cessou, e uma moça de 18 anos chamada Alia deu alguns passos à frente para falar.

"Meninas, tenho algo a lhes dizer", balbuciou Alia, parecendo balançar-se um pouco sobre os saltos altos. Ela fez uma pausa ansiosa, e as palavras seguintes foram proferidas rapidamente. "Fiquei noiva!". Ouviu-se um coro de gritos devido ao anúncio surpreendente, e Alia começou a chorar, assim como várias outras moças.

Shawn Baldwin / The New York Times 
Tradição: Shaden, 17, freqüenta ala familiar de restaurante com o pai e a irmã mais nova

A mãe de Othman sorriu e saiu da sala, deixando as garotas sozinhas com esse momento de emoção. Elas são amigas desde a época da escola, e Alia seria a primeira a se casar.

Uma foto do noivo no telefone celular de Alia -um militar de 25 anos chamado Badr- foi passada de mão em mão, e as pessoas passaram a questionar Alia incessantemente sobre os detalhes da sua showfa. Uma showfa -literalmente, uma "olhada"- geralmente ocorre no dia em que uma garota saudita fica noiva. Quando um pretendente chega para pedir a mão da moça ao pai dela, ele tem o direito de vê-la vestida sem a abaya, a longa túnica negra usada em alguns territórios árabes.

Em algumas famílias, ele pode bater um papo supervisionado com a moça. Segundo muitos sauditas, o ideal é que a showfa seja a única ocasião na vida da moça em que ela é vista desta forma por um homem de fora da sua família.

A separação entre os sexos na Arábia Saudita é tão radical que é difícil exagerar a descrição do fenômeno. As mulheres sauditas não podem dirigir, e precisam sempre usar abayas e coberturas na cabeça quando estão em público. Elas são transportadas pela cidade em carros de vidros escuros, e só freqüentam escolas e departamentos de universidades exclusivos para mulheres. As meninas e moças só comem nas seções "familiares" dos cafés e restaurantes, que ficam isoladas das seções utilizadas pelos clientes homens solteiros.

Ginásios esportivos, butiques, agências de viagem e até um shopping center exclusivos para mulheres foram construídos em Riad nos últimos anos para atender às mulheres que antigamente não tinham acesso a tais lugares públicos, a menos que estivessem acompanhadas por parentes do sexo masculino.

Apesar de brincalhonas, moças como Othman e as suas amigas estão bem conscientes dos limites que a sociedade conservadora a qual pertencem impõe ao comportamento delas. E, em sua maioria, elas afirmam que não questionam seriamente esses limites.

A maioria das moças diz que a sua fé -baseada na interpretação estrita do islamismo adotada pelo establishment religioso waabista daqui- é muito profunda. Ela discutem um pouco entre si quanto aos detalhes -se é aceitável ter homens na lista de amigos do Facebook, ou se um primo de primeiro grau deve ter permissão para ver a moça sem que esta tenha a face coberta- e fizeram várias perguntas a esta jornalista sobre o que os rapazes sauditas que conheci estão pensando e conversando.

Mas elas parecem encarar a idéia de conversar com um homem antes das suas showfas e os subseqüentes noivados com um horror bastante real. Quando elas falam a respeito de outras moças que conversam com homens pela Internet, ou que de alguma forma encontram os seus próprios noivos, estas histórias apresentam as características de lendas urbanas: os detalhes são nebulosos, dizem respeito a amigas de amigas ou de "alguém da sala de aula da minha irmã".

As jovens sauditas de boa condição financeira são tão isoladas dos garotos e homens que, quando falam sobre eles, às vezes têm-se a impressão que se referem a uma espécie diferente.

Mais tarde, naquela noite, durante uma refeição que consistiu de vagens cozidas, salada e pastéis de carne, Alia revelou que teria permissão para conversar com o noivo pelo telefone. Segundo ela, a primeira conversa telefônica estava marcada para o dia seguinte, e Alia estava tão preocupada com o que diria a Badr que fez uma lista de perguntas.

"Pergunte se ele gosta do trabalho que faz", sugeriu uma das amigas. "Acho que os homens adoram falar sobre o trabalho".

"Pergunte que tipo de telefone celular e de carro ele tem", sugeriu uma outra. "Dessa forma, você poderá saber como ele gasta o dinheiro, e descobrirá se ele é mão aberta ou sovina".

Alia assentiu com um movimento de cabeça, com os brincos negros balançando, e tomou nota. Ela estava tão nervosa durante a sua showfa que quase deixou cair a bandeja de suco que o seu pai lhe pediu que levasse para o noivo. Alia mal consegue se lembrar dos tópicos da conversa. Ela estava determinada a saber mais a respeito do noivo durante a próxima conversa.

