UOL Notícias Internacional
 

13/05/2008

Krugman: a não-bolha do petróleo

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
"A Bolha do Petróleo: Prestes a Estourar?" Esta era a manchete de um artigo de outubro de 2004 no "National Review", que argumentava que os preços do petróleo, na época a US$ 50 o barril, logo despencariam.

Dez meses depois, o petróleo era vendido a US$ 70 o barril. "É uma bolha imensa", declarou Steve Forbes, o publisher, que alertou que o crash que se aproximava nos preços do petróleo faria o estouro da bolha de tecnologia "parecer um piquenique".

Ao longo de todos os cinco anos de aumento do preço do petróleo, que saltou de US$ 25 o barril até o fechamento na semana passada acima de US$ 125, há muitas vozes declarando que é tudo uma bolha, não apoiada pelos fundamentos da oferta e demanda.

Então aqui temos duas perguntas: são os especuladores os principais responsáveis pelos altos preços do petróleo? E se não são, por que tantos comentaristas insistem, ano após ano, que há uma bolha de petróleo?

Os especuladores às vezes pressionam os preços dos commodities acima do nível justificado pelos fundamentos. Mas quando isso acontece, há sinais que denunciam e eles não estão presentes no mercado de petróleo atual.

Imagine o que aconteceria se o mercado de petróleo estivesse com um movimento aquecido, com a oferta e demanda equilibrada a um preço de US$ 25 o barril, e um bando de especuladores viesse e elevasse o preço a US$ 100.

Mesmo que isto fosse uma peça puramente financeira por parte dos especuladores, isto provocaria grandes conseqüências no mundo material. Diante dos preços mais altos, motoristas rodariam menos; proprietários de imóveis desligariam seus termostatos; proprietários de poços de petróleo marginais os colocariam em produção.

Como resultado, o equilíbrio inicial entre oferta e demanda seria quebrado, substituído por uma situação de oferta maior que a demanda. Este excesso de oferta, por sua vez, derrubaria os preços de novo -a menos que alguém estivesse disposto a comprar o excesso e tirá-lo do mercado.

A única forma da especulação ter um efeito persistente sobre os preços do petróleo, então, seria o acúmulo físico -um aumento dos estoques privados. Isto de fato aconteceu no final dos anos 70, quando os efeitos da perturbação da oferta iraniana foram ampliados pela disseminação da estocagem motivada pelo pânico.

Mas não aconteceu desta vez: por todo o período da suposta bolha, os estoques permaneceram mais ou menos nos níveis normais. Isto nos diz que o aumento dos preços do petróleo não é resultado de especulação desenfreada; é resultado dos fatores fundamentais, principalmente da crescente dificuldade em encontrar petróleo e do rápido crescimento de economias emergentes como a China. Este aumento nos preços do petróleo nos últimos anos tinha que acontecer para impedir que o aumento da demanda superasse o aumento da oferta.

Dizer que o alto preço do petróleo não é uma bolha não significa que os preços do petróleo nunca cairão. Eu não ficaria chocado se uma redução da demanda, provocada pelos efeitos retardados dos preços altos, derrubasse o preço do petróleo de volta para abaixo de US$ 100 por algum tempo. Mas isso significa que especuladores não estão no centro da história.

Por que, então, continuamos ouvindo afirmações de que estão?

Parte da resposta pode se dever, sem dúvida, ao fato de muitas pessoas agora estarem investindo em futuros de petróleo -o que alimenta a suspeita de que especuladores estão comandando o show, apesar de não haver boa evidência de que os preços saíram da linha.

Mas também há um componente político.

Tradicionalmente, a condenação a especuladores vem da esquerda do espectro político. Mas no caso dos preços do petróleo, os defensores mais vociferantes da visão de que tudo é culpa dos especuladores são os conservadores -pessoas que você normalmente não esperaria ver alertando contra as atividades nefastas de bancos de investimento e fundos hedge.

A explicação para este aparente paradoxo é a de que o desejo fantasioso venceu a ideologia pró-mercado.

Afinal, uma visão realista do que aconteceu nos últimos anos sugere que estamos caminhando para uma era de petróleo cada vez mais escasso e caro.

As conseqüências da escassez provavelmente não seriam apocalípticas: a França consome apenas metade do petróleo per capita que os Estados Unidos, mas da última vez que vi, Paris não era um deserto desolador. Mas as chances são de que estamos diante de um futuro no qual a economia de energia se torne cada vez mais importante, no qual muitas pessoas possam até -nossa- tomar o transporte público para ir trabalhar.

Eu não considero essa visão particularmente abominável, mas muitas pessoas, especialmente na direita, consideram. Então eles preferem acreditar que se a Goldman Sachs parar com sua postura negativa, nós rapidamente voltaremos aos bons velhos tempos do petróleo abundante.

Novamente, eu não ficaria surpreso com uma queda nos preços do petróleo no futuro próximo -apesar de também levar a sério o recente alerta da Goldman de que o preço poderá chegar a US$ 200. Mas chega desta conversa sobre bolha do petróleo. George El Khouri Andolfato

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