Segundo cerca de 30 moças e mulheres sauditas de 15 a 25 anos de idade, todas entrevistadas em dezembro, janeiro e fevereiro últimos, está se tornando cada vez mais socialmente aceitável para noivas jovens conversar com os noivos ao telefone, embora as famílias mais conservadoras ainda proíbam quaisquer contatos entre o os dois.

É considerado embaraçoso admitir um sentimento forte por um noivo antes do casamento e, antes do noivado, qualquer contato com um homem é algo fora de questão. Mesmo assim, algumas jovens daqui às vezes recorrem a atividades clandestinas para poderem conversar ou se encontrar com homens, ou simplesmente dar uma rara olhada no mundo masculino.

Embora esteja próximo -nos escritórios em frente aos quais elas passam todas as manhãs a caminho da faculdade, ou em majlis, tradicional sala de recepção doméstica, onde os pais e os irmãos recebem os amigos-, o mundo dos homens é para elas tão remoto que algumas moças árabes recorrem a disfarces para nele se aventurarem.

Na Universidade Prince Sultan, na qual Atheer Jassem al-Othman, 18, é aluna do primeiro ano de direito, duas moças do segundo ano passaram recentemente um intervalo entre as aulas durante a manhã exibindo fotografias nas quais elas estavam vestidas como homens.

Nas fotos, as moças usavam thobes, as túnicas que vão do pescoço aos calcanhares, tradicionalmente usadas pelos homens sauditas, e cobriam a face com uma indumentária para a cabeça chamada shmaghs. Uma das moças usou um lápis de olhos para criar uma simulação de sombra cinzenta de barba no maxilar. Exibidas nos telefones celulares das duas moças, as fotos geraram exclamações e cumprimentos enquanto passavam de mão em mão.

"Muitas moças fazem isso", diz Sara al-Tukhaifi, 18, que explicou que uma garota e as suas amigas podem vestir-se de homens, com thobes surrupiados do armário de um irmão, e depois desafiarem umas às outras para ver quem tem coragem de entrar no universo dos homens de várias formas. Por exemplo, entrando em um McDonalds só para homens, ou até mesmo dirigindo um carro.

Shawn Baldwin / The New York Times 
Sara al-Tukhaifi, 18, no carro do irmão; mulheres sauditas são proibidas de dirigir

"É só um jogo", diz Tukhaifi, embora a detenção pela polícia religiosa seja sempre uma possibilidade real. "Eu mesmo não fiz isso, mas aquelas duas sabem como se disfarçar. Ela foram a uma loja e fingiram olhar uma outra garota -chegaram até a fazer com que a garota virasse o rosto para o outro lado".

Sorrindo, Tukhaifi imita os gestos, pressionando a face no canto da sua hijab com uma falsa modéstia exagerada, enquanto as colegas na sala riem. Os jornais sauditas muitas vezes lamentam o aumento do comportamento rebelde entre os jovens sauditas. Houve relatos de uma onda recente de confrontos sérios entre jovens e a polícia religiosa, e de um suposto aumento de relações amorosas entre jovens do mesmo sexo frustrados com a divisão rígida dos sexos.

E, certamente, práticas como a "numeração" -que consiste em um grupo de rapazes em um carro perseguir um outro automóvel no qual acreditam que haja uma moça, procurando transmitir os seus números de telefone em um pedaço de papel pela janela, ou via bluetooth- tornou-se uma parte visível da vida urbana saudita.

Uma mulher não pode ligar o seu aparelho bluetooth em um local público sem que receba uma enxurrada de poemas de amor e fotos de flores e de crianças pequenas que os homens armazenam nos seus telefones com o propósito de paquerar. E, no ano passado, a rede de televisão Al Arabiya anunciou que alguns jovens sauditas começaram a comprar "cintos eletrônicos" especiais, que usam tecnologia bluetooth para transmitir discretamente os seus números telefônicos e e-mails para pessoas do sexo oposto que passam por eles.

Tukhaif e Shaden conhecem casos de moças na faculdade que cultivam amizades apaixonadas, possivelmente com relacionamentos amorosos, com outras moças, mas afirmam que isso, assim como a prática de usar roupas masculinas, é apenas um "jogo" motivado pela frustração, algo que inevitavelmente acabará quando as moças em questão ficarem noivas. E elas e as suas amigas dizem que acham assustadora a experiência de serem perseguidas por rapazes em automóveis, e insistem que não ouviram falar de nenhuma garota que tenha de fato falado com um rapaz que fez contato via bluetooth.

"Se a sua família descobrir que você está conversando com um homem pela Internet, a reação não é tão ruim quanto seria se você falasse por telefone", explica Tukhaifi. "Pelo telefone, todos concordam que é algo proibido, porque o islamismo proíbe que um estranho ouça a sua voz. Já na conversa online, tudo o que ele vê é o seu texto, de forma que há um pouco mais de espaço para interpretação. Um teste consiste em verificar se você sente vergonha de falar a respeito disso com a sua família. Se sente vergonha, pode ter certeza de que o que está fazendo é errado. Durante um certo período, tive amigos do sexo masculino no Facebook -eu não enviei mensagens de e-mail nem fiz nada parecido, mas eles me pediram que os reconhecesse como "amigos". Mas, a seguir, pensei na minha família e retirei-os da lista".

Tukhaifi e Shaden falam com admiração sobre a polícia religiosa, que elas vêem como guardiã dos valores sociais sauditas perfeitamente normais. Shaden se gaba de um irmão mais velho que tornou-se multazim, um indivíduo muito rígido na sua fé, e que fez com que toda a sua família passasse a seguir à risca as práticas religiosas.

"Graças a Alá, ele tornou-se multazim quando estava na nona série", diz Shaden, com orgulho. "Lembro-me de como ele começou a deixar a barba crescer -era tão rala no início- e a usar um thobe mais curto". Os homens sauditas freqüentemente deixam a barba crescer bastante, e usam thobes cortados acima dos calcanhares como sinal de devoção religiosa.

"Sempre o procuro quando tenho algum problema", diz Shaden, que, assim como várias jovens sauditas entrevistadas para este artigo, falou à repórter com a condição que o seu sobrenome fosse omitido. "E ele não é rígido demais -às vezes, ainda ouve música. Certa vez perguntei a ele: 'Você faz tudo o que é correto, mas está escutando música?'. Ele respondeu: 'Sei que a música é haram e, inshallah, com o tempo também vou parar de ouvir'". Haram significa proibido, e inshallah quer dizer "se Alá quiser". Shaden acrescentou: "Eu lhe disse que gostaria de ter um marido como ele".

Shawn Baldwin / The New York Times 
Vestida com a abaya, Shaden, fala com orgulho dos rígidos valores sauditas

Shaden mora em um grande complexo em um subúrbio próspero de Riad; os irmãos do seu pai moram com as suas famílias em casas separadas do complexo, e as famílias compartilham um jardim e uma piscina. Shaden e vários dos seus primos do sexo masculino cresceram jogando constantemente futebol juntos, correndo em volta da piscina no verão e divertindo-se durante as férias da família.

Mas agora que, com 17 anos, ela é considerada uma mulher saudita adulta e precisa ficar confinada à esfera feminina, Shaden sente falta da companhia dos primos.

"Até a nona ou a décima série, costumávamos estender um carpete no gramado. Eu me sentava lá e tomava leite quente com os meus primos", recordou-se ela em uma noite de fevereiro, em frente à televisão. Ela servia a alguns amigas um prato que inventou, com um tempero à base de iogurte, maionese e tomilho.

"Mas a minha mãe e a mãe deles não se sentiram confortáveis com aquilo, de forma que paramos", contou ela. "Agora às vezes conversamos pelo MSN, ou pelo telefone, mas eles jamais poderão ver a minha face".

"Eu e a minha irmã às vezes perguntamos à nossa mãe: 'Por que você não amamentou também os nossos primos?'", continuou Shaden. Ela referia-se a uma prática chamada parentesco de leite que é anterior ao islamismo, e que ainda é comum nos países do Golfo Pérsico. Uma mulher não precisa usar véu em frente a um rapaz que amamentou quando ele era bebê, e as suas filhas biológicas também não precisam. Os filhos biológicos e outros que ela amamentou são considerados "irmãos de leite", e estão proibidos de casarem-se.

"Se minha mãe tivesse amamentado os meus primos, poderíamos nos sentar com eles, e tudo seria mais fácil", lamenta Shaden. Ela vira-se para uma pilha de DVDs e tira uma cópia de "Pride and Prejudice" ("Orgulho e Preconceito"), com Keira Knightley e Elizabeth Bennet, um filme que diz já ter visto dezenas de vezes.

"Acho que é um pouco como a nossa sociedade", disse Shaden, referindo-se à Inglaterra georgiana. "É algo digno, e um pouco rígido. Isso não lembra um pouco a Arábia Saudita? É o meu DVD favorito".

Shaden suspirou profundamente. "Quando Darcy aproxima-se de Elizabeth e diz 'Eu te amo' -sinto que este é exatamente o tipo de amor que desejo". UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,21
    3,129
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h35

    0,04
    76.004,15
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